Segue a quinta parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.
Para quem está seguindo pelo blog: decidi mudar o nome da máquina, será Eva. Então a partir daqui troquem o nome da máquina de Ana para Eva, ok?
Claudius conduziu Eva ao seu alojamento. O rosto cansado da jovem e seu olhar perplexo era perceptível.
-Amanhã iniciaremos os primeiros testes para a fase seguinte do projeto. -Claudius disse e fechou a porta do quarto atrás de si.
Eva ficou alguns minutos olhando para a porta fechada com o cérebro a mil. Seria tudo aquilo verdade? A porta a sua frente não existe?
-Eu sou uma máquina?
E deixou-se cair sentada na cama sentindo o lençol quente sob si. Estes lençóis que também não deveriam existir de qualquer maneira. Exausta e sem forças para continuar remoendo aquelas novidades, Eva por fim caiu no sono. Um sono intranquilo.
Estava ela sentada no topo de um edifício contemplando a grandeza da cidade, com suas luzes e amaranhados de prédios. O céu estava cheio de nuvens escuras e maus preságios. Sua mente estava límpida e clara. Sentia a brisa leve e fria roçando seus cabelos e seu rosto. Um arrepio foi a primeira reação. Eva ergueu as mãos e fechou os olhos para sentir o fluxo de ar deslizando em seus dedos, escorrendo em seus braços. De súbito, em um rápido movimento com as pernas, ainda com os olhos fechados, ela se lançou ao vazio. A velocidade da queda aumentava a cada fração de segundo. Mantendo os olhos fechados Eva aguardava o baque no asfalto e o o fim de tudo. No entanto a queda não terminava. Abriu o olhos e se viu em uma escuridão impenetrável em todas as direções, e em uma queda sem fim. De sua garganta tentou emitir em um grito todo seu desespero, porém nada saiu…
Abriu os olhos sobressaltada e levantou-se rápido. Estava ainda em seu pequeno quarto.
A porta abriu-se assustando-a. Alguém estava à porta:
-Você está bem? O que aconteceu?
Ela então percebeu que o grito fora real, e chamou a atenção de alguém mais. Observou o jovem senhor que aparentava seus trinta a quarenta anos, mas tinha um ar muito jovial. Suas roupas brancas o identificavam como um médico. Antes que ela pudesse responder ele pegou uma de suas mãos enquanto tentava medir algo em seus olhos. A outra mão tocava-lhe o rosto, como que posicionando os olhos de determinada maneira.
-Você está bem? – ele repetiu.
Eva o afastou com cuidado para não parecer rude:
-Estou bem. Mas, … quem é você?
Ele se aprumou e com certa cerimônia apresentou-se:
-Eu sou Doutor John Carter e sou seu novo analista. – e mudando a postura quase automaticamente, franzindo a testa continuou: – Você deu um grito assustador agora a pouco. Era um pesadelo?
-Sim, um pesadelo.
-Nós temos nossa primeira consulta marcada amanhã pela manhã. Mas, se quiser conversar agora, estou disponível.
-Como assim, nem sei que horas são. E, que estranho, o que você faz acordado a esta hora?
-Já deve saber que temos turnos para acompanhá-la. E este é meu horário. Agora que já sabe o que você é, vamos lidar com isso de outra forma. Sempre que precisar temos alguém de plantão dia e noite. Além do mais, eu não consegui dormir ainda conectado.
-Não entendi…
-Bom, nós estamos agora no Simulador, e como ainda não me acostumei com isso, não consigo dormir.
-Você fica ligado direto ao Simulador? Dia e noite?
-Pois é. Quem está a mais anos no projeto já acostumou-se com o processo de conexão e desconexão. Nós que chegamos agora… É algo terrível, parece que tentavam arrancar minha cabeça!
-Tem mais pessoas que chegaram agora?
-Sim. Fomos recrutados para a fase três.
Eva olhou-o novamente e percebeu uma certa agitação no doutor.
-A fase em que vão me tornar totalmente software?
Desta vez foi Carter que não respondeu imediatamente. Pelo seu olhar não pensava que ela já saberia disso. Ele suspirou e perguntou:
-Você não está com medo?
-Eu deveria estar?
-Se fossem mexer tão a fundo na minha cabeça, bom, eu estaria petrificado. Eu mesmo estou com medo. Se algo der errado será desastr…
Enquanto ainda falava entrou no quarto Claudius com os olhos irados:
-O que faz aqui Carter? Não foi instruído sobre o protocolo?
Doutor Carter pareceu murchar. Constrangidíssmo e gaguejando respondeu e saiu a seguir:
-Desculpe-me, já estou indo. É que ela teve um pesadelo… e eu…
-Ela tem pesadelos todos os dias desde sempre, – Claudius retrucou.
Eva nunca o vira tão transtornado.
-Ele só estava tentando me ajudar. Deixe-o em paz.
Carter já estava longe e Claudius teve que esforçar-se por alguns minutos até acalmar-se.
-Desculpe menina. É que as coisas aqui estão estressantes. Não podemos falhar por causa da curiosidade de um novato.
-Carter não pareceu-me assim tão novato.
-Ele chegou aqui ontem. Ainda está com a ressaca da conexão. Amanhã terá sua consulta com você e ele poderá matar sua curiosidade.
-Ele não estava curioso. Na verdade eu é que fiquei, após as coisas que ele disse.
-É por isso que ele não deveria estar aqui. Temos muito o que esclarecer, e pouco tempo. E você tem que descansar. Amanhã é um dia duro e você não pode estar sonolenta.
-A fase três do projeto começa amanhã?
-A fase três já começou, menina. Estamos trabalhando nela a anos. Amanhã você verá.
-Não consigo dormir. Não tem nada que possam fazer a respeito?
-Lembre-se das aulas de relaxamento. Quem sabe isso ajuda. Vá dormir.
-Está certo.
Ela fez um olhar contrariado e tentou ainda mais uma pergunta:
-Claudius, algo pode dar errado?
-Agora chega, Eva. Vá dormir.
Resignada ela deitou-se novamente e tentou afastar os pensamentos e controlar o coração e a respiração, conforme a aula de relaxamento recomendava.
Claudius afastou-se pelo corredor, parando diante da porta onde estava Carter. Ao abrir Carter o esperava. Estava sorrindo e descontraído:
-Então Claudius? Como me saí?
-Acho que ganhará a confiança dela. A história de estar com medo foi perfeita.
-Será que esta aparência que me arrumaram é a mais adequada? Ela é lindíssima e deve querer alguém mais apessoado…
-Pare com isso, Carter. Já disse que o ideal é ser assim, um tanto normal, frágil. Isso ajuda a identificar-se com você. E tem mais, ela não teve contato com muitas pessoas, então isso facilita muito. Ela já demonstrou que sabe o que pretendemos fazer?
-Ela entendeu parte da ideia. Mas ainda não toda.
- Perfeito. Amanhã daremos início ao processo.
Eva continuou a noite toda sem pregar o olho. Preferia o cansaço a novos pesadelos.
Ainda não decidi o sobrenome de Ana, digo Eva. Gostaria de receber sugestões. Fiquem a vontade. Aliás, mandem suas idéias nos comentários. A participação de vocês é bem vinda e desejável.











