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Livro Vermelho Vivo, Capítulo 6

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

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Como prometi, estou publicando os novos capítulos do livro meu livro: Marte. O nome ainda é provisório, mas espero me decidir logo. Alguma sugestão? Hoje vai o sétimo capítulo e amanhã o oitavo. Para os ansiosos, o nono capítulo já está em fase de revisão, então, talvez ainda publique no fim de semana. Aproveitem:

Atualizando

Título definitivo: Vermelho Vivo. No site leia os primeiros 10 capítulos do livro, o restante já está a venda, prestigie…

Assinatura de certificado por cosmonauta durante a acoplagem de nave Soyuz e Apollo. (1975) Crédito: Johnson Space Center (JSC)

Assinatura de certificado por cosmonauta durante a acoplagem de nave Soyuz e Apollo. (1975) Crédito: Johnson Space Center (JSC)

Capítulo 6 – Mister Won

Continuamos com os trabalhos com muito empenho e os resultados logo começaram a aparecer. A máquina detectora de esporos diminuiu de tamanho e ficou mais e mais precisa.

Apesar do muito trabalho, pude receber algumas ligações do Dr. Peter Martin. Ele estava muito interessado no andamento do projeto, apesar de suas férias no Havaí. Seu telefonema sempre terminava em boas risadas. Afinal, relaxado como ele estava, era fácil arrumar alguma piada para tudo.

Em uma destas ligações, Peter se mostrou um pouco mais preocupado com a questão da entrada dos chineses no projeto. No entanto, quando disse que seria Liwei Won o engenheiro que participaria, suas preocupações se dissiparam.

-Mister Won é uma excelente pessoa. – acalmou-me Peter – Pudemos nos conhecer durante o primeiro projeto conjunto da NASA e a China. Ele é simples e muito prestativo. Inteligente que não acaba mais. Não consegui seguir o raciocínio dele algumas vezes. Precisou desenhar!

-Sem essa. Precisar desenhar para você! – eu já o tinha como um amigo, o que me permitia chama-lo de você, Peter, ou o que desejasse.

-Não o subestime. Quando precisar, puxe o papel e peça o desenho. – E sorriu em uma gargalhada. – Agora preciso desligar; minha esposa já está pedindo outro Martíni, e se continuar assim, eu terei que levá-la ao quarto carregada!

-Até logo meu amigo, espero que aproveite este período sabático. – emendei.

-Não é sabático. Afinal hoje é segunda! – novas gargalhadas. Porém mais sério ele prosseguiu – Na verdade é uma aposentadoria de verdade. Não pretendo retornar ao trabalho. Se soubesse que seria assim, já teria me aposentado antes!

-Então aproveite doutor. E curta sua família. Um abraço.

Logo que desligamos, doutora Ivanova chamou-me ao laboratório. Queria apresentar-me os novos resultado dos sensores.

-Dr. Schumann, veja estes resultados. – colocou uma folha com uma tabela sobre a mesa e continuou: – Segundo Cláudio, o computador pôde relacionar os dados dos dois sensores de forma a conseguir uma taxa de acerto na ordem de 90%. Os resultados estão cada vez melhores. Porém como poderíamos aumentar este valor?

-Se eu pudesse fazer enriquecimento, olhar os tubos de ensaio e selecionar pessoalmente as amostras, com certeza poderíamos chegar a cem por cento. Não há como eu manipular algum robô de controle remoto com câmeras, ou algo assim?

-Deixa de bobagem. – reclamou doutora Ivanova.- Quantas vezes eu terei que repetir: o atraso de dezenas de minutos da comunicação de dados entre Marte e a Terra impede controles em tempo real. Não entende isso, Carl?

Olhei bem para ela. Ela não percebeu que havia me chamado pelo primeiro nome. Era a primeira vez, e indicava que a intimidade estava aumentando. Talvez tenha sido um descuido ou coisa assim. Mas meu pensamento ficou divagando por um ou dois segundos. Até que meu raciocínio retornou ao assunto.

-É. Você está certa.

-Cláudio me apresentou um novo algoritmo de análise. Usando Lógica Fuzzy. Isso seria próximo do que você está propondo, conhece? – ela perguntou.

-Lógica Fully, é de comer?

-Fuzzy, doutor. Lógica Fuzzy. Com esta lógica seria possível armazenar seu conhecimento de análise. O computador capturaria seu conhecimento para escolher e examinar as amostras.

-Isso é meio assustador. Se o computador armazenar meu conhecimento, eles poderiam me mandar para casa. – brinquei.

-Não fale bobagens. Você tem conversado muito com o doutor Martin. Seu senso de humor está além do suportável ultimamente. – disse Anna, com aquele olhar reprovativo.

-Não mesmo. Meu senso de humor está ótimo. É a doutora que anda bem difícil nos últimos dias. – ponderei, afinal, realmente, ela parecia cada dia mais irritada e irritante.

-Não vamos começar com isso. Vou falar com Cláudio, preciso rever os algoritmos que ele está propondo. Minha experiência com lógica Fuzzy me diz que ela é muito promissora para este caso.

-Tudo bem, vá lá falar com o rapaz. Mudando de assunto; Acho que era hoje que o Dr. Won viria para cá. É isso mesmo, Anna?

-Por favor, não me chame de Anna. Eu insisto. – Seus olhos crisparam e não deram espaço para qualquer reação.

-Me desculpe doutora. Não vai se repetir. – respondi constrangido.

-O diretor Gavin deixou avisado que o chinês estará aqui à tarde. Deve recebê-lo junto com o doutor Reynaud.

Ela saiu estalando as tamancas para falar com Cláudio, e me deixou lá pensativo. Sua reação quando lhe chamei pelo primeiro nome foi extremamente exagerada. Por que não poderia chamá-la assim? Ela mesma não tinha acabado de me chamar pelo primeiro nome?

Tentei afastar estes pensamentos para me concentrar em juntar o material para a apresentação ao Mister Won. Já tinha se passado o primeiro mês, de um total de quatro, para o prazo definido na reunião com Reynaud. Embora tivéssemos avançado, não conseguimos diminuir o equipamento suficientemente.

Liwei Won chegou no início da tarde e foi-me apresentado pelo Dr Reynaud. Exatamente como Peter tinha me dito, sua aparência era simples e seus gestos comedidos. Vendo-o na rua, poderia ser confundido com um simples camponês perdido na cidade grande.

No entanto, quando comecei a apresentar os desenhos e as especificações do projeto que desenvolvíamos, ele apontou cada um dos gargalos para aumentarmos a precisão e diminuir o tamanho da máquina. Em pouco menos de vinte minutos ele já dominava o projeto e pediu a presença dos analistas e programadores, para que ele pudesse sugerir
algumas novas técnicas para aperfeiçoar os resultados.

Liguei para Cláudio em sua sala, pedindo sua presença. No entanto em poucos segundos, quem apareceu foi Anna, quase correndo e com a face enérgica. Chegou abrindo a porta com força e quase gritando:

-Não disse que estaria com Cláudio fazendo a análise do novo algoritmo? Será que não pode me deixar trabalhar um segundo?

Ela estava tão transtornada que não percebeu a presença de Won. Mal ela terminou de falar, Cláudio chegou correndo atrás, com aquela cara de quem fez o que pôde para evitar que ela saísse correndo.

Procurei responder com a maior calma possível, falando pausadamente e baixo:

-Desculpe-me, doutora Ivanova, não queria interrompê-los. Porém chamei Cláudio aqui para apresentá-lo ao novo integrante da equipe. Este é Liwei Won, ou Mister Won. Won, esta é a doutora Anna Ivanova, um dos nossos mais dedicados quadros neste projeto. E este é Cláudio, com quem você gostaria de falar.

Ela ficou lívida, e ainda tremendo cumprimentou Won e sem falar nada, saiu rapidamente cabisbaixa. Acho que nunca a vi tão constrangida como naquele momento.

O incidente com Anna foi embaraçador. Soube depois, à boca pequena, que ela saiu da sala e escondeu-se em um canto chorando. Nunca esperaria dela uma reação assim, pois sempre fora altiva e segura de si.

Won conversou um bom tempo com Cláudio e confirmou que Lógica Fuzzy seria ótima neste projeto. Prometeu que traria uma biblioteca de códigos de seu computador, pela internet, para facilitar ainda mais o trabalho dos programadores.

Seu grande conhecimento técnico de todas as áreas envolvidas e sua humildade para propor mudanças, fez com que ele fosse recebido de forma integral pela equipe, sem resistências. Uma semana depois, ele já era visto como um dos nossos. Além do que, como dissera Reynaud, seu inglês era impecável, muito melhor que o da doutora Anna.

Os novos algoritmos de Cláudio com a biblioteca de Won, mostraram-se totalmente seguros e precisos. Não tivemos mais problemas com as amostras. O sensor tinha agora um tempo de leitura excelente e apresentou grandes resultados.

Foi muito interessante a forma com que calibramos o equipamento. Cláudio preparou um programa que me fez uma espécie de entrevista. Ele apresentava imagens e medidas obtidas da máquina e pedia que eu identificasse o quanto estava próximo de um esporo.

Eu imaginava que durante a calibragem eu teria que responder algo preciso como: “o diâmetro do ponto destacado deve estar entre três e quatro micrômetros e a cor deverá estar com nível de azul entre dez e duzentos unidades”, ou outros parâmetros como estes. No entanto as minhas informações poderiam ser bem imprecisas: “o diâmetro do ponto destacado deverá ser pequeno e a cor levemente azul”. A lógica Fuzzy iria mapear estas informações imprecisas matematicamente e identificar com precisão as amostras. Porém a forma exata como a lógica realizava o mapeamento fugiu do meu entendimento.

Mister Won colaborou também com um espectrômetro miniaturizado. Ele trouxe do projeto da sonda que os Chineses iriam lançar junto com a nossa. Isso reduziu ainda mais o tamanho e o tempo do projeto. Se tivéssemos que reduzir o tamanho do espectrômetro que tínhamos anteriormente, o prazo se esgotaria.

A sonda chinesa tinha outros propósitos. Ela ficaria em órbita para mapear detalhadamente a composição química da tênue atmosfera e da superfície de Marte. Além disso, o projeto era testar o foguete para uma futura viagem até a Lua. O projeto astronáutico Chinês recebeu muito dinheiro desde o quebra da bolsa americana e mundial em 2008. A influência da China no retorno à normalidade foi decisiva, e marcou definitivamente sua posição como grande potência mundial. Os europeus também retomaram sua importância, uma vez que somente eles conseguiram acalmar os investidores.

Quanto a nosso projeto, no fim do terceiro mês conseguimos terminar o equipamento e embalá-lo para o transporte até a China, de onde seria lançado.

Anna pareceu cada vez mais melancólica e mais nervosa conforme o projeto ia caminhando. Atribuí seu nervosismo à sua responsabilidade no projeto. Verifiquei que os contatos com Moscou aumentaram muito neste momento. Possivelmente estariam pressionando-a mais do que poderia suportar.

Para comemorar o término da sonda, nos reunimos todos na entrada do laboratório onde tivemos um pequeno evento. Serviram champanhe. Anna apareceu preocupada e sumiu rapidamente. Todos os outros comemoraram muito. Dr. Gavin e Dr Reynaud fizeram discursos e entregaram simbolicamente a sonda a Mister Won.

Batizamos a sonda de Phoenix 2.

Mister Won seguiria com o equipamento para a China, juntamente com alguns de nossos engenheiros. Teriam ainda um mês para fazer integração da sonda ao foguete.

Foi uma vitória conseguirmos realizar o projeto dentro do prazo. Os próximos seis meses seriam o tempo da viagem, e somente após o pouso da nave em solo marciano teríamos os primeiros resultados.

Acreditava que teria um pouco de folga, porém este período de espera reservou surpresas ainda maiores.

Uma quinzena após a partida de Won, o diretor Gavin convocou-me, juntamente com Anna para uma de suas reuniões planejadas. Na última, como já citei, ele mandou Peter embora. Fiquei sabendo que ele só participava diretamente de alguma reunião se fosse mesmo decisivo para o andamento do projeto. Portanto minha expectativa quanto a esta reunião era enorme.

Quando entramos na sala do Colúmbia, encontramos Dr. Gavin de pé, como a face transtornada. Sentado ao seu lado Dr Reynaud parecia ainda pior, e olhava, com os olhos vermelhos, os picos gelados das montanhas. Para nossa surpresa, Mister Won pessoalmente e com um amontoado de papéis em mãos, parecia o único a demonstrar tranquilidade. Por algum motivo ele tinha retornado da China, antes do que esperávamos.

-Temos um grande problema… – disse Gavin com os dedos entrelaçados e a testa enrugada. – Um grande problema…

Continua…

Sobre o Autor Novato

segunda-feira, 27 de outubro de 2008
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Desde o último dia 21 de agosto, tenho publicado neste blog cada um dos capítulos de um livro sobre uma viagem a Marte. Como informei junto ao primeiro capítulo, o livro está sendo escrito por um autor novato. Não dei nenhum detalhe a respeito dele, mas hoje vou falar mais.

Em primeiro lugar, o autor novato sou eu mesmo.

Não tinha idéia da qualidade do trabalho que eu iria realizar e acabei me escondendo. Me acovardei, esta é a verdade. No entanto depois destes oito primeiros capítulos que já escrevi, aprendi a gostar dele. Sabe, sem nenhuma modéstia, estou ficando orgulhoso do resultado até agora. É claro que agora posso tomar um rumo errado e estragar tudo. Mas, por enquanto, estou muito contente.

Quiz assumir de vez a criança, pois quero obter de vocês um pouco de crítica. Será que ninguém vai falar mal? Poxa, eu queria que alguém apontasse mais falhas aqui. Que me fizesse aumentar o padrão de qualidade. Será que dos quase 230 leitores assinantes do meu blog, tão poucos se importam?

Manifestem-se, por favor. É muito fácil deixar um comentário.

Para quem reparou que eu disse 8 capítulos e só publiquei 6, esta semana teremos capítulos em dose dubla. Isso para comemorar a divulgação do autor. Assim que terminar a última revisão, publicarei os capítulos sete e oito.

Sobre o processo de escrita do livro, se for do interesse e quizerem perguntar, usem os comentários.

Para terminar: estou convidando alguns blogueiros que acompanho e que escrevem sobre literatura, para ver o que estou escrevendo. Quero mesmo dar minha cara a tapa: Pelvini, Alessandro Martins, André Gazola. Se tiverem um tempinho para me prestigiar, eu agradeceria muitíssimo. Que todos saibam, que eu os prestigio sempre que publicam. Aliás, eles são ótimos.

Livro do autor novato: Vermelho Vivo, Capítulo 5

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

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Robert T. Jones no Quadro Negro. Resolvendo problema com aerodinâmica de asas em velocidades supersônicas (1946). Crédito: NASA Langley Research Center (NASA-LaRC)

Robert T. Jones no Quadro Negro. Resolvendo problema com aerodinâmica de asas em velocidades supersônicas (1946). Crédito: NASA Langley Research Center (NASA-LaRC)

Capítulo 5 – Mudança de Planos

Depois daquele primeiro dia, sem a pressão da novidade e a expectativa da reação de Anna, finalmente pude me concentrar em produzir a máquina.

Dr. Reynaud, o novo responsável pelo projeto, era uma boa pessoa e muito participativo.

E a equipe era fantástica.

Acho que nunca trabalhei com uma equipe como aquela. A motivação era grande, e a experiência dos integrantes era impressionante.

No entanto, minha posição de gerente do projeto do sensor era muito difícil. Eu não sou o tipo que coordena equipes. Muito pelo contrário, gosto de trabalhar sozinho. O consolo é que a quantidade de trabalho não permitia que eu fizesse isso de qualquer maneira.

Doutora Ivanova foi um caso a parte. Participava de forma visceral do projeto. Era como se a máquina fosse seu bebê. Acho que durante os primeiros meses nunca deixei de vê-la no laboratório. Sempre foi a primeira a chegar e a última a sair.

Meu sofá confortável já tinha sido providenciado próximo de minha mesa. Porém não conseguia dormir direito, a ansiedade começou a deixar-me insone.

Naqueles dias os holofotes sobre a NASA aumentaram. A mídia de todo o mundo estava cobrindo os últimos testes com os foguetes da série Ares 1 e 5, que finalmente iriam levar o homem novamente para lua.

O voo estava previsto para os seis meses seguintes. E Jayson Palmer seria o Comandante. Além dele, conhecia também o piloto John Albert, que estava participando de nosso projeto. John era o terceiro homem na sala de Peter Martin naquela reunião em que começou minha história com a NASA.

O clima então era muito festivo e era grande a esperança que o projeto fosse além, e realmente levasse os primeiros humanos para Marte.

Depois de duas semanas de intenso trabalho, Dr. Reynaud junto com a Doutora Ivanova me procuraram no laboratório para discutirmos algumas questões sobre a máquina. Sua preocupação era com a contaminação dos tripulantes da futura nave.

Fomos até a sala de reunião, onde a nave Colúmbia estava nos esperando em seu canto.

Dr. Reynaud iniciou a reunião:

-Doutores, o diretor Gavin me procurou e está preocupado com o andamento deste projeto. Vocês sabem que o plano inicial foi colocar este seus sensores biológicos na nave que levará os homens até Marte. Porém, estamos conscientes que não será nada simples garantir que nenhuma contaminação exista. O risco para os tripulantes já é enorme sem estas bactérias. Estamos sobre pressão.

Dra. Ivanova concordou:

-Reynaud, a preocupação do diretor é válida. Temos poucas informações sobre estas supostas bactérias. Porém, se existem realmente, devem ser potencialmente resistentes. Procedimentos de desinfecção deveriam ser testados antes que a tripulação chegue próximo desta coisa. Estamos discutindo se devemos incluir isso na máquina, algum laser, ou dispositivo que gere alta temperatura…

-Doutora, – interrompeu Reynaud – eu acho que você já sabe o que devemos fazer não é?

-Mandar uma sonda antes da viagem. – ela respondeu imediatamente com os olhos baixos e uma careta. – Isso irá atrasar a viagem pelo menos uns dois anos.

-Algo próximo disso, doutora. Dr. Schumann, concorda com esta estratégica?

-Acho que seria a melhor maneira, a mais segura. Acho até que Gavin citou isso na minha primeira reunião com ele. Assim, conseguiríamos fazer um conjunto de testes para confirmar todas as coisas que precisamos saber. E a viagem a Marte seria um passeio mais agradável.

-Chamar esta aventura de passeio agradável não me parece muito justo – sorriu Reynaud. Franziu a testa e continuou um pouco mais sério: – Os Chineses vão entrar mais firmes no projeto. Eles têm um foguete pronto e uma sonda com algumas experiências que pretendem fazer. Vamos aproveitar a carona.

-Pensei que a participação deles era apenas financeira. – indaguei.

-Não doutor. Saiba que eles estão preparando um foguete para levar chineses a Lua nos próximos 10 anos. Eles tem tido bons resultados.

-Os foguetes foram baseados nos modelos russos. – esclareceu Ivanova – No entanto, eles conseguiram dominar a tecnologia e aperfeiçoaram muito o equipamento.

-Estou falando sobre isso, pois iremos integrar esta sonda ao foguete chinês. Um dos engenheiros líderes do projeto será transferido para cá e trabalhará com vocês no desenvolvimento. O nome dele é Liwei Won. É engenheiro astronáutico e candidato a Taikonauta.

-Um astronauta chinês? Quem diria. Se continuar assim esta vai ser o projeto mais internacional que já participei! – fiquei empolgado com a ideia.

-Fique tranquilo, ele fala inglês até melhor que a doutora. – brincou Reynaud.

Anna não gostou. Ficou ruborizada e quase pude ouvi-la resmungando alguma coisa entre os dentes.

Dr. Reynaud tirou uma caixa de CDs de sua valise e entregou-me.

-Aqui tem os desenhos e especificações do projeto do foguete chinês. Inclusive com os cronogramas. A previsão é que o lançamento ocorra em quatro meses. Temos pouquíssimo tempo.

Desta vez fui eu quem gelou imediatamente. Parecia impossível atender esta meta.

-Não me parece um prazo razoável. – reclamei.

Reynaud levantou-se e aos gritos respondeu:

-Lembre-se que levamos nove anos para colocarmos o homem na Lua, isso com a tecnologia de meio século atrás. Portanto em quatro meses é perfeitamente possível construir esta sonda. – com o dedo em riste. – Reciclem outros projetos, simplifiquem, resolvam…

Nunca tinha visto ele assim. Falou de uma forma tão enérgica e decidida que eu não tinha como discutir. Realmente, o diretor Gavin tinha feito uma boa escolha.

-Vão trabalhar. Vocês têm muito que fazer.

Eu e Ivanova nos olhamos um pouco surpresos e saímos dali.

Passamos o restante do dia estudando os desenhos e convocamos a equipe para uma reunião no fim da tarde.

Colocamos os desenhos do foguete em um projetor e apresentamos anovidade. Assim como foi para mim, a ideia energizou toda a equipe. Teríamos agora uma meta bem definida com prazo, tamanho do equipamento e objetivo.

Todos fizeram dezenas de perguntas. Algumas soubemos responder, outras tivemos que anotar. Foi um momento muito bom para o projeto.

Muita coisa que já tínhamos projetado teria que ser remodelada ou mesmo refeita. Mesmo assim no fim da reunião todos saíram confiantes e determinados.

Continua…

Livro do autor novato: Vermelho Vivo, capítulo 4

sábado, 11 de outubro de 2008

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Construção da espaçonave Genesis. (~1999) Crédito: NASA Jet Propulsion Laboratory

Construção da espaçonave Genesis. (~1999) Crédito: NASA Jet Propulsion Laboratory

Capítulo 4 – Primeiros Dias

Saímos dali para o laboratório principal do Instituto. Ainda no corredor pude ver por uma área envidraçada na lateral, que os pesquisadores estavam todos reunidos. Anna Ivanova estava gesticulando muito e tinha a face carregada.

No momento que passamos pela porta, a maioria nos olhou um tanto constrangidos. Alguns baixaram a cabeça pouco animados. Anna, porém, adiantou-se e veio ao nosso encontro e mostrou-se muito simpática.

-Seja bem vindo Dr. Schumann, deixe-me apresentar nossa equipe. – Segurando meu braço, arrastou-me e apresentou-me a cada pessoa do grupo.

Entre os presentes estava Jayson Palmer, o futuro comandante da viagem. Palmer, como era chamado o tempo inteiro, era uma presença forte que dificilmente passaria despercebida. A tez queimada de sol, os cabelos grisalhos, e grandes mãos calejadas lhe davam um ar de velho jovem marinheiro. Conversei muito com ele e nos simpatizamos imediatamente. Vi que poderíamos nos tornar bons amigos. Mesmo já o tendo encontrado antes, pude agora finalmente conhecê-lo.

Ao contrário do que imaginei, não houve qualquer hostilidade por parte da doutora Anna naquele primeiro momento. Foi muito amável e prestativa. Depois de quebrado o gelo, enquanto saia pelo corredor, procurei agradecê-la sua recepção. Esboçou um sorriso um pouco maligno e foi sincera:

-A missão é mais importante, camarada. Quem tem interesse em me tornar um ícone, são os políticos. Eu estou apenas cumprindo meu dever. Não pense que não sei que você foi chamado aqui para me ofuscar. Não se preocupe com isso. Eu tenho interesse científico aqui. Política, eu estou fora. – Ela não tinha meias palavras. Deixou-me sem fala. Fiz um gesto afirmativo com os olhos e o rosto e respondi:

-Então, nós falaremos a mesma língua, eu também estou aqui pela ciência.

-Mas você não irá receber os louros por minha pesquisa. – Interrompeu-me – Prepare-se para o dobro de trabalho, ou vai comer poeira. Aliás, deixei um pacote de recomendações de mudanças para seu projeto bem sobre sua mesa.

-Aquela é minha? – apontei para uma mesa na direção que ela me indicou o pacote.

-Sim, a mesa mais a direita. Boa sorte, doutor e seja bem vindo novamente.

-Muito obrigado. – Respondi apertando sua mão. Naquele momento não pude deixar de reparar no grande brilhante de uma aliança em sua mão esquerda. Deveria ser casada.

O resto do dia eu tirei para ajeitar minha mudança. Ficaria em um hotel, enquanto não arrumasse um local menos provisório.

No dia seguinte pela manhã, acordei bem disposto e fui fazer a barba e tomar meu banho matinal: um ótimo momento para eu repensar tudo que estava acontecendo comigo.

Era estranho como tudo tinha mudado tão rápido. O novo laboratório era tão completo e estavam todos motivados e prontos para fazer o que era necessário. E Anna também. Surpreendeu-me a forma como ela posicionou-se mesmo após o corte que o Dr. Gavin lhe deu. Este seria o primeiro dia no novo laboratório e eu sentia uma excitação e certo frio na barriga.

No horário combinado, um dos engenheiros passou para me pegar no hotel. No caminho pudemos trocar uma ideia.

-Dr. Schumann, o pessoal já pôde ver um pouco seu trabalho com o sensor. Teremos muito trabalho para reduzir tudo aquilo para a sonda.

-Cláudio, qual sua especialidade mesmo? Desculpe-me, mas tinha tanta gente para conhecer ontem que me enrolei todo.

-Sou Analista de Sistemas, doutor. Eu tenho trabalhado duro no projeto da doutora Anna. Infelizmente os resultados não têm sido nada animadores. As nossas estatísticas de falso positivo são altas demais.

-Você mesmo analisou os dados das experiências?

-Sim. Preparei os programas para a análise estatística. Os resultados foram péssimos.

-Dra. Anna deve estar muito decepcionada, não é?

-Sim, ela trabalhou muito tempo com este projeto. – ele não tirava os olhos da estrada, e seu tom de voz deixava claro a sua decepção também.

-Cláudio, e quanto a falsos negativos? – enquanto conversávamos, veio-me uma ideia daquelas.

-Falsos negativos? Quer dizer, casos em que a amostra tinha bactérias e o sistema não encontrou nada?

-Exatamente – respondi empolgado. – Estava aqui pensando…

-Bom, não tivemos falsos negativos. E olha que repetimos dezenas de vezes os testes. Não foi muito bom para indicar bactérias com precisão, dezenas de testes sem bactérias indicou a presença. Ficou claro que iria falhar. – disse resignado.

-Mas ele não errou nenhuma vez deixando passar uma amostra com bactérias?

-Não senhor. Nas vezes que tínhamos bactérias, ele sempre as indicava.

-Certo Cláudio. Você acaba de me dar uma ótima notícia.

-Que bom. – Ele continuou dirigindo, mas agora com um meio sorriso no rosto, como se tivesse feito uma boa ação.

Chegamos ao laboratório e fui para minha mesa verificar a papelada que Anna havia me deixado no dia anterior. Havia muito trabalho a fazer. Procurei a lista de ramais e liguei para Anna. Ela já estava lá e disse para me encontrar na sala de reuniões.

-Doutora, vindo para cá estive conversando com Cláudio e tive uma boa ideia.

-Sou toda ouvidos, Dr. Schumann.

-Bom, ele me disse que sua máquina não apresentou nenhum falso negativo. Acho que vamos precisar deste equipamento.

-Como assim, vamos precisar para quê? – ela quase pulou da cadeira.

-Bom. O meu projeto tem apresentado problemas com o tempo de análise. Sua máquina com falsos positivos. Vamos utilizar as duas máquinas e teremos uma medida correta e em menor tempo. Sua máquina escolhe as melhores amostras e a minha faz a análise.

-Você deve estar brincando. Precisamos reduzir o seu projeto mais de sessenta por cento e você ainda quer mandar o outro sensor junto?

-Exatamente. Vamos ver o que podemos fazer. Afinal a opção é enviar um sequenciador de DNA. O que está totalmente fora de questão.

Juntamos sobre a mesa os desenhos dos dois projetos e chamamos os engenheiros envolvidos.

Durante aquele dia todo, discutimos quais partes poderiam ser compartilhadas. O microscópio eletrônico era a maior peça e seria uma só para os dois projetos. Os dispositivos para recolher as amostras também.

Ficamos trabalhando duro e quando dei por mim já era noite escura. E a doutora Anna estava lá tão envolvida com o trabalho como eu.

-Nossa, nem me dei conta da hora. Doutora, não precisa ir para sua família? Seu marido deve estar preocupado. – disse descontraidamente.

-Ele não está em casa. Está na Tchetchênia neste momento. Ele é capitão do exército russo… De qualquer maneira, continuaremos isso amanhã, cansei-me.

-Não deve ser fácil ter alguém em uma guerra.

-Desculpe-me, mas não quero falar sobre isso, camarada. – ela disse e se afastou.

Pedi um táxi e fui embora acabado. Não tinha me dado conta do cansaço até chegar à minha casa para um chuveiro. Foi um bom dia de trabalho aquele. Conseguimos chegar a um projeto básico conjunto.

continua…

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