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Livro do autor novato: Vermelho Vivo, capítulo 3

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

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Para quem já leu os capítulos iniciais, o autor pediu algumas resolvi fazer mudanças para encaixar o andamento do enredo. Ele incluíu Incluí um astronauta Chinês no pouso do capítulo 1 e fez fiz algumas revisões de texto e estilo.

Negociações entre oficiais da ABMA (agência de mísseis balísticos do exército americano) e os oficiais da NASA (1959) Crédito: Marshall Space Flight Center (MSFC)

Negociações entre oficiais da ABMA (agência de mísseis balísticos do exército americano) e os oficiais da NASA (1959) Crédito: Marshall Space Flight Center (MSFC)

Capítulo 3 – Olhos Obtusos

A reunião foi marcada no JPL, o lendário Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia. Teríamos o tempo quente do verão do hemisfério norte. Estariam na reunião: Dr. Peter, meu único contato com o projeto, eu e o Dr. Charles Gavin, diretor do laboratório.

Novamente o fuso horário me deixou com problemas sérios naquela semana. Pude revisar todo o material durante as insônias. Estava preparado para defender meu trabalho e convencido que a construção da máquina seria importante para a segurança do voo planejado para Marte.

A chegada ao JPL se deu por uma estrada cheia de curvas. As instalações ficam entre colinas em uma bonita região da Califórnia que eu ainda não conhecia. Ao redor dos prédios, campinas verdejantes, e no horizonte foi possível ver uma grande montanha com o pico congelado. Dr. Peter estava comigo. Ainda no carro, trocamos algumas informações que achávamos importantes para a reunião. Segundo ele, eu teria em torno de vinte minutos para resumir o conteúdo de minhas experiências e falar sobre o projeto do detector de esporos em que eu estava trabalhando. O diretor Gavin estava informado sobre o assunto e qual era nossa proposta. Não haveria surpresas, conforme Peter havia me prometido. Pelo menos
era isso que eu imaginei.

Fomos conduzidos até uma comum sala de reuniões com uma grande mesa oval, um quadro branco em uma parede, um projetor no teto, e uma grande janela do outro lado. A janela era voltada justamente para a montanha e seu pico gelado. Uma sala muito impessoal, que poderia ser de qualquer empresa. Um detalhe, porém, em um canto, acabou por identificar o lugar: um grande modelo do ônibus espacial Colúmbia e seu grande tanque externo laranja e a dupla de foguetes de combustível sólido.

Pediram para aguardarmos um pouco e sentamos por alguns minutos. Aproveitei para ajeitar os papéis sobre a mesa e desenrolar alguns desenhos maiores.

Não demorou muito para chegar nosso anfitrião, Dr. Gavin. Veio sozinho e nos cumprimentou com um sorriso largo. Apresentou-se e iniciou rapidamente os trabalhos:

-Dr. Martin e Dr. Schumann, acho que me devem uma explicação. O que pretendem com este projeto “secreto” – fez as aspas com os dedos – que estão fazendo em Copenhague?

Olhei constrangido para o Dr. Peter e esperei que ele respondesse. Porém, Dr. Gavin foi mais rápido. Ficou claro que ele tinha tudo sob completo controle.

-Senhores, não precisam explicar-se. Estou completamente ciente de seus trabalhos e tenho acompanhado em detalhes cada um dos passos que têm realizado. Estou contente que o Dr. Schumann esteja conosco. Porém temos que nos alinhar, não dá para continuarmos trabalhando em paralelo. Vejo que você trouxe os papéis do projeto. Pode guardar isso, acho que as cópias que temos aqui já nos bastam.

Eu não entendi nada. Como teriam cópias disso?

-Dr. Gavin, tem que me desculpar, mas, você tem feito espionagem em nosso trabalho? – Disse Peter indignado.

-Digamos que nós somos os responsáveis pelos engenheiros que trabalham para você. Nada mais justo que eles nos reportem o que estão fazendo! Mas esqueçam isso. Não vem mais ao caso. O que interessa agora é para onde vamos.

-Parece que eu vou retornar para o Instituto de Biologia. – Respondi sem entusiasmo.

-Não Dr. Schumann, temos algo maior para você. – Retornou Gavin – Sua máquina é formidável. Conseguiu realizar algo incrível com a pequena equipe que dispunha. Nossos planos são outros. Aliás, nosso verdadeiro problema é tão diverso do que vocês têm trabalhado. Mas vocês apareceram na hora certa.

-E qual seria este problema, doutor? – perguntei curioso.

-Antes de prosseguir gostaria de lhe apresentar a doutora que está trabalhando com um equipamento exatamente como o seu. Deixe-me chamá-la. – Acionou o telefone sobre a mesa e pediu que a secretária conduzisse a doutora até a sala de reuniões onde estávamos. Em poucos segundos a porta se abriu e ela entrou em passos rápidos.

Minha primeira visão foram seus olhos obtusos.

Não poderia determinar se sorria. Nosso olhar se cruzou rápido. Ela parecia incomodada, talvez séria, não ficou claro para mim. Porém foi fácil perceber o quanto tinha um rosto lindo e estava em boa forma. Mas no momento que a vi, foram os olhos castanhos que realmente me atraíram.

-Deixe-me apresentá-la. – Gavin interrompeu meus devaneios – Esta é a Dra. Anna Ivanova, bioengenheira da Universidade de Moscou e principal responsável pela participação científica da Rússia no projeto de visita a Marte. Dra. Ivanova, este é Dr. Carl Schumann, e o Dr. Peter a senhora já conhece.

Ela olhou firme em meus olhos e em um aperto de mão forte demonstrou sua determinação e tenacidade. Eu por minha vez me senti acuado imediatamente.

-Doutores, a doutora Ivanova já fez uma análise inicial dos documentos e está convencida que o projeto do sensor é totalmente viável. Por favor, doutora.

-Sim, diretor. Enquanto estavam trabalhando neste equipamento, eu e minha equipe aqui no JPL já tínhamos um equipamento protótipo similar em testes preliminares. Porém os resultados não eram nada promissores. – Ela falava com segurança e uma autoridade que beirava a arrogância. Sua voz era firme, porém o sotaque russo dava a ela um quê de misterioso. – Nós utilizamos uma técnica mais ortodoxa para a detecção de esporos, baseado em bioluminescência.

-Eu pensei também iniciar os estudos nesta direção. – concordei. – Porém minhas experiências anteriores com bioluminescência geravam um grande número de falsos positivos quando alguns fatores externos interferiam na medida.

-Por isso iniciou diretamente com a técnica de cultivo? – Perguntou.

-Exatamente. Isso fará com que a detecção seja mais demorada, porém mais segura.

-Desde que não haja nenhuma possibilidade de contaminação antes de obter a amostra.

-Em todos os casos uma contaminação estragaria qualquer conclusão, independente do método.

-Tem toda razão, doutor Schumann. Porém o método de cultivo precisa de um controle muito maior, justamente por ser necessário um ambiente favorável para os esporos aflorarem. – Ela retrucou.

-Se não houver uma garantia completa de esterilização dos equipamentos, nenhum método terá credibilidade. – Respondi irritado.

Dr. Gavin levantou e interrompeu a conversa que já fazia os ânimos esquentarem.

-Vejo que vocês terão muito que discutir juntos, não é mesmo? – Disse com um pouco de ironia. – Minha proposta é a seguinte: vocês dois vão trabalhar juntos aqui no laboratório de bioengenharia com todo apoio dos nossos engenheiros. Precisamos construir este dispositivo e testá-lo em seis meses apenas. Ele deverá ser menor e mais leve. Pelo menos metade do tamanho destes desenhos iniciais. Dra. Ivanova tem alguma experiência em miniaturização, vai lhe ajudar. Estamos planejando enviá-lo para Marte antes da viagem tripulada. A equipe disponível é suficiente para este prazo.
Dr. Schumann, você será o gerente deste projeto. Dra. Ivanova irá lhe apresentar toda a equipe. Vá em frente doutora, ainda preciso definir alguns detalhes com Dr. Schumann.

Dra. Ivanova ficou lívida imediatamente. Os olhos dela pareciam querer destruir o diretor Gavin.

-Dra. Ivanova, você insistiu muito nos últimos dias que precisava de uma definição da chefia do projeto do sensor. Pois bem, Dr. Schumann será o gerente de projeto. – Ela se virou para mim e também me fuzilou, porém minha expressão de surpresa era tão grande que ela desviou o olhar e saiu pisando duro.

Dr. Gavin parecia estar executando com maestria um plano bem pensado com todos os detalhes previamente definidos. Tudo estava em suas mãos.

-Dr. Peter Martin, você foi designado para coordenar o projeto científico da viagem para Marte desde o início e temos tido muitos problemas para nos entender. Esta situação absurda com o Dr. Schumann fazendo seus projetos secretos na Dinamarca é algo que não posso tolerar. Você passou por cima de minhas determinações. Não podemos continuar
assim. Eu não posso. Preciso pedir para que deixe a frente deste projeto. O conselho diretor já aceitou minhas argumentações.

-Eu já esperava por isso, diretor. – Respondeu Peter – Na verdade minha aposentadoria já venceu há dois anos. Quando criei esta “situação absurda” eu tinha completo conhecimento das consequências. Mas eu não poderia me furtar da responsabilidade. Eu já tenho aqui em mãos uma carta de desligamento. Eu vim preparado para isso.

-Certo Peter. Vejo que quer tornar as coisas mais fáceis. Já tenho seu substituto definido. Ele está te aguardando neste momento no escritório do laboratório de Biologia. Trata-se de seu braço direito, Dr. Reynaud. Por favor, vá até lá, ainda tenho algo a discutir com o Dr. Schumann.

-Sua escolha para meu substituto foi uma excelente decisão, Dr. Gavin. – Concordou Peter. E virando-se para mim – Boa sorte Carl, nós ainda nos encontraremos aqui. – E se despediu saindo imediatamente.

Sua reação foi bem mais amigável que a da doutora Ivanova. Ele saiu tranquilo e, pelo que vi os acontecimentos não pareceram surpreendê-lo.

-Então agora somos só nós dois, doutor Schumann. – Gavin se dirigiu a mim, juntando a palma da mão e enrugando a testa de forma estranha. – Eu tenho outra missão para você.

-Você já deve ter notado como a Doutora Anna Ivanova tem uma intensa presença pessoal. – Continuou Gavin – Os russos a escolheram para este projeto de forma muito premeditada. Eles pretendem transformá-la em um novo Yuri Gagarin de saias. Não sei se tem acompanhado política rapaz, os ânimos estão esquentando novamente. Desde que a China se
tornou uma potência em pé de igualdade com a América, os russos estão tentando de tudo para retomar seu lugar. Então estamos planejando esta viagem para Marte. E os russos participam principalmente por sua experiência em missões longas. E também por seus foguetes baratos de reabastecimento. Os acordos permitem uma cadeira para eles no voo. Diante disso, o que eles fazem?

-Eles pretendem monopolizar a atenção do público com esta senhora. Bonita, independente, inteligente. E responsável pela experiência mais importante: confirmar a vida em Marte. Seria ela a primeira a manipular bactérias extraterrestres! Não interessa que o primeiro passo fosse de um americano. Ela seria a principal história.

-Dr. Schumann, se tivermos outra pessoa no projeto para dividir as atenções sobre a questão das bactérias, poderemos anular esta doutora. Porém, não quero causar uma má impressão a você. A preocupação quanto à fama dela não é nossa, não da América. O problema são os investidores chineses. Eles prometeram verbas para o projeto. Porém esta ameaça russa
não estava em seus planos.

-Isso parece um pouco conspiratório demais – pensei alto.

-O que quero de você não tem nada de conspiratório. Apenas precisamos de um contraponto àquela pesquisadora. Por isso te coloquei como o responsável. Ela será seu braço direito. Não podemos negar a presença dela aos russos. Então faremos do sucesso dela, o seu sucesso. Dependendo de como o projeto andar talvez sua participação, Schumann, tenha que ser maior.

-Como assim maior?

-Quem sabe você terá que ir até Marte. Isso estaria fora de cogitação para você?

Olhei atônito para o diretor Gavin. Não consegui responder nada. Aquilo era uma loucura.

-Não responda agora – ele percebeu minha reação – Apenas pense no assunto. Venha comigo agora, quero apresentar o restante da equipe.

Saímos dali imediatamente, enquanto minha mente trabalhava sem parar, às voltas com esta ideia doida de ir para outro planeta. Nunca até aquele momento tinha me passado pela cabeça algo tão insólito.

continua…

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Livro do autor novato: Vermelho Vivo, capítulo 2

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

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Pesquisador Trabalhando no laboratório Light Alloy (1996) . Foto Crédito: NASA

Pesquisador Trabalhando no laboratório Light Alloy (1996) . Foto Crédito: NASA

Capítulo 2 – Projetando na Dinamarca

Eu olhava para o Dr. Peter e seus olhos cheios de rugas sob os óculos e esperava mais detalhes daquela proposta. Achar vida em Marte, quem diria?

-Dr. Schumann, – Peter prosseguiu – sei que já está comprovada vida em outros planetas. A vida em Encélado é, sem dúvida, a maior descoberta da NASA desde que foi criada. No entanto, esta lua de Saturno está longe demais para uma viagem humana com segurança. Portanto, pelo menos por enquanto, estes vizinhos não têm outras influências práticas em nossa vida aqui na Terra, a não ser alguns questionamentos filosóficos. Mas estou divagando. -o doutor fez uma pausa, para tentar reorganizar os pensamentos.

-Retornemos. As últimas sondas para Marte não indicaram nenhuma presença de vida no planeta. Vasculhamos todas as regiões mais prováveis. As sondas confirmaram que várias regiões já foram cobertas por água salgada. Algumas durante milhares de anos.

-A sonda Phoenix, – continuou – que esteve no norte de Marte em 2008 confirmou a presença de água congelada. A água ainda está lá. – Fez uma longa pausa.

-E é aí que você entra.

Curvei-me para me aproximar, sentado na ponta da cadeira; dava todos os sinais que eu fora fisgado pela isca.

-Existe uma pequena possibilidade. Nós acreditamos que possam existir bactérias ou fungos na forma de esporos. – Peter disse isso com uma voz sussurrada, como quem conta um segredo.

Olhei para as outras pessoas na saleta, e os dois pareciam esperar uma resposta minha, com um olhar entre o inquisidor e o curioso.

Tomei a palavra – Mas qual o problema haver esporos em Marte. Em Encélado são bactérias inteiras, vivas. As imagens dos microscópios são irrefutáveis. – rebati sem entender o drama do doutor.

-O problema, Dr. Schumann, é que estes dois homens estarão em Marte nos próximos anos, e seria terrível se esporos de bactérias pudessem estragar o passeio deles. – Um dos homens que estava mais próximo a mim levantou-se e se adiantou em minha direção dizendo:

-Eu sou o Capitão Jayson Palmer. Pretendo ser o Comandante da primeira nave que viajará até Marte. Doutor, durante a viagem, estes esporos poderiam nos contaminar?

Aquilo começou a ficar estranho. Afinal, não havia esporo algum, nada. Precisando de mais informações comecei a fazer as perguntas:

-Impossível fazer qualquer especulação. Precisaria de mais detalhes, capitão. Já estudei bactérias e fungos que sobrevivem em situações absurdas. Mas nunca pensei nisso em outro planeta. Sob que condições nós estamos falando?

-O local do pouso será próximo ao “permafrost” no Norte de Marte. Temperaturas entre -16 e -90 graus centígrados.

-Palmer, nós teremos tempo depois para os detalhes – Peter interrompeu-o. E dirigindo-se para mim – Dr. Carl Schumann, precisamos ter a certeza que não existem bactérias lá sob qualquer forma. Mas, caso existam, precisamos garantir que os astronautas e mesmo a nave não se contaminem. Não desejamos trazer bactérias alienígenas aqui para a Terra. Pelo menos não fora de tubos de ensaio. Queremos você na equipe para coordenar as ações neste sentido.

-Parece tentador. – Respondi.

-Só que nós temos um problema.

-Qual seria este problema? – Perguntei.

-A NASA não sabe que estamos te chamando. Meus superiores não concordaram com minhas objeções sobre este problema. Nós quatro somos os únicos a par de seus trabalhos. Precisamos discrição quanto a isso. Conseguimos um lugar aqui no Instituto Bohr para você trabalhar e formar sua equipe. Aqui tem alguns detalhes sobre verbas disponíveis e alguns estudos em que precisamos de seu apoio. – Passou-me um envelope branco com alguns CDs de dados.

-Poderia estudar isso com calma e nos dar uma resposta o quanto antes?

-Vou precisar de um tempo para isso, são muitas informações ao mesmo tempo. E também não planejava me mudar para tão longe.

-De qualquer maneira é realmente um desafio muito interessante para um simples biólogo!

Deram-me uma semana para pensar e deixamos marcada uma reunião. Eles ofereceram um quarto na faculdade e me mostraram o local onde iria trabalhar.

O laboratório disponível era amplo e completo. Em um canto uma mesa grande com um computador estava pronta para ser meu escritório.

Nos dias seguintes conheci todo o Instituto e pude estudar o material apresentado pelo doutor Peter. Vi que meus artigos sobre o funcionamento do processo de “hibernação” das bactérias em forma de esporos foram citados algumas vezes nos textos. Nos CDs encontrei ainda algumas matérias sobre Antraz; alguns estudos de contaminação de materiais no espaço; um pequeno artigo sobre a poeira da Lua que ficou presa nas botas dos astronautas e entrou na nave Apolo e o procedimento de isolamento dos astronautas no retorno à Terra…

A semana passou rápida. Mesmo sem pensar, já comecei a desenvolver o projeto. Obtive algumas imagens do solo marciano e alguns dados sobre as condições gerais de temperatura e umidade. Fiquei surpreso com informações de geadas na madrugada de Marte e a presença de vapor d ́água na atmosfera.

Na reunião da semana seguinte fechamos um acordo. Meu primeiro projeto seria determinar uma forma de detectar bactérias ou fungos em forma de esporos. Formaríamos uma equipe que projetaria um protótipo.

Até aquele momento nunca tinha pensado nas dificuldades de construir um equipamento para viajar até outro planeta e realizar experiências científicas controladas remotamente. Detectar esporos e revivê-los em uma cultura era algo muito simples. Desde que os mesmos estivessem a alguns centímetros de minhas mãos e de meus olhos nos microscópios. Porém estando a milhões de quilômetros, como faria?

Minha equipe era composta por dois engenheiros da NASA e um auxiliar bioquímico. Trabalhamos duro por vários meses em muitas experiências e equipamentos.

Incomodava-me muito o fato de estar trabalhando quase em segredo. Porém, Peter prometeu-me abrir o jogo assim que a máquina em que eu estava trabalhando estivesse adiantada. Inteirei-me sobre os preparativos para a viagem a Marte e tudo estava indo muito rápido. Os prazos eram curtos e com os foguetes já estavam prontos. Os pontos da missão agora estudados eram os controles dos recursos e determinação dos estudos científicos que seriam realizados. Parte da tripulação já fora escolhida e estavam em treinamento.

A proposta de Peter era que a máquina detectora de esporos deveria ser instalada no módulo de pouso e iria realizar todos os testes antes que os astronautas andassem pela primeira vez no solo de Marte. Peter Martin ainda teria que convencer os seus superiores que esta cautela a mais não prejudicaria o cronograma apertado.

Os engenheiros de minha equipe eram muito experientes. Já tinham trabalhado com o doutor Peter e eram de sua confiança. Porém eram especialistas em equipamentos óticos e eletrônicos. Construíram câmeras sob as especificações do doutor. Câmeras usadas em várias sondas espaciais. Porém tiveram problemas para atender minhas orientações, afinal minha experiência com Astronáutica era nula. Reagentes químicos, solventes e microscópios tiveram que ser organizados e movimentados por braços mecânicos, motores e observado por câmeras. Os engenheiros mais experientes na área de bioengenharia estavam ocupados com outro projeto.

O trabalho tomou minha vida inteiramente nos seis meses seguintes. As jornadas iam até altas horas e meu costume de dormir no próprio laboratório continuou. Providenciei para isso um sofá.

Quando o projeto do equipamento estava quase completo, Dr. Peter marcou uma reunião com a direção da missão da viagem a Marte. Iríamos apresentar nossas ideias e a máquina para aprovação. A máquina estava completamente projetada. Quer dizer, o protótipo da máquina. Questões mais práticas ainda deveriam ser estudadas. O projeto ficou enorme e pesava ainda cerca de duzentas quilogramas. Um processo de miniaturização deveria ser ainda executado. Mas não tínhamos tempo e a apresentação deveria ser feita assim mesmo.

Segui de volta à América, em um voo longo e com muitas preocupações sobre o destino de meu trabalho.

continua…

Livros obrigatórios para Geeks

sábado, 6 de setembro de 2008

Uma lista de livros “obrigatórios” para pessoas Geeks como eu! Eu vi no Alessandro Martins, livros e afins e fiquei muito interessado.

A indicação do Alessandro é um artigo do blog Peregrina Cultural que publica notas sobre a vida Cultural do Rio de Janeiro e do Brasil.

Por mais geek que eu tenha me saído no teste ainda não li nenhum dos livros indicados! Porém dois dos livros indicados estão na minha fila de leitura:

  • 1984 de George Orwell;
  • Guia do Mochileiro das Estrelas de Douglas Adams.

O artigo é baseado em uma longa lista de 50 livros do site insidetech.com. Nesta lista eu encontrei dois deles que eu já li:

  • “Design Patterns: Elements of Reusable Object-Oriented Software,” Erich Gamma, Richard Helm, Ralph Johnson, John M. Vlissides. Para a matéria de Programação Orientada a Objeto do mestrado. Li a versão em inglês;
  • “Uma breve história do Tempo” de Stephen Hawking; Incomparável descrição de como os cientistas vêem o universo, sua criação e evolução.

Só achei que na lista de livros Geeks ficaram faltando “Contado” de Carl Sagan e os livros da série “Uma Odisséia no Espaço” de Arthur C. Clarke.

Leia o artigo Geek? Os 11 livros de ficção científica essenciais para a sua leitura.

Livro do autor novato: Vermelho Vivo, Capítulo 1

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

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Instituto Neils Bohr, Dinamarca. (2005) Foto Crédito: Dr.Oliver Buss

Instituto Neils Bohr, Dinamarca. (2005) Foto Crédito: Dr.Oliver Buss

Capítulo 1 – Instituto Niels Bohr.

O telefone tocou…

-Alô, Schumann? Aqui é o Tony, dê uma passada em meu escritório em meia hora, tenho um assunto urgente com você.

Respondi que estaria lá, afinal para a direção só poderia dar esta resposta.

Dr. Anthony Johnson era o diretor do Instituto de Biologia da Universidade da Califórnia. Meu chefe. Personalidade difícil, e muito incompatível com a minha. Uma chamada desta já me deixava irritado. Teria que enfrentar o chefe de novo. A última vez que nos vimos ele me prometeu um corte de verbas que iria inviabilizar o meu trabalho. Mas desta vez seu tom de voz era outro.

Meus olhos dilatados pela luz do microscópio demoraram a acostumar-se com a penumbra de minha sala. A meia luz de um fim de tarde chuvoso e escuro, deprimente para os mais sensíveis.

Ainda pude arrumar um pouco a bagunça antes de sair para a reunião.

Cheguei à sala no momento combinado. Sala iluminada por muitas luzes e amplas janelas com vista para o campus.

-Sente-se Dr. Schumann, por favor. – sua voz firme e conhecida tomou conta da sala, talvez tentando me intimidar.

-Em que posso ser útil, Tony? – apesar de sua personalidade, não admitia que o chamassem de outra coisa, a não ser seu primeiro nome. Talvez pela origem italiana, não sei.

-Conhece o Dr. Peter Martin? Ele deseja marcar uma reunião com você, o mais rápido possível. Ele tem acompanhado os resultados de suas pesquisas e gostaria de propor um projeto em conjunto.

-Peter Martin? – nunca tinha ouvido falar.

-Desculpe, Peter Martin, Universidade do Arizona, é pesquisador associado a NASA. Ele precisa de sua ajuda neste projeto Constellation para uma viagem tripulada para Marte. – As palavras pareceram totalmente equivocadas, o que eu teria com Marte?

-Mas eu não trabalho com Astronáutica, deve haver algum engano, eu sou um biólogo. Não entendo onde poderia ajudar.

-Tudo bem, Dr. Schumann, ele está ciente de sua capacidade. Como disse, ele tem acompanhado seus trabalhos. E tem uma quantidade de verba bastante elevada para que você possa prosseguir seus trabalhos com ele. Sabe que estamos com problemas de investimento aqui. Ele pediu que eu o liberasse.

-Liberasse? Está dizendo que vocês estão me transferindo?

-Exatamente, será mais útil lá, tenha certeza. O salário e os desafios serão muito maiores. Além do que, sei que você não tem nenhum vínculo familiar aqui, não é? Eles já enviaram um mensageiro com passagens aéreas para você. Aqui estão.

-Mas esta passagem não é para o Arizona. – Digo, olhando incrédulo para a passagem aérea já em minhas mãos.

-Não mesmo, seu destino é Copenhague, Dinamarca. Boa sorte Carl. – Estendeu-me a mão em um aperto forte, e me chamou pelo primeiro nome, pela única vez.

-Eu não tenho escolha, tenho? -digo ainda apertando sua mão.

Ele nem se dá ao trabalho de responder. Seu olhar é o suficiente.

Sai dali diretamente para minha sala. Nunca tinha lido nada sobre o Dr. Martin, e comecei uma rápida pesquisa na internet para ver o que encontrava. Bem fácil, uma foto e seu currículo quase completo.

Peter H. Martin, físico e mestre em ótica, já trabalhou com exploração espacial deste o projeto Pionner Vênus. Fez estudos com o telescópio Hubble em 94, e trabalhou no desenvolvimento da câmera da nave Huygens que obteve as primeiras imagens da superfície de Titan. Gerenciou a construção da câmera HiRISE do MRO, sonda com imagens
de alta resolução de Marte. Foi o líder do projeto da primeira sonda Phoenix, que pousou em Marte em 2008. Esta sonda confirmou a presença de água congelada na superfície de Marte.

Na época destes acontecimentos ele estava trabalhando com o projeto de viagem à Marte em cooperação com a NASA, universidades do Canadá, Dinamarca, Alemanha e Suíça. Pela idade sua aposentadoria devia estar bem próxima.

O sono finalmente começou a tirar minha concentração. Até tinha esquecido que as amostras da lâmina no microscópio indicavam sucesso na experiência. Pela décima vez. Bactérias são mesmo fascinantes. Revivê-las depois de dias é algo que eu adoro fazer.

Mesmo com sono, o cérebro continuava funcionando: O que a NASA queria com minhas experiências? Bactérias e nave para Marte, qual a relação? Será que ainda estavam procurando vida lá? Mas todas as sondas anteriores tinham descartado a hipótese.

Na verdade, desde a descoberta de vida bacteriana em Encélado, Marte tinha deixado de ser o principal atrativo da exploração espacial. A lua de Saturno apresentava grande quantidade de bactérias que se desenvolveram na água líquida de lagos a alguns metros abaixo da superfície. Os lagos eram formados pelo aquecimento gerado pelas atividades de gêiseres.

Pelo menos mais uma sonda tinha voltado a Encélado e confirmado a maior descoberta da NASA em todos os tempos. Na verdade, a confirmação veio de uma sonda projetada pela ESA, agência europeia, que havia lançando muitas dúvidas sobre o grande achado. Apesar da desconfiança a sonda confirmou tudo.

Eu pensei em continuar pesquisando, mas o sono realmente estava me vencendo.

Ajeitei-me no sofá no canto do laboratório e dormi. Teria muito que pensar nos próximos dias.

No fim de semana seguinte preparei-me para a viagem que foi realizada na segunda-feira. Seria minha primeira vez no Velho Mundo. A recomendação era deixar tudo preparado para uma mudança definitiva para os próximos dias.

No fim do dia desembarquei em Paris onde fiz uma refeição e me hospedei. Teria o dia seguinte livre para conhecer a cidade luz. Na terça-feira à meia noite peguei um novo avião para Copenhague. Chegando lá, Dr. Peter Martin estava me esperando já no aeroporto com seus cabelos e bigodes grisalhos e um sorriso largo que sempre leva. Recebeu-me com um
forte aperto de mão e uma conversa rápida sobre minha hospedagem.

Despedimos-nos e eu fui para o hotel. A primeira reunião de trabalho ficou para o dia seguinte. Foi mais uma noite sem conseguir dormir direito. O fuso horário estava me deixando exausto.

Encontramos-nos no Instituto Niels Bohr na Universidade da Dinamarca. Entramos eu e o meu guia em uma pequena saleta. Nela estavam o Dr. Peter e mais dois senhores que levantaram-se assim que chegamos.

-Quer ser o principal responsável por confirmar a existência de vida em Marte, Dr. Schumann? – Peter foi direto ao assunto.

Olhei seus olhos brilhantes e empolgados e entendi imediatamente o que eu estava fazendo ali.

Continua…