Para ler o livro desde o início comece em:
Leia os primeiros capítulos e compre o livro – prestigie o autor
Para quem já leu os capítulos iniciais, o autor pediu algumas resolvi fazer mudanças para encaixar o andamento do enredo. Ele incluíu Incluí um astronauta Chinês no pouso do capítulo 1 e fez fiz algumas revisões de texto e estilo.

Negociações entre oficiais da ABMA (agência de mísseis balísticos do exército americano) e os oficiais da NASA (1959) Crédito: Marshall Space Flight Center (MSFC)
Capítulo 3 – Olhos Obtusos
A reunião foi marcada no JPL, o lendário Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia. Teríamos o tempo quente do verão do hemisfério norte. Estariam na reunião: Dr. Peter, meu único contato com o projeto, eu e o Dr. Charles Gavin, diretor do laboratório.
Novamente o fuso horário me deixou com problemas sérios naquela semana. Pude revisar todo o material durante as insônias. Estava preparado para defender meu trabalho e convencido que a construção da máquina seria importante para a segurança do voo planejado para Marte.
A chegada ao JPL se deu por uma estrada cheia de curvas. As instalações ficam entre colinas em uma bonita região da Califórnia que eu ainda não conhecia. Ao redor dos prédios, campinas verdejantes, e no horizonte foi possível ver uma grande montanha com o pico congelado. Dr. Peter estava comigo. Ainda no carro, trocamos algumas informações que achávamos importantes para a reunião. Segundo ele, eu teria em torno de vinte minutos para resumir o conteúdo de minhas experiências e falar sobre o projeto do detector de esporos em que eu estava trabalhando. O diretor Gavin estava informado sobre o assunto e qual era nossa proposta. Não haveria surpresas, conforme Peter havia me prometido. Pelo menos
era isso que eu imaginei.
Fomos conduzidos até uma comum sala de reuniões com uma grande mesa oval, um quadro branco em uma parede, um projetor no teto, e uma grande janela do outro lado. A janela era voltada justamente para a montanha e seu pico gelado. Uma sala muito impessoal, que poderia ser de qualquer empresa. Um detalhe, porém, em um canto, acabou por identificar o lugar: um grande modelo do ônibus espacial Colúmbia e seu grande tanque externo laranja e a dupla de foguetes de combustível sólido.
Pediram para aguardarmos um pouco e sentamos por alguns minutos. Aproveitei para ajeitar os papéis sobre a mesa e desenrolar alguns desenhos maiores.
Não demorou muito para chegar nosso anfitrião, Dr. Gavin. Veio sozinho e nos cumprimentou com um sorriso largo. Apresentou-se e iniciou rapidamente os trabalhos:
-Dr. Martin e Dr. Schumann, acho que me devem uma explicação. O que pretendem com este projeto “secreto” – fez as aspas com os dedos – que estão fazendo em Copenhague?
Olhei constrangido para o Dr. Peter e esperei que ele respondesse. Porém, Dr. Gavin foi mais rápido. Ficou claro que ele tinha tudo sob completo controle.
-Senhores, não precisam explicar-se. Estou completamente ciente de seus trabalhos e tenho acompanhado em detalhes cada um dos passos que têm realizado. Estou contente que o Dr. Schumann esteja conosco. Porém temos que nos alinhar, não dá para continuarmos trabalhando em paralelo. Vejo que você trouxe os papéis do projeto. Pode guardar isso, acho que as cópias que temos aqui já nos bastam.
Eu não entendi nada. Como teriam cópias disso?
-Dr. Gavin, tem que me desculpar, mas, você tem feito espionagem em nosso trabalho? – Disse Peter indignado.
-Digamos que nós somos os responsáveis pelos engenheiros que trabalham para você. Nada mais justo que eles nos reportem o que estão fazendo! Mas esqueçam isso. Não vem mais ao caso. O que interessa agora é para onde vamos.
-Parece que eu vou retornar para o Instituto de Biologia. – Respondi sem entusiasmo.
-Não Dr. Schumann, temos algo maior para você. – Retornou Gavin – Sua máquina é formidável. Conseguiu realizar algo incrível com a pequena equipe que dispunha. Nossos planos são outros. Aliás, nosso verdadeiro problema é tão diverso do que vocês têm trabalhado. Mas vocês apareceram na hora certa.
-E qual seria este problema, doutor? – perguntei curioso.
-Antes de prosseguir gostaria de lhe apresentar a doutora que está trabalhando com um equipamento exatamente como o seu. Deixe-me chamá-la. – Acionou o telefone sobre a mesa e pediu que a secretária conduzisse a doutora até a sala de reuniões onde estávamos. Em poucos segundos a porta se abriu e ela entrou em passos rápidos.
Minha primeira visão foram seus olhos obtusos.
Não poderia determinar se sorria. Nosso olhar se cruzou rápido. Ela parecia incomodada, talvez séria, não ficou claro para mim. Porém foi fácil perceber o quanto tinha um rosto lindo e estava em boa forma. Mas no momento que a vi, foram os olhos castanhos que realmente me atraíram.
-Deixe-me apresentá-la. – Gavin interrompeu meus devaneios – Esta é a Dra. Anna Ivanova, bioengenheira da Universidade de Moscou e principal responsável pela participação científica da Rússia no projeto de visita a Marte. Dra. Ivanova, este é Dr. Carl Schumann, e o Dr. Peter a senhora já conhece.
Ela olhou firme em meus olhos e em um aperto de mão forte demonstrou sua determinação e tenacidade. Eu por minha vez me senti acuado imediatamente.
-Doutores, a doutora Ivanova já fez uma análise inicial dos documentos e está convencida que o projeto do sensor é totalmente viável. Por favor, doutora.
-Sim, diretor. Enquanto estavam trabalhando neste equipamento, eu e minha equipe aqui no JPL já tínhamos um equipamento protótipo similar em testes preliminares. Porém os resultados não eram nada promissores. – Ela falava com segurança e uma autoridade que beirava a arrogância. Sua voz era firme, porém o sotaque russo dava a ela um quê de misterioso. – Nós utilizamos uma técnica mais ortodoxa para a detecção de esporos, baseado em bioluminescência.
-Eu pensei também iniciar os estudos nesta direção. – concordei. – Porém minhas experiências anteriores com bioluminescência geravam um grande número de falsos positivos quando alguns fatores externos interferiam na medida.
-Por isso iniciou diretamente com a técnica de cultivo? – Perguntou.
-Exatamente. Isso fará com que a detecção seja mais demorada, porém mais segura.
-Desde que não haja nenhuma possibilidade de contaminação antes de obter a amostra.
-Em todos os casos uma contaminação estragaria qualquer conclusão, independente do método.
-Tem toda razão, doutor Schumann. Porém o método de cultivo precisa de um controle muito maior, justamente por ser necessário um ambiente favorável para os esporos aflorarem. – Ela retrucou.
-Se não houver uma garantia completa de esterilização dos equipamentos, nenhum método terá credibilidade. – Respondi irritado.
Dr. Gavin levantou e interrompeu a conversa que já fazia os ânimos esquentarem.
-Vejo que vocês terão muito que discutir juntos, não é mesmo? – Disse com um pouco de ironia. – Minha proposta é a seguinte: vocês dois vão trabalhar juntos aqui no laboratório de bioengenharia com todo apoio dos nossos engenheiros. Precisamos construir este dispositivo e testá-lo em seis meses apenas. Ele deverá ser menor e mais leve. Pelo menos metade do tamanho destes desenhos iniciais. Dra. Ivanova tem alguma experiência em miniaturização, vai lhe ajudar. Estamos planejando enviá-lo para Marte antes da viagem tripulada. A equipe disponível é suficiente para este prazo.
Dr. Schumann, você será o gerente deste projeto. Dra. Ivanova irá lhe apresentar toda a equipe. Vá em frente doutora, ainda preciso definir alguns detalhes com Dr. Schumann.
Dra. Ivanova ficou lívida imediatamente. Os olhos dela pareciam querer destruir o diretor Gavin.
-Dra. Ivanova, você insistiu muito nos últimos dias que precisava de uma definição da chefia do projeto do sensor. Pois bem, Dr. Schumann será o gerente de projeto. – Ela se virou para mim e também me fuzilou, porém minha expressão de surpresa era tão grande que ela desviou o olhar e saiu pisando duro.
Dr. Gavin parecia estar executando com maestria um plano bem pensado com todos os detalhes previamente definidos. Tudo estava em suas mãos.
-Dr. Peter Martin, você foi designado para coordenar o projeto científico da viagem para Marte desde o início e temos tido muitos problemas para nos entender. Esta situação absurda com o Dr. Schumann fazendo seus projetos secretos na Dinamarca é algo que não posso tolerar. Você passou por cima de minhas determinações. Não podemos continuar
assim. Eu não posso. Preciso pedir para que deixe a frente deste projeto. O conselho diretor já aceitou minhas argumentações.
-Eu já esperava por isso, diretor. – Respondeu Peter – Na verdade minha aposentadoria já venceu há dois anos. Quando criei esta “situação absurda” eu tinha completo conhecimento das consequências. Mas eu não poderia me furtar da responsabilidade. Eu já tenho aqui em mãos uma carta de desligamento. Eu vim preparado para isso.
-Certo Peter. Vejo que quer tornar as coisas mais fáceis. Já tenho seu substituto definido. Ele está te aguardando neste momento no escritório do laboratório de Biologia. Trata-se de seu braço direito, Dr. Reynaud. Por favor, vá até lá, ainda tenho algo a discutir com o Dr. Schumann.
-Sua escolha para meu substituto foi uma excelente decisão, Dr. Gavin. – Concordou Peter. E virando-se para mim – Boa sorte Carl, nós ainda nos encontraremos aqui. – E se despediu saindo imediatamente.
Sua reação foi bem mais amigável que a da doutora Ivanova. Ele saiu tranquilo e, pelo que vi os acontecimentos não pareceram surpreendê-lo.
-Então agora somos só nós dois, doutor Schumann. – Gavin se dirigiu a mim, juntando a palma da mão e enrugando a testa de forma estranha. – Eu tenho outra missão para você.
-Você já deve ter notado como a Doutora Anna Ivanova tem uma intensa presença pessoal. – Continuou Gavin – Os russos a escolheram para este projeto de forma muito premeditada. Eles pretendem transformá-la em um novo Yuri Gagarin de saias. Não sei se tem acompanhado política rapaz, os ânimos estão esquentando novamente. Desde que a China se
tornou uma potência em pé de igualdade com a América, os russos estão tentando de tudo para retomar seu lugar. Então estamos planejando esta viagem para Marte. E os russos participam principalmente por sua experiência em missões longas. E também por seus foguetes baratos de reabastecimento. Os acordos permitem uma cadeira para eles no voo. Diante disso, o que eles fazem?
-Eles pretendem monopolizar a atenção do público com esta senhora. Bonita, independente, inteligente. E responsável pela experiência mais importante: confirmar a vida em Marte. Seria ela a primeira a manipular bactérias extraterrestres! Não interessa que o primeiro passo fosse de um americano. Ela seria a principal história.
-Dr. Schumann, se tivermos outra pessoa no projeto para dividir as atenções sobre a questão das bactérias, poderemos anular esta doutora. Porém, não quero causar uma má impressão a você. A preocupação quanto à fama dela não é nossa, não da América. O problema são os investidores chineses. Eles prometeram verbas para o projeto. Porém esta ameaça russa
não estava em seus planos.
-Isso parece um pouco conspiratório demais – pensei alto.
-O que quero de você não tem nada de conspiratório. Apenas precisamos de um contraponto àquela pesquisadora. Por isso te coloquei como o responsável. Ela será seu braço direito. Não podemos negar a presença dela aos russos. Então faremos do sucesso dela, o seu sucesso. Dependendo de como o projeto andar talvez sua participação, Schumann, tenha que ser maior.
-Como assim maior?
-Quem sabe você terá que ir até Marte. Isso estaria fora de cogitação para você?
Olhei atônito para o diretor Gavin. Não consegui responder nada. Aquilo era uma loucura.
-Não responda agora – ele percebeu minha reação – Apenas pense no assunto. Venha comigo agora, quero apresentar o restante da equipe.
Saímos dali imediatamente, enquanto minha mente trabalhava sem parar, às voltas com esta ideia doida de ir para outro planeta. Nunca até aquele momento tinha me passado pela cabeça algo tão insólito.
continua…
Para não perder o restante do livro: Assine nosso Feed Ou Receba por email os novos artigos do site.


