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Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 10

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Estou prosseguindo com a publicação de mais um dos capítulos de meu livro Vermelho Vivo.
Para conhecer o tema do livro, e começar a leitura do início, clique aqui.

Para quem está ansioso pela demora dos capítulos, tenho uma ótima notícia: já terminei de escrever o livro inteiro. Ele será publicado e estará a venda neste blog nas próximas semanas. Está em fase de revisão e acabamento. Portanto, se não quiser esperar a publicação de cada capítulo, ou quer ter a obra em sua estante, prepare-se!

Para ler o livro desde o início comece em:
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Só para registrar quantos estão acompanhando e gostando do livro aqui no site, vou sortear um e-book da versão completa do livro entre aqueles que deixarem uma mensagem nos comentários deste capítulo. Para concorrer e conhecer primeiro de todos o desenlace desta história basta deixar uma mensagem nos comentários. Não esqueça de colocar um e-mail válido para que eu possa enviar o e-book.

Concepção Artística do pouso da sonda Phoenix em Marte. (2008) Crédito: NASA Mars Collecton

Concepção Artística do pouso da sonda Phoenix em Marte. (2008) Crédito: NASA Mars Collecton

Capítulo 10 – O Pouso da Phoenix

No centro de controle no JPL, acompanhávamos atentamente o momento do pouso da sonda. Dezenas de técnicos seguiam cada uma das fases do pouso de seus terminais, enquanto eu, Anna, Gavin, Reynaud e Won estávamos de pé no fundo da sala.

A sala de controle tinha o formato de uma rampa descendente e na parede da frente um grande telão apresentava várias informações e gráficos. Várias fileiras de mesas com telas de computadores estavam ocupadas por técnicos e engenheiros, cada um com suas atribuições e sua face tensa e concentrada. A decoração era toda em um azul berrante com alguns
logotipos espalhados.

Nós olhávamos tudo por cima dos ombros dos engenheiros enquanto ouvíamos as informações de um dos técnicos, responsável pela integração dos dados. Ele narrava cada uma das atividades com um entusiasmo crescente conforme os passos eram realizados.

-Ativação dos retrofoguetes, detectado;

Esta era a primeira ação: os retrofoguetes ativos provocavam a frenagem da nave que estava em órbita de Marte. A nave perderia altura e o atrito com a pequena atmosfera geraria um círculo vicioso.

-Cinco minutos para contato;

-Velocidade diminuindo em cinquenta por cento;

-Eliminação das amarrações, detectado;

-Ativar segundo nível de retrofoguetes, detectado;

A cada ação uma comemoração ainda tímida se ouvia. Gavin com os punhos serrados socava o ar impaciente. Anna permanecia sentada com a mão direita apoiando o queixo, com um olhar desdenhoso e em completo tédio. Achei aquilo estranhíssimo, porém meu nervosismo era tanto, que na hora nem pensei muito a respeito.

-Cinquenta metros e diminuindo;

-Paraquedas acionados, abertura detectada;

Esta ação arrancou palmas e alguns gritos mais efusivos;

-Um minuto para o contato;

-Trinta metros;

-Eliminação da capa de proteção, detectado;

-Acionar laser para medida de aproximação, detectado;

-Quinze metros;

-Remover proteção de trem de pouso, detectado;

-Dez metros;

-Acionar trem de pouso…

Um grande silvo agudo, seguido de apitos intermitentes como de um monitor cardíaco tomou conta da sala. Um sinal laranja piscou no telão em nossa frente. Todos levantaram os olhos para o telão. Gavin virou-se para um dos engenheiros que não tirou os olhos de seu monitor.

-Problemas com o trem de pouso, detectados;

-Cinco metros;

-Quatro metros;

Doutor Gavin, começou a gesticular enquanto berrava tentando ser ouvido pelo rádio. Eu toquei seu ombro para descobrir o que havia. Num gesto ele me afastou sem nem mesmo me olhar.

-Novo acionamento do trem de pouso…

-Problemas com o trem, detectados;

-Três metros;

-Dois;

-Dois e meio;

-Dois;

-Um e meio;

-Contato;

Todos fizeram um silêncio tenebroso. Somente o som do apito cortava a sala. Aguardamos os segundos seguintes até a definição. Eu levei minhas mãos ao rosto, torcendo pelo melhor. O sinal do rádio do responsável pela integração foi acionado e a resposta veio rápida:

-Sinais da sonda perdidos;

No mesmo instante o apito parou e o sinal laranja na tela mudou para vermelho. Uma exclamação de espanto e decepção ecoou pela sala.

Gavin arrancou o rádio e lançou no chão em um acesso de raiva.

-Perdemos todos os sinais de rádio;

-Sonda destruída no pouso. – e o técnico desligou seu rádio definitivamente.

Eu permaneci de pé por vários segundos. Um milhar de pensamentos desordenados tomou conta de meu cérebro. O chão sumiu embaixo de mim e eu senti minhas pernas tremendo. Sentei-me e não consegui ver nada ao meu redor.
Não sei quanto tempo fiquei ali desligado de tudo. Porém assim que me recobrei, olhei para os lados e tentei entender o que havia acontecido. Três anos do meu trabalho foram destruídos em uma fração de segundo. Nossas esperanças de termos nossas respostas imediatamente, foram frustradas.

Anna continuava impassível. A mão direita apoiando o queixo e o olhar entediado. Levantei-me indo em sua direção:

-O que há com você Anna? Não percebe o que acaba de acontecer? – eu disse em um acesso de fúria.

-Você é que não percebe Schumann. Você é que não percebe… – disse em um tom calmo e com autoridade. E ela deixou a sala sem nem mesmo olhar para trás. Andando devagar, como que me provocando.

Mister Won percebeu meu abatimento e me chamou para fora, enquanto todos na sala discutiam e recebiam ordens de Gavin para rever a telemetria e tentar descobrir o que havia acontecido.

Eu segui Won desanimado. E nem percebi que ele também estava tranquilo e seguro. No corredor ele começou a falar. Só depois dele dizer várias palavras eu comecei a realmente a ouvi-lo:

-… e não esperávamos nada diferente disso. Acha que quatro meses é o suficiente para um projeto desta complexidade? Pior: fizeram as escolhas erradas.

-Do que você está falando? Quem esperava este resultado?

-Eu esperava por isso. Anna também. Ela já participou do lançamento e pouso de outras sondas antes. Ela sabe que o pouso em Marte é traiçoeiro. Esta era uma sonda barata e de alto risco. Você ainda não tem experiência nesta área. Vai acostumar com as perdas.

-Espere aí, Won. E quanto a nós? Nosso pouso lá terá tantos riscos assim? Também poderemos nos espatifar no solo de Marte?

Won me olhou totalmente incrédulo.

-Carl. Você não entende mesmo não é? Nosso voo para Marte é quase um suicídio! Temos pouca chance de voltarmos com vida. Não acredito que você não tinha esta noção. -Ele falava e balançava a cabeça negativamente.

Eu senti minhas pernas novamente falharem. Ele percebeu e me apoiou e levou até um bebedouro onde me deu um pouco d’água.

-Não queria te assustar Carl. Mas, você sabe, ainda está em tempo de desistir. Você pode…

Desistir, este pensamento cruzou minha cabeça naquele instante. No entanto eu respondi:

-Não vou desistir. –e uma onda de coragem, ou idiotice, tomou conta de mim e me senti forte para enfrentar o medo que me paralisou. – Estaremos juntos em Marte, Won. Nem que seja para espatifarmos naquele monte de poeira vermelha.

Ele sorriu confiante:

-Só espero que este problema não atrase demais nossa missão.

Ficamos na Califórnia somente poucos dias após o acidente. O tempo suficiente para sabermos a causa: um dos sistemas de acionamento do trem de pouso falhou, causando o travamento dos outros. O impacto da sonda diretamente sobre o solo, apesar da pouca velocidade, deve ter causado o desligamento do equipamento.

A reação fria de Anna durante o pouso deixou-me totalmente irritado com ela. Eu não conseguia nem olhar para ela sem que uma raiva enorme me dominasse e fizesse afastar-me o mais rápido possível.

Uma raiva crescente tomava conta de mim, e piorava a cada vez que via ela e Won sorridentes pelos corredores do Laboratório.

Por fim, voltamos para Houston, para prosseguir com os treinamentos. O Diretor Gavin ficou de determinar o que faríamos a respeito: se lançaríamos uma nova sonda, ou nos arriscaríamos a uma viagem ao planeta Marte sem os dados conclusivos. Provavelmente a meta de irmos até a fim da década, ou não seria alcançada, ou teríamos que desistir de uma sonda.


Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com

Para os leitores no site, isso é tudo. Se chegou até esta parte da história e quiser saber o desenlace, compre o livro e prestigie o autor.

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Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 9

quinta-feira, 20 de novembro de 2008
.!.

Mais um capítulo do Livro Vermelho Vivo, de minha autoria.
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Presidente Nixon visita JSC com equipe da Apollo 13. (1970). Crédito: NASA Johnson Space Center

Presidente Nixon visita JSC com equipe da Apollo 13. (1970). Crédito: NASA Johnson Space Center

Capítulo 9 – Lançando o desafio

Finalmente começamos o treinamento para nos tornar astronautas. A bateria de testes físicos iniciais foi algo bem mais simples que eu imaginava. Exames clínicos comuns, um teste ergométrico em esteira, e uma tomografia completa. Todos gozávamos de perfeita saúde.

Pelo menos, saúde física. Quanto à saúde psicológica, bem, essa era outra história. Mas teríamos tempo para lidar com isso.

A primeira semana em Houston foi de grande animação e agitação. Conhecemos o local onde viveríamos os próximos dias, nossos novos instrutores e toda a infra-estrutura de treinamento.

O Presidente chegou no fim de semana seguinte e foi preparada uma coletiva de imprensa onde ele iria divulgar os termos da missão e nos apresentar. Seu discurso foi realmente inspirador, embora não todo verdadeiro. Era um dia de Sol e estávamos em um palco armado próximo a um dos lagos. As câmeras de todas as emissoras estavam lá presentes:

-Senhoras e senhores cidadãos deste país. Todos os presentes sabem que nós estamos nos preparando para uma nova conquista espacial. Desde o grande desafio de Kennedy para levarmos o homem à Lua, não tivemos momentos tão especiais. Momentos especiais e desafiadores.

-Eu era apenas um garotinho quando Armstrong disse aquelas palavras grandiosas: “Um pequeno passo para um Homem e Um grande passo para Humanidade”. Mas hoje é preciso um passo ainda maior. Chegou a hora de irmos mais longe. Conquistarmos e fincar nossos pés em um novo destino.

-A motivação para a conquista da Lua, pode até ter sido uma guerra fria, e uma corrida sem sentido. Porém, hoje somos todos aliados. Estão conosco representantes de todas as nações com tecnologia espacial.

-Estes mais de 50 anos sem visitarmos nossa companheira mais próxima, não representaram de forma alguma um atraso. Foi como uma inspiração antes do mergulho em águas mais profundas.

-Precisávamos dominar novas técnicas. Viver sem a gravidade é ainda um desafio. Mas estamos aprendendo.
-No próximo mês realizaremos uma nova visita a Lua. Seis de nossos melhores homens e mulheres irão pisar novamente naquele terreno poeirento.

-Mas desta vez isso será apenas um passo. Após ele iremos mais longe. Daremos o passo seguinte: Nós iremos a outro planeta.

-Estamos aqui, reunidos neste dia ensolarado, nesta tarde, para anunciar que a humanidade terá representantes pisando em Marte antes do fim da década! Nós o faremos.

Todos de pé ovacionavam o Presidente com uma calorosa salva de palmas. Ele fez um sinal para que parassem e prosseguiu:

-Queria lembrar a descoberta de Encélado. Esta pequena lua de Saturno, antes desconhecida de quase todos, tornou-se um lugar especial. Continuamos estudando todos os dados das sondas gêmeas. E novas informações podem aparecer ainda.

-Marte pode se tornar ainda mais especial. Com o que temos hoje de tecnologia, não podemos ainda ir visitar Encélado com nosso pessoal. Mas Marte está ali, próximo, possível. É o pássaro na mão.

-Gostaria de apresentá-lhes as pessoas que irão realizar este feito grandioso. Cada uma delas tem uma participação importantíssima na missão.

Levantamos os seis, e o Presidente nos apresentou:

-Estes são os representantes das nações amigas, que estão partilhando conosco deste momento mágico:

-Mister Liwei Won, engenheiro espacial, responsável por navegação, engenharia e pela participação chinesa no projeto;

-Doutora Claire Sophie, astronauta e engenheira, representando a agência europeia;

-Doutora Anna Ivanova, bioengenheira, participante da nação russa, irá realizar os experimentos mais importantes junto com o representante americano:

-Doutor Carl Schumann, biólogo, responsável pelos equipamentos e experimentos para a detecção de vida em Marte.

Não consegui me conter diante da apresentação. Minha emoção foi muito grande. Finalmente senti o peso da responsabilidade em minhas costas. Por sorte, eu não iria dizer nada, pois com certeza, gaguejaria.

-Por fim, quero apresentar dois de nossos melhores astronautas, respectivamente Comandante e Piloto da nave:

-Capitão Jayson Palmer e John Albert.

-Devo informar que ambos também estão escalados para o primeiro voo para Lua do projeto Constelation, que será realizado daqui alguns meses.

Neste momento o público aplaudiu ainda mais e os flashes das câmeras não paravam de ofuscar nossos olhos.

Bem ao meu lado, o Capitão Palmer sussurrou sorrindo muito:

-O discurso do Kennedy foi muito melhor que esta porcaria. Não conseguiu sequer uma frase de efeito?! – bateu no meu ombro e continuou acenando com entusiasmo para os fotógrafos.

O Presidente nos cumprimentou um a um posando para fotos e saiu de lá sem demora em seu helicóptero presidencial.

Fiz mentalmente as contas, e percebi que o Presidente nos deu apenas quatro anos para visitarmos Marte.

Aquele momento, naquela mesa, seria a última vez que nos encontraríamos até a fase final do treinamento. Palmer, John Albert e Claire não iriam participar do treinamento básico conosco, uma vez que já o tinham realizado. Eu, Anna e Mister Won permanecemos em Houston, enquanto os outros se preparavam para o seu voo até a Lua. Nos despedimos e cada um seguiu seu rumo.

Nosso treinamento básico foi realizado junto com uma turma normal do processo de formação da NASA. Evidentemente éramos motivo de curiosidade nos primeiros dias. Mas logo todos se acostumaram conosco.

O curso iniciou com muito estudo teórico, onde aprendíamos ciência, matemática, e muito sobre a tecnologia espacial. Estudamos os efeitos da falta de gravidade no organismo e o que deveríamos fazer para combater estes problemas.

Basicamente estudávamos em salas de aulas comuns durante grande parte do dia, e no fim da tarde realizávamos uma série de exercícios físicos para estarmos preparados para a viagem.

Não conseguimos manter contato direto entre nós três, devido à intensa carga de treinamento. Na verdade, eu mal consegui trocar duas ou três palavras com Anna durante estes seis meses. Eu a observava de longe e via o quanto ainda guardava seu luto. Uma tristeza sem fim tomava conta de seu semblante durante o tempo todo.

O Dr. Peter Martin continuava ligando para saber as novidades. Era reconfortante ouvir sua voz amiga e poder discutir o andamento do treinamento e expor minhas dúvidas e preocupações.

Iniciamos também o tratamento com um psicoterapeuta. Eu achei muito difícil falar sobre mim e minhas neuroses. Eu nunca havia feito terapia e para mim parecia algo totalmente inútil.

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Os seis meses passaram voando e terminamos esta fase do treinamento com ótimo rendimento e prontos para voltar à Califórnia e colocar a sonda Phoenix 2 para funcionar.

Durante o último mês antes de retornarmos, ficou claro que se para mim a terapia foi inútil, para Anna foi muito diferente: ela foi livrando-se da dor e da mágoa, e pareceu outra pessoa no retorno ao JPL.

Porém ela permanecia resistente à minha aproximação. E ficou claro que era algo pessoal, já que ela e Mister Won tornaram-se bons amigos. Muitas vezes no ginásio de esportes observei os dois conversando e sorrindo, enquanto se exercitavam na esteira. Confesso que não fiquei nada contente com isso. Meu coração parecia queimar-se ao vê-los juntos.

Ainda teríamos muito tempo de treinamento pela frente. Mas os seis meses de viagem da Phoenix até Marte já tinham passado e teríamos que analisar os seus resultados.

Voltamos ao JPL, em Pasadena, Califórnia para os momentos mais decisivos para o projeto até aquele ponto. Nossa sonda seria posta à prova e poderíamos ver o resultado de nosso trabalho.


Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com

Continua…
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Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 8

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

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Mais um capítulo do Livro Vermelho Vivo, de minha autoria.

Lançamento da Viking 1. (1975). Crédito: Kennedy Space Center (KSC)

Lançamento da Viking 1. (1975). Crédito: Kennedy Space Center (KSC)

Capítulo 8 – Tempo de Morrer e Tempo de Nascer

Logo ficamos todos sabendo o motivo da viagem de Anna: seu marido, Boris, morreu em combate. Nenhum detalhe a respeito foi divulgado, como acontece em muitas guerras. O corpo foi levado da Tchetchênia até Moscou em um caixão lacrado. A nota de falecimento dizia que ele fora enterrado no cemitério Novodevichy. E seu túmulo ficara próximo do de Nikita Khrushchev.

Fiquei com o coração partido por ela. Naquela última conversa que tivemos, pude perceber claramente o quanto ela estava sofrendo. Imaginei porém, que esta definição sobre o que havia acontecido com o marido, de certa forma, lhe traria algum alívio. Talvez trouxesse sentimentos contraditórios de dor e alívio.

Ela ficou afastada por quatro semanas. O ambiente no laboratório não era dos melhores. Um recorrente murmurinho rodava pelos corredores, sobre a visita de Won e o sumiço de Anna e também Gavin. Won retornou à China imediatamente para finalizar a preparação do lançamento da Phoenix.

Todos especulavam a respeito do teor daquela reunião que tivemos. Não era segredo nenhum que uma reunião com o diretor Gavin era sempre seguida de mudanças estruturais nos rumos dos projetos.

Num dia atribulado, Cláudio procurou-me para tentar arrancar algum detalhe. Porém eu fui claro quanto ao nível de segurança das informações daquela reunião. Ele sabia bem o que isso queria dizer.

Aquele dia foi muito cansativo. Além de ter de responder aos questionamentos de Cláudio, estava revendo os relatórios com os resultados estatísticos da sonda. Tentava me convencer que ela seria suficiente para confirmar a vida em Marte. Sentei em meu sofá e os papéis começaram a ficar cada vez mais confusos. Acomodei-me melhor e devo ter dormido. Meus pensamentos iam até Moscou e eu tentava imaginar uma maneira de atenuar o sofrimento de Anna.

Com o laboratório envolvido por uma penumbra e meus olhos pesados, notei alguém entrando na sala. Não consegui vê-la corretamente, mas aproximou-se e pude perceber seus olhos castanhos. Sentia-me amarrado ao sofá, uma sensação estranha, mas familiar. Sem dizer uma palavra ela tocou meus lábios de leve com seus dedos longos, e meu corpo
reagiu. Mas não consegui me mexer. Agarrando meu pescoço, ela beijou-me os lábios com desejo, e entrei em um êxtase com aquele sabor doce e quente em minha boca. Parecia que flutuava no ar. Mas nada era bem definido. E na ânsia de agarrá-la tentei me mover. Mas algo parecia me manter imóvel. Fiz um esforço enorme para alcançá-la e acabei acordando.

Era apenas um sonho.

E ela era Anna.

Fiquei perturbado demais. Comecei a repensar sobre meus sentimentos para com ela, e percebi que não era apenas uma amizade sincera o que eu esperava. Senti-me culpado e confuso por nutrir este sentimento naquele momento em que ela estava tão frágil.

Recolhi os papéis do chão e procurei me concentrar em outra coisa. Afinal neste momento ela estava do outro lado do mundo velando seu marido.

Tinha que me ocupar daquela especulação que começou a aumentar no laboratório. Porém, nos dias seguintes ela logo deu lugar a uma grande ansiedade. O dia do lançamento de nossa sonda aproximava-se e todos esqueceram a tal reunião.

Um pequeno atraso na integração da nossa sonda ao foguete chinês adiou em algumas semanas o lançamento da Phoenix. Assim, com duas semanas de atraso, viajamos, eu e Dr. Reynaud, para a província de Sichuan, na China, para acompanhar o lançamento pessoalmente.

Chegamos a tempo de rever a sonda, já fixada no foguete. Won recebeu-nos com entusiasmo e com sua simpática humildade.

Era um dia ensolarado e pudemos acompanhar junto a outras autoridades a contagem regressiva. Os motores do foguete entraram em ignição: um forte barulho e leve tremor tomaram conta do bunker onde estávamos. Era possível ver a parte inferior do foguete acender em chamas.

Naquele instante alguém me tocou nos ombros por atrás. Eu girei num susto e quando focalizei aquela face, reconheci aqueles olhos castanhos.

-Olá, camarada! – Anna não disse mais nada, somente deu um sorriso amarelo.

-Eu sinto muito por tudo, doutora. – e veio-me à memória aquele beijo de meu sonho, porém me calei, já que não adiantava mais falar, o barulho do foguete virou um estrondo absurdo, fazendo-nos levar as mãos aos ouvidos e nos virar para ver o lançamento.

Ela vestia um vestido preto, ainda em luto. E o preto caia-lhe muito bem. Estava lindíssima.

O foguete partiu da base de lançamento Xichang rumo a Marte. Eu, Anna, Reynaud e Won observamos o lançamento e nos olhamos com a esperança que aquela sonda respondesse as nossas dúvidas. Assim que o estrondo passou, ela virou-se para mim e disse:

-Eu estou bem Carl. Não se preocupe. E pare de me chamar de doutora, por favor. Anna. É assim que deve me chamar agora.

-Está bem dout… – quase errei, e sorrindo corrigi-me – Anna. Seja bem vinda de volta à equipe!

Conversamos um pouco sobre amenidades e sobre o que chamamos falha de Encélado. Procurei não falar sobre o seu marido, melhor deixar a ferida cicatrizar. Ela pareceu-me mais relaxada e leve.

Depois do lançamento retornamos à Califórnia, ao JPL. Reynaud chamou-nos para contar as novidades. O Diretor Gavin deixou a ele a incumbência de transmitir os próximos passos de nossa tarefa, uma vez que continuava em Washington.

-Senhores, eu tenho novidades de Washington. É desejo do Presidente que nós façamos o que Won nos propôs. Iremos seguir os planos conforme o combinado: mais transparência e nosso pessoal em Marte o quanto antes.

-Ele entrou em contato com os responsáveis da ESA e com o governo chinês e o russo. Estão todos cientes da nova situação e estão tentando entrar em acordo sobre a forma como irão divulgar a falha em Encélado. De qualquer maneira, temos sinal verde para acelerar o programa para levar humanos para Marte, para que o tamanho do estrago seja menor. Ainda
não decidiram se divulgam antes ou depois da viagem.

-Fecharam também alguns detalhes sobre a viagem. Como sabem, a nave para Marte tem lugar para seis tripulantes. Teremos então: uma cadeira para os chineses, uma para os russos, uma para um representante da ESA e uma cadeira para americanos. As duas restantes serão da equipe técnica do voo: o comandante e o piloto.

-Os representantes russo e chinês já foram definidos: Doutora Anna Ivanova e Liwei Won. Os franceses, pela ESA estão propondo o nome da Dra. Claire Sophie. Ela participou de vários voos para a Estação Espacial. E está na fila para um voo para a Lua.

-Dr. Schumann, você é nosso candidato para a vaga americana. Basta aceitar a incumbência.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei olhando para ele com aquele olhar incrédulo. Anna me olhava com um sorriso nos lábios. E disse sem pensar:

-Não vai se ver livre de mim, nos próximos anos!

Todos rimos da brincadeira que foi ótima para quebrar o gelo.

-Se não temos objeções, então vão preparar as malas. Farão o treinamento padrão para astronautas. Schumann, Ivanova e Won, irão para Houston, Texas, no centro de treinamento Johnson Space Center. Depois dos exames médicos iniciais, serão apresentados à imprensa, em uma coletiva. O Presidente pretende fazer um discurso apresentando o projeto.

-O treinamento dura dois anos. Farão uma pausa ao final de seis meses quando retornarão para analisar os resultados da nave Phoenix 2. E dependendo do resultado prosseguiremos o cronograma. Ainda teremos mais uma fase de treinamento com os equipamentos que estão sendo desenvolvidos. Por fim, será preciso também treinar com o equipamento
Russo, na Star City.

Won interrompeu-o:

-O treinamento com o equipamento chinês poderá ser realizado na Rússia também. Temos muitos módulos comuns, e eu levarei o material para estudarmos as diferenças de forma simultânea. Não teremos nenhuma dificuldade em relação a isso.

Era quase palpável a eletricidade que tomou conta do ar naquela sala. Todos apreensivos e ao mesmo tempo ansiosos pelos acontecimentos que viriam.


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Continua…

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Livro Vermelho Vivo, Capítulo 7

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

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Conforme prometido, segue o sétimo capítulo.

Supostos fósseis de bactérias marcianas. Estudos posteriores à divulgação desacreditaram a descoberta. (1996). Crédito: NASA

Supostos fósseis de bactérias marcianas. Estudos posteriores à divulgação desacreditaram a descoberta. (1996). Crédito: NASA

Capítulo 7 – Mentiras e Segredos

O diretor Gavin mantinha seu semblante tenso e as mãos tremendo. Eu e Anna ficamos ansiosos para saber qual seria este problema tão sério.

-Quero que vejam estes papéis. Vejam isso. Digam que Mister Won está errado. – disse mostrando os papéis na mão de Won.

Won passou-nos os papéis fazendo negativas com a cabeça como quem sabe que está certo. Olhei as fotos e tabelas e não entendi a princípio do que se tratava. Porém, identifiquei as fotos claramente: eram imagens obtidas por um microscópio eletrônico. Uma delas era uma imagem desfocada de cristais, outra, de bactérias, ou pareciam ser.

-O que são estes papéis? – Perguntei. – E o que Won está dizendo de errado?

Sem deixar Gavin falar mais, Won pediu a palavra e começou a contar uma história muito absurda:

-O que estou dizendo é que não existe vida bacteriana em Encélado. Estes papéis comprovam isso. Mas deixe-me contar a história toda. Doutor Gavin, acalme-se, você vai entender tudo se me deixar falar.

-Prossiga Mister Won. – Gavin devolveu-lhe a palavra.

-Vocês sabem que as duas sondas da NASA que encontraram vida em Encélado eram naves gêmeas. Foram enviadas em pares para aumentar a possibilidade de sucesso no pouso, e para que cobrissem uma área maior da superfície de Encélado.

Continuou Won, enquanto ficamos com a respiração suspensa:

-Pois bem, as duas naves apresentaram um defeito nos seus sensores. O defeito de projeto era congênito, por isso ambas tinham o mesmo problema. As imagens obtidas pelos sensores eram desfocadas. Porém as imagens obtidas pareciam não deixar dúvidas que eram bactérias.

-Eu mesmo vi as imagens, – tive que interrompê-lo.

-Sim, mas você não sabia que as câmeras das naves não foram projetadas para detecção de bactérias. Não estavam lá para isso. O objetivo das mesmas era determinar a composição química dos jatos líquidos dos gêiseres. Como a NASA não esperava encontrar bactérias, não enviou sensores específicos para isso. O pessoal da ESA, a agência europeia, questionou muito as conclusões. E preparou uma sonda ela mesma para resolver a questão.

-E confirmou ser bactérias – eu completei.

O Dr. Gavin me repreendeu:

-Deixe-o terminar. – e pediu a Won que prosseguisse. Ele fez uma pausa longa, olhou-nos a cada um, direto nos olhos, respirou fundo e finalmente disse:

-O pessoal da agência europeia mentiu. Mentiu deliberadamente. Eles obtiveram imagens e dados conclusivos: a descoberta da NASA não eram bactérias.

-No entanto, divulgaram exatamente o contrário.

Ficamos atônitos. Dr. Gavin levantou da cadeira e esmurrou a mesa. Anna levou as mãos à cabeça e não parecia conformar-se.

-Como pode fazer uma acusação desta? O que mais sabe a respeito? – Dr. Gavin queria ir fundo na questão.

-Na época da descoberta, o meu governo tinha engavetado um projeto de uma nave similar aos Voyagers. Queríamos estudar os grandes planetas: Saturno e Júpiter. Eu estava diretamente envolvido com o projeto. Claro que assim que a NASA anunciou vida na lua próximo à Saturno, ficamos interessados em estudar as tais bactérias.

-Tocamos este projeto com prioridade máxima e a sonda fez a viagem, chegando a Saturno no último verão. Estes papéis são os resultados de nossos estudos. Não existe nenhum traço de vida lá. Nenhum. Ficamos estupefatos e intrigados. Então colocamos nossa inteligência para pesquisar o que poderia ter acontecido.

-Espiões? – perguntei ingenuamente.

Gavin fez um gesto afirmativo. E uma cara incrédula, por eu ter feito a pergunta. Won continuou:

-Não precisamos ir longe, o ex-diretor do projeto da ESA para a sonda a Encélado, confidenciou a um de nossos agentes o que havia acontecido. Na época do achado, para não comprometer-se com a mentira ele afastou-se. Ele não sabia nenhum detalhe do motivo da farsa, mas recebeu uma boa recompensa financeira da mais alta diretoria da ESA para calar-se. Os técnicos diretamente envolvidos com os dados também foram afastados.

-Também não foi difícil obter alguns detalhes das sondas gêmeas da NASA. E comparando as imagens da NASA com imagens simuladas em computador pudemos matar a questão: os cristais apresentavam uma aparência diferente sob a lente das sondas. A NASA não usou de má fé. Foi um caso de pareidolia.

Pensei imediatamente em pedir um desenho, como Peter havia me indicado num dos telefonemas. Mas ele continuou, como se a palavra “pareidolia” fosse a mais comum:

-Resumindo: não existe vida fora da Terra. Pelo menos não em Encélado.

Olhei novamente os papéis. Desta vez procurando evidências do que ele tinha dito. Tudo estava correto. Realmente sob estas novas informações, as fotos de Encélado não pareciam exatamente bactérias. Comparei rapidamente as fotos chinesas com as da NASA. Não havia o que contestar. Minha mente já tinha sua conclusão, mas meu coração não
aceitava. Por fim, me virei para Dr. Gavin com um olhar confirmativo. Foi o suficiente para que ele sentasse novamente, abaixasse a cabeça e não falasse mais nada.

Anna tomou então a palavra questionando:

-Isso não faz sentido. Porque a alta direção da ESA iria mentir assim? Porque sustentar que havia mesmo vida lá? Não entendo.

-Não sabemos os motivos. – respondeu Won – Mas tenho um palpite. As verbas do programa espacial europeu dobraram após a descoberta. A sonda europeia é a única oficialmente fazendo experimentos no local da descoberta. Mas só estou especulando.

-Não é possível. – Anna olhava os papéis e olhava para mim, como quem pedia para que eu negasse o que ela, também, já não contestava mais.

Won procurou posicionar-se:

-Senhores, eu trouxe esta questão aqui a pedido de meus superiores. Eles não querem desacreditar tudo o que os cientistas espaciais tem feito há décadas. E mais, não passa pela cabeça deles um corte de verbas para o programa Constelation. Eles não querem perder a chance de levar um chinês até Marte. E perder também o contrato bilionário da nave Chinesa.

-A opinião pública americana e mundial iria tripudiar sobre este grande vacilo da comunidade científica. Este sim, o maior de todos os tempos.

-Eles acreditam, e eu concordei que só será possível divulgar a verdade, se pudermos afirmar com certeza que em Marte também não existe vida. Ou que existe. Para isso devemos ter uma evidência tão forte que não possa ser contestada.

-Não queríamos envolver mais pessoas, isso poderia vazar. Por isso, só chamamos o diretor e vocês. Evidentemente vocês foram chamados para confirmar tecnicamente estes dados. E estou aqui sozinho, pois para todos os efeitos, os chineses não sabem de nada e foi algo que saiu de minha cabeça. Eu concordei com esta abordagem, porque estava sufocado querendo passar a informação para vocês.

Fez-se um silêncio enquanto eu ainda revisava os papéis. Tudo se encaixava e eu não pude deixar de encarar os fatos:

-Tecnicamente, está tudo correto diretor. Não tenho mais dúvidas. Encélado não tem bactérias – respondi e continuei:

-Quais são as consequências disso agora? O que vai mudar nos nossos planos?

Com uma mão coçando o queixo e a outra batucando a mesa, Gavin pensou por longos segundos. Girou a cadeira em direção à janela. Permaneceu com um olhar distante e, enfim, ele retornou:

-Won está certo. Precisamos provar de forma irrefutável o que fizermos agora. Evidências não servem para nada diante disso. Precisaremos de provas.

-Isso aumenta demais nossa responsabilidade neste projeto. Enormemente. Teremos que redobrar nossa cautela. Ao mesmo tempo temos que tornar tudo mais transparente. O que está acontecendo na ESA, só não foi desmascarado ainda, pois aquela missão foi caixa preta. Ninguém fora do projeto sabia ao certo o que eles estavam fazendo, quem eram os responsáveis. A única pessoa publicamente envolvida nisso foi o diretor afastado.

-Mas como iremos fazer isso? – indaguei – Como tornar mais claro, transparente?

-Teremos que nos expor. Divulgar tudo que está acontecendo. Divulgar todos os detalhes. Divulgar os resultados parciais. Os problemas, tudo. – continuou.

-Mas deixem comigo. Eu sou o diretor aqui, e vocês dois são engenheiros. Façam seu trabalho. Não falem sobre isso com mais ninguém. E preparem-se. A partir de agora vamos ter que divulgar tudo, tudo o que encontrarmos, em todos os detalhes.

-Infelizmente – ele refletiu – diante disso, acredito que a sonda que está a caminho de Marte não é o suficiente para confirmar o que temos lá. Teremos que ter uma abordagem mais direta.

-O que você tem em mente? – Anna perguntou.

-Independente do que encontrarmos lá, nós teremos que ir a Marte pessoalmente para confirmar. Eu terei que falar com o Presidente sobre isso.

Ficamos todos apreensivos. E a reunião encerrou-se naquele mesmo momento. Não havia mais nada a ser dito.

Na saída chamei Anna para o laboratório. Tinha que conversar sobre aquilo, a reunião não foi o suficiente para mim. Mal chegamos na sala, eu comecei a bombardeá-la:

-O que foi aquilo? Você acredita mesmo em Won?

-É a verdade. Você sabe Schumann. Por mais estranho que pareça, eu sempre vi aquelas bactérias com certa desconfiança. Foi algo instintivo. Algo estava errado, eu sentia isso.

-E quanto a Marte? Estamos perdendo nosso tempo? Não tem nenhum esporo de bactéria lá, não é?

Percebendo meu desespero, ela colocou sua mão direita sobre meu ombro, olhou-me bem nos olhos e permaneceu quieta. Parecia querer ler minha alma. Aquilo teve um impacto enorme em mim, senti meu coração disparar e minha respiração descontrolar-se. Não sei dizer o que pensei, se é que pensei algo, mas aqueles olhos castanhos e confiantes me olhavam.
Ela deu um leve sorriso, e me acalmei quase instantaneamente:

-Acalme-se Carl. Vamos saber a resposta para sua pergunta em alguns meses. – Ela apertou um pouco meu ombro enquanto dizia isso. Olho no olho, e alguma coisa aconteceu dentro de mim. Pelo que vi em seus olhos, algo aconteceu em nós. Mas, logo a seguir, em uma fração de segundo, sua atenção desviou-se para longe, ela abaixou os olhos que se tornaram turvos. Ficou confusa, e afastou-se de mim. E pude ver a mudança, ela estava de novo tomada por uma fúria. Virou-se e quando já ia saindo, eu, num momento de reflexo, segurei sua mão e a intimei:

-O que está acontecendo doutora? Por que este comportamento estranho?

Ela hesitou. Não me olhou diretamente, sentou-se e desatou a falar.

-Se refere ao meu estado emocional descontrolado? É simples, Carl, estou à mercê das notícias que não veem. Meu marido está incomunicável a mais de um mês. Não sei o que está acontecendo e o Kremlin não parece se importar com isso. Dizem que ele está naquela guerra, em uma missão secreta, sei lá. Não aguento mais isso. Eu até estava levando bem até o último mês, trabalhando como uma condenada. Porém, agora que nos resta esperar a sonda chegar a Marte… Estou esperando o pior a cada ligação…

Ela continuou falando e desabafando. Parecia que não tinha mais ninguém para ouvi-la. Falou sobre seus temores com a guerra, e como cada telefonema era uma tortura. E como não podia ficar um minuto sem fazer alguma coisa. E quanto à noite, sozinha em casa, era o pior. Só sabia chorar e quase não conseguia mais dormir.

Aquilo explicava tudo. Quem poderia viver tranquilamente e trabalhar tendo um pesadelo destes?

-Carl, eu não deveria dizer estas coisas para você. Não queria te envolver em meus problemas, você não tem nada com isso. Mas eu precisava falar. Isso estava me matando por dentro. Estava ficando doente.

-Doutora, às vezes nós devemos simplesmente contar com as pessoas. Eu não sou muito bom com amizades. Não sei direito o que fazer para cultivá-las. Normalmente eu estrago tudo. Mas se precisar de um amigo, conte comigo. Eu sou bom ouvinte.

Novamente ela me olhou. Com ternura desta vez. E novamente, depois de alguns instantes sua atenção foi para outro lugar. E, minha proposta em vez de fazer ela se acalmar, fez ela se agitar ainda mais. Ela levantou-se, e se afastou mais rápido desta vez. E com uma perturbação clara na voz disse, sem me olhar:

-Somos profissionais aqui, Carl. Não devemos confundir as coisas. Não devo mais falar sobre isso contigo. Esqueça. Esqueça…

Saiu da sala enquanto falava. Eu, desta vez, não reagi. Fiquei apenas sentado, um tanto desapontado.

Como disse a ela, eu costumava estragar tudo. E parecia que tinha dito algo que tivera este exato efeito.

Doutor Gavin, viajou para Washington naquela semana. Provavelmente teria que falar pessoalmente com o Presidente sobre o caso de Encélado. Teríamos que aguardar as decisões para determinar o que faríamos a seguir.

Enquanto isso, nas semanas seguintes, eu trabalhei com Cláudio nos sistemas e programas para analisar os dados que seriam colhidos pela Phoenix. Tivemos tão pouco tempo para preparar a máquina, que ainda restava muito a fazer para os sistemas em terra.

Anna, por sua vez, isolou-se ainda mais. Minhas tentativas de aproximação foram infrutíferas. Ela se esquivava sempre. Até que eu percebi que ela precisava de espaço e não insisti mais.

Eu não podia parar de pensar em seu sofrimento e em minha total incapacidade de fazer qualquer coisa para diminuí-lo.

Até que, numa manhã ensolarada, recebi um telefonema do Dr. Reynaud informando que ela iria viajar para Moscou naquele mesmo dia e iria retornar em algumas semanas. Mal tive tempo para despedir-me.

Continua