Segue a quarta parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.
Ela ainda ficou absorta alguns segundos pela imagem real de si mesma. O caos completo em sua frente não era nada parecido com a imagem fazia de si: atraente e bela.
-Venha até aqui, Ana.
Claudius estava a alguns metros próximo de uma tela de computador. Ele digitava em um velho teclado enquanto ela se aproximava.
-Veja esta imagem.
Claudius afastou-se e Ana aproximou-se da tela bem lentamente. Conforme as formas na tela se tornaram claras, ela identificou o próprio monitor que ela olhava. E dentro do monitor um novo monitor apareceu com algum atraso. E dentro dele, outro, e assim indefinidamente até não ser mais possível identificar a imagem. Movia seu ponto de vista e as imagens se moviam igualmente.
-Este terminal mostra tudo o que seus olhos veem.
-Eu percebi, Claudius.
Claudius voltou ao teclado e acionou alguns comandos.
-Olhe para a imagem e segure meu braço.
Ela não entendeu o que ele queria. Mas viu no terminal a palma de duas mãos. Assim que ela tocou o braço do professor com a ponta dos dedos, a imagem se tornou mais clara na mesma parte. Ela agarrou com força o braço de Claudius e apertou o mais forte que pode. A cor da imagem de sua mão variava entre o vermelho escuro, marrom e mesmo preto nos pontos de maior força.
-Vocês podem detectar o que eu sinto?
-O tato é só um dos sentidos que simulamos. Todos os sentidos são simulados. Este é o sinal de entrada de dados para seu cérebro.
-O paladar também? – perguntou Ana.
-Veja, sei que gosta de sorvete de chocolate. Feche os olhos.
Ela fechou e quase imediatamente após Claudius parar de teclar, um sabor inconfundível tomou conta de sua boca.
-É, incrível.
-Quer experimentar alguma outra coisa? – perguntou Claudius.
Ela olhava entretida ao teclado e imaginava quantas vezes teriam digitado ali algo para ela.
-Eu não sei. Estou muito confusa. Se sou uma máquina assim, não sou um humano.
-Não vamos buscar rótulos agora. Quero que veja tudo sobre sua verdadeira natureza e depois vamos pensar mais calmamente sobre o que você é ou não é. – Claudius aproximou-se e colocou a mão em seus ombros.
-Eu sei quem eu sou. Ana ………, filha de Eva e William.
-Exatamente – o professor respondeu com firmeza – É exatamente isso o que é. Isso, e muito mais.
Ela abaixou os olhos e ficou tentando lembrar de algo que tenha vivido que não poderia se encaixar com a história absurda que acabou de ouvir. No entanto toda sua vida se encaixava perfeitamente. O isolamento com os pais e professores, suas poucas saídas na cidade. E como as pessoas nas ruas pareciam tão diferentes das que via na televisão e lia nos livros.
-As pessoas que via em meus passeios na cidade. Elas nunca me pareceram vivas como os personagem dos livros e da tevê. Eram pessoas mesmo?
-Eram imagens tridimensionais que projetávamos para preencher as cenas externas. Não tínhamos tantas pessoas para navegar no Simulador. E não confiávamos em muita gente para o trabalho.
-Por isso eram tão sem vida?
-Como percebeu isso?
Claudius fazia uma feição curiosa diante desta nova situação. Durante anos teve a oportunidade de conversar com Ana sobre muitos assuntos e aprender cada detalhe da Máquina. No entanto, agora poderia fazer perguntas diretas, uma vez que ela já sabia quem era.
-Simplesmente eu sei. E percebi também que alguns eram muito parecidos e faziam movimentos iguais. Não poucas vezes eu senti um deja vo.
-Algumas saídas suas tiveram que ser preparadas apressadamente.
Ela continuou pensativa e uma dor profunda começou a lhe formigar no peito. Um sentimento de perda tomou conta de si. Depois ergueu os olhos marejados e disse em fúria:
-Porque me contaram isso agora? Porque não permitiram eu viver na ignorância?
Claudius deu um passo atrás. Olhou com ternura sua aluna e respondeu com a voz mais terna possível:
-Acalme-se. É evidente que teríamos que esperar todo o seu desenvolvimento para contarmos a verdade. Você agora é uma pessoa adulta, e tem todas as ferramentas para lidar com isso.
-Não acha que vai se safar com uma resposta simples assim.
Mas uma vez ele esperou um segundo antes de continuar com o mesmo tom de voz:
-Não quero te carregar com mais informações do que pode digerir. Vamos fazer o seguinte. Por enquanto vamos dar um passo de cada vez.
-Quer dizer: eu ficarei no escuro e terei que confiar em você.
Desta vez ele olhou-a novamente e desviu o olhar para o maquinário. Ela olhava-o tentando decifrá-lo, mas ele parecia entretido demais. Por fim, ele caminhou em direção a saída deu de ombros e fez sinal para que ela o seguisse.
-Ana, acho que depois do que viu neste terminal, você não tem muita escolha, não é?
E assim a quarta parte está no ar. Até quarta-feira que vem para mais um capítulo…
Ops, acabei de lembrar que não escolhi um bom sobrenome para a Máquina. Ana …… . Estou aceitando sugestões….

