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Máquina – Parte 4

terça-feira, 14 de junho de 2011

Segue a quarta parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

Ela ainda ficou absorta alguns segundos pela imagem real de si mesma. O caos completo em sua frente não era nada parecido com a imagem fazia de si: atraente e bela.

-Venha até aqui, Ana.

Claudius estava a alguns metros próximo de uma tela de computador. Ele digitava em um velho teclado enquanto ela se aproximava.

-Veja esta imagem.

Claudius afastou-se e Ana aproximou-se da tela bem lentamente. Conforme as formas na tela se tornaram claras, ela identificou o próprio monitor que ela olhava. E dentro do monitor um novo monitor apareceu com algum atraso. E dentro dele, outro, e assim indefinidamente até não ser mais possível identificar a imagem. Movia seu ponto de vista e as imagens se moviam igualmente.

-Este terminal mostra tudo o que seus olhos veem.

-Eu percebi, Claudius.

Claudius voltou ao teclado e acionou alguns comandos.

-Olhe para a imagem e segure meu braço.

Ela não entendeu o que ele queria. Mas viu no terminal a palma de duas mãos. Assim que ela tocou o braço do professor com a ponta dos dedos, a imagem se tornou mais clara na mesma parte. Ela agarrou com força o braço de Claudius e apertou o mais forte que pode. A cor da imagem de sua mão variava entre o vermelho escuro, marrom e mesmo preto nos pontos de maior força.

-Vocês podem detectar o que eu sinto?

-O tato é só um dos sentidos que simulamos. Todos os sentidos são simulados. Este é o sinal de entrada de dados para seu cérebro.

-O paladar também? – perguntou Ana.

-Veja, sei que gosta de sorvete de chocolate. Feche os olhos.

Ela fechou e quase imediatamente após Claudius parar de teclar, um sabor inconfundível tomou conta de sua boca.

-É, incrível.

-Quer experimentar alguma outra coisa? – perguntou Claudius.

Ela olhava entretida ao teclado e imaginava quantas vezes teriam digitado ali algo para ela.

-Eu não sei. Estou muito confusa. Se sou uma máquina assim, não sou um humano.

-Não vamos buscar rótulos agora. Quero que veja tudo sobre sua verdadeira natureza e depois vamos pensar mais calmamente sobre o que você é ou não é. – Claudius aproximou-se e colocou a mão em seus ombros.

-Eu sei quem eu sou. Ana ………, filha de Eva e William.

-Exatamente – o professor respondeu com firmeza – É exatamente isso o que é. Isso, e muito mais.

Ela abaixou os olhos e ficou tentando lembrar de algo que tenha vivido que não poderia se encaixar com a história absurda que acabou de ouvir. No entanto toda sua vida se encaixava perfeitamente. O isolamento com os pais e professores, suas poucas saídas na cidade. E como as pessoas nas ruas pareciam tão diferentes das que via na televisão e lia nos livros.

-As pessoas que via em meus passeios na cidade. Elas nunca me pareceram vivas como os personagem dos livros e da tevê. Eram pessoas mesmo?

-Eram imagens tridimensionais que projetávamos para preencher as cenas externas. Não tínhamos tantas pessoas para navegar no Simulador. E não confiávamos em muita gente para o trabalho.

-Por isso eram tão sem vida?

-Como percebeu isso?

Claudius fazia uma feição curiosa diante desta nova situação. Durante anos teve a oportunidade de conversar com Ana sobre muitos assuntos e aprender cada detalhe da Máquina. No entanto, agora poderia fazer perguntas diretas, uma vez que ela já sabia quem era.

-Simplesmente eu sei. E percebi também que alguns eram muito parecidos e faziam movimentos iguais. Não poucas vezes eu senti um deja vo.

-Algumas saídas suas tiveram que ser preparadas apressadamente.

Ela continuou pensativa e uma dor profunda começou a lhe formigar no peito. Um sentimento de perda tomou conta de si. Depois ergueu os olhos marejados e disse em fúria:

-Porque me contaram isso agora? Porque não permitiram eu viver na ignorância?

Claudius deu um passo atrás. Olhou com ternura sua aluna e respondeu com a voz mais terna possível:

-Acalme-se. É evidente que teríamos que esperar todo o seu desenvolvimento para contarmos a verdade. Você agora é uma pessoa adulta, e tem todas as ferramentas para lidar com isso.

-Não acha que vai se safar com uma resposta simples assim.

Mas uma vez ele esperou um segundo antes de continuar com o mesmo tom de voz:

-Não quero te carregar com mais informações do que pode digerir. Vamos fazer o seguinte. Por enquanto vamos dar um passo de cada vez.

-Quer dizer: eu ficarei no escuro e terei que confiar em você.

Desta vez ele olhou-a novamente e desviu o olhar para o maquinário. Ela olhava-o tentando decifrá-lo, mas ele parecia entretido demais. Por fim, ele caminhou em direção a saída deu de ombros e fez sinal para que ela o seguisse.

-Ana, acho que depois do que viu neste terminal, você não tem muita escolha, não é?

E assim a quarta parte está no ar. Até quarta-feira que vem para mais um capítulo…

Ops, acabei de lembrar que não escolhi um bom sobrenome para a Máquina. Ana …… . Estou aceitando sugestões….

Máquina – Parte 3

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Segue a terceira parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

-Então… Então…

Ela não pode terminar a frase. Sua visão escureceu, uma náusea tocou conta de seu estômago e tudo se apagou.

Acordou com alguém segurando-lhe uma das mãos e sussurrando algo inteligível.

-… acorde. Ana, acorde!

Quando abriu os olhos em sua frente um rosto feminino foi-se formando da escuridão. Um rosto familiar, mas envelhecido.

-Olá querida. Você está bem?

A voz também lhe era conhecida. E o tom de voz indicava grande intimidade, embora ainda não a reconhecesse. “Este olhos verdes são tão lindos como os de minha mãe…”. Assustou-se em um arrepio e em um pulo sentou-se na cama e viu-se diante daquela que considerava morta.

-Mamãe!? O que faz aqui… você… você morreu em meus braços… você…

A mulher lhe abraçou e tentou lhe acalmar. Depois de conter os soluços, Ana, ainda com os olhos cheios de lágrimas, não entendia o olhar calmo e sorridente de sua mãe.

-Sim querida, sou eu mesmo. Desculpe pelo susto. – a mulher afagava o rosto, mas em uma repulsa Ana a afastou:

-O que aconteceu? Porque mentiu para mim? Me abandonou?

-Estava fora de meu controle minha filha. Eu fui obrigada a me afastar. Não podíamos arriscar a experiência. Eu fui contra, mas foi a única maneira que encontraram.

-Contra o que? Contra morrer?

Neste momento, Claudius interrompeu-a e retomou a palavra:

-A culpa não foi dela, ela sofreu mais que todos. O Grupo percebeu que a presença constante dos pais estava atrapalhando seu desenvolvimento. Resolveram afastá-los. Eva e William foram proibidos de contatá-la novamente no Simulador. O acidente foi programado para que você se desapegasse rapidamente. Foi um desastre, pois a saudade de seus pais acabou por forjar sua personalidade de uma forma não planejada.

-Então eles estão vivos. Meu pai…

-Seu pai infelizmente faleceu a alguns anos. Sinto muito.

Seu olhos voltaram a marejar. Um silencio constrangedor tomou conta da pequena saleta.

Eva tentou aproximar-se novamente, e não encontrou a mesma resistência.

-Eu tentei apelar ao Grupo de todas as formas possíveis, Ana. Mas depois que o programa do acidente foi executado, não tinha mais nada a fazer.

Ana ainda estava perplexa pela verdade sobre seus pais, até que se deu conta que a informação mais extraordinária ela ainda não havia discutido:

-Ok, meus pais não morreram naquele acidente. Foram tirados de mim, para que uma experiência não fracassasse. Esta experiência seria eu mesma, que não sou uma pessoa, mas uma máquina. Uma simulação de um cérebro que está ligado ao Simulador, e por isso nunca teve contado direto com a realidade, apenas com um simulacro. Isso está correto?

-Em resumo sim. – respondeu Claudius.

-E você, Claudius e o professor Luis, que foram meus professores estes últimos oito anos, são parte desta simulação?

-Nós somos pesquisadores do projeto, e fomos convocados a ensiná-la. Então nos conectamos ao Simulador sempre que nos encontramos com você. Durante o restante do dia observamos seu comportamento, para que possamos dar-lhe novos ensinamentos.

-Então é assim que vocês podiam entender quase tudo que se passava em meus pensamentos? Vocês também liam o que eu pensava? – Ana começou a indignar-se.

-Não, Ana. Isso é impossível. Seu cérebro não é muito diferente dos cérebros humanos. Os neurônios e sinapses são bilhões e bilhões, e como copiamos a complexidade do cérebro humano, repetimos sua programação, ainda não entendemos como tudo funciona exatamente. Não podemos detectar o que você está pensando. Nós apenas podíamos ver tudo o que fazia. O Simulador gera todas as imagens que você vê e também recebe todos os estímulos que seu cérebro pensa enviar a seus músculos. Estes estímulos eram reprojetados em sua auto imagem. Neste corpo que você vê. Logo seu cérebro controla este corpo e tínhamos técnicos que monitoravam isso o tempo todo.

-Mas se este não é meu corpo…

-Você é puro pensamento Ana. Não tem um corpo físico. Quer dizer, tem o seu cérebro eletrônico. Mas a terceira fase do projeto está para ter início… e depois nem isso teremos mais.

-Eu não posso acreditar.

-Não precisa acreditar. Não agora. Não sem antes lhe mostrar.

-Mostrar o que?

-O que você é de verdade, Ana. Venha comigo. – Claudius tomou-lhe a mão e lhe conduziu por um corredor vazio até parar em frente a uma enorme porta. Apertou os botões com a senha de abertura e aguardou a porta abrir lentamente.

-O que verá agora, Ana, é a sua verdadeira imagem.

Um frio na barriga tomou conta de Ana de uma forma que jamais sentiu. A cada passo, o coração batia mais forte. E ela começou a imaginar se aquele coração que pulsava era real. Se o cheiro de ferrugem e a poeira que lhe incomodava eram reais… se tudo o que viveu até ali fora uma grande mentira…

A porta abriu-se e uma escuridão quase sólida apresentou-se. Claudius tateou a parede próxima da porta e o som característico de um disjuntor acionado foi seguido de uma luz penetrante e ofuscante.

Ana demorou acostumar-se com a claridade. As pupilas foram dilatando-se lentamente e as imagem tomando forma. Diante de si viu um grande galpão totalmente tomado por uma uma montanha de equipamentos eletrônicos. Esta montanha de equipamentos estava interligado por um sem fim de cabos que de alto a baixo partiam em direção ao chão. Os olhos ao acompanharem os cabos deparam-se com o piso elevado, metálico e todo perfurado, por onde os cabos penetravam para o andar abaixo. Sob o piso era possível apenas identificar os milhares de cabos sumindo na escuridão.

Nos equipamentos eletrônicos pouco poderia se identificar. Um emaranhado de componentes, placas eletrônicas, e LEDs piscantes.

-Esta é você, Ana. Não parece nada bonita, mas é a criação mais extraordinária da humanidade.

Continua em uma semana. Não deixe de fazer seus comentários, quem sabe a trama pode mudar com sua participação?

Sobre ser uma máquina ou morrer sem saber…

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Hoje publiquei a segunda parte do livro “Máquina”, minha segunda empreitada literária. Novamente visito a ficção científica para contar um história fabulosa: quais seriam as consequências de nós conseguirmos construir uma máquina que pensasse como nós?

Máquina – Parte 1

Máquina – Parte 2

A terceira parte já está agendada para a próxima quarta-feira. Portando quem está doido para saber mais sobre a história, vai ter que esperar mais um pouco. Este artigo estou escrevendo para obter algum retorno sobre o que já está publicado.

Queria deixar uma pergunta só: Se você estivesse no lugar de Ana, a protagonista do livro, que logo de cara descobre-se máquina e não humano, preferiria permanecer na mentira ou saber toda a verdade? Porque considera mais vantagem a mentira, ou a verdade, neste caso?

Mande as respostas aqui no formulário de comentários, e participe você também desta história fantástica.

 

Máquina – Parte 2

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Segue a segunda parte de “Máquina”. Primeira parte de máquina aqui.

Claudius tomou a palavra como quem inicia um discurso:
-Minha história começa a trinta anos quando foi formado o maior grupo de cientistas, engenheiros e programadores já reunido em toda a história. Os números são fabulosos e foram tão grandiosos quanto foi o projeto Apollo no século vinte.
Um instituto internacional obscuro ofereceu salários inflacionados, ótimas condições de trabalho e o melhor: possibilidade de trabalho junto aos melhores pares.
-Logo um grupo de cérebros brilhantes começou a trabalhar. Sua meta não era ir a Lua, ou a qualquer lugar.  Todos estavam lá com um objetivo claro: como retardar indefinidamente a morte. Vencer a morte.
-Muitas ideias surgiram e vários estudos foram iniciados. Porém a lógica era simples: ninguém poderia viver para sempre. Nossos corpos são programados para morrer.
-Logo pensou-se em reprogramá-los. Mas definitivamente os resultados foram desastrosos. Mutações, canceres e outros efeitos colaterais sepultaram esta solução.
-Depois de anos de estudos, um grupo de trabalho propôs um caminho diferente. Platão foi a a inspiração para esta solução. Se nossos corpos eram fatalmente mortais nossas ideias não eram. Elas poderiam ficar. Elas poderiam ser eternas.
-Para sermos eternos deveríamos libertar nossa consciência de nossos corpos mortais.
-O projeto então tomou forma. Rapidamente a primeira fase estava sendo construída em alta velocidade.
Ana estava fascinada com as palavras de Claudius, mas quanto ele chegou neste ponto, não se conteve e o interrompeu:
-O Simulador! É isso que eles construíram?
-Exatamente. O Simulador foi o resultado dos primeiros dez anos deste projeto. Esta máquina fabulosa que está exatamente sob nossos pés.
-A proposta do Simulador – continuou – era ser uma máquina que tivesse o poder de computação e software para gerar imagens, cheiro, sabor e tato para substituir completamente os sentidos de quantas pessoas quanto fosse possível. A máquina teria interfaces com o sistema nervoso central e desligaria totalmente a pessoa da realidade colocando-a imersa em um sistema de computador. A pessoa sentiria todas as sensações geradas pelo computador com se fossem reais e interagiria com a pseudo realidade, tocando, cheirando e ouvindo os sinais elétricos gerados.
-A ficção já visitou este ideia em filmes como Matrix. – ela observou.
-Sim. A realidade virtual é tema antigo. Mas nunca foi projetado algo como O Simulador. O objetivo final sendo outro, e não a máquina em si, fez que os pesquisadores fossem além de qualquer simulação já construída. A máquina foi considerada pronta quanto a sensação da viagem conectada fosse indistinguível da realidade. Foram realizados dezenas de testes cegos pra comprovar a qualidade do resultado.
-Eu li sobre os testes. – Ana interrompeu novamente, – pessoas sedadas acordaram conectadas à máquina, enquanto um grupo de controle acordava normalmente. Depois de um tempo um questionário era aplicado e cada um dizia em que situação estava.
-Sim. Isso mesmo. E chegamos ao ponto de ninguém achar que estava na Simulação.
Os olhos cansados do velho homem brilhavam ao descrever o projeto.
-Depois deste primeiro sucesso o trabalho foi dividido em duas equipes: a primeira começou o trabalho de detalhamento do mapeamento cerebral. O objetivo era transferir as ideias e informações armazenadas em um cérebro para dentro do simulador, tornando possível desconectar as ligações da máquina com o cérebro físico.
-Meu Deus! Vocês tentaram colocar a consciência da pessoa dentro da máquina?!
-Bom. Eu não julgo isso possível. Pelo menos por enquanto. Eu não me envolvi com este grupo. Eles estão longe de atingir seu objetivo. Eu, na verdade, trabalhei na segunda equipe.
-E qual era o trabalho da segunda equipe, vocês conseguiram?
-Nosso trabalho também foi fabuloso. Nós criamos você!
-Heim??!!
Estupefata ela novamente se via no meio daquele projeto. Sem deixá-la ainda mais curiosa ele continuou:
-Nossa equipe trabalhou em um segundo Simulador. Desta vez a simulação imitaria a máquina mais fabulosa já criada pela natureza: o cérebro humano. Para funcionar esta simulação aplicamos algoritmos retirados diretamente da genética humana. Neuro programadores e engenheiros em nano tecnologia se juntaram para construir neurônios eletrônicos. Milhares de milhões de sinapses foram interligadas e estruturas inteiras como o hipotálamo, lobo frontal, temporal, etc foram replicados a perfeição. Então, mesmo antes que sinapses estivessem ativas, assim como acontece com um recém nascido de minha espécie, ligamos este cérebro eletrônico ao Simulador. E programamos o Simulador para que o Cérebro recebesse os estímulos de um bebê.
-Como é?
-É isso. E duas pessoas trabalharam dia a noite fazendo o papel de pais deste bebê. E depois dois professores trabalharam para que este Cérebro recebesse o que de melhor o intelecto humano já criou. E você está aí.
-Eu?
-Sim você é este cérebro Ana. Nós conseguimos. Você é a primeiro ser humano imortal.
Terceira parte na próxima semana. Não perde por esperar.