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Máquina – Parte 8

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Segue a oitava parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte aqui.

-Temos que continuar. – Claudius com uma voz ríspida interrompeu o momento entre mãe e filha.

Carter lançou um olhar repreendendo-o e aproximou-se das duas:

-Eva, infelizmente isso é certo. Não temos muito tempo e você ficará sozinha. A não ser que…

Eva levantou o olhos rápido e segurou Carter com duas mãos:

-Tem algo que possa fazer sobre minha mãe.

Todos se entreolharam penosos.

-Não, Eva, nada sobre sua mãe e qualquer um de nós aqui. Estamos todos condenados. Mas você poderá ter companhia, se conseguirmos fazer a Fase Três funcionar.

Eva irritou-se e agitada tentou correr para fora da sala. Porém Ana segurou um de suas mãos e impediu-a.

-Filha, não temos tempo. Você precisa se controlar. Deixe a razão falar mais alto agora.

Carter continuou:

-Eva, por mais que seja duro pra você, para todos nós é ainda mais difícil. Mas não podemos parar agora. Claudius mostre a ela.

Claudius tomou a frente e chamou-a para um grande telão na parede. Teclando rapidamente a imagem mudou no telão apresentando uma pequena mancha brilhante no meio da tela preta.

-O que é isso Claudius?

-Gostaríamos que você estivesse aqui neste momento importante do projeto. Vamos iniciar a replicação do novo simulador. Esta pequena mancha são as células inorgânicas iniciais. Elas devem iniciar sua reprodução assim que liberarmos o catalizador. Isto passará a funcionar como o novo simulador.

Ana abriu bem os olhos e tentou focar o pequenino ponto brilhante.

-Meu pensamento passará a funcionar nesta nova máquina?

-Exatamente, Eva. Assim que a replicação atingir o tamanho adequado iremos transferir o processamento de seu cérebro eletrônico para o simulador.

Luis aproximou-se:

-Quer tomar as honras? Ali, aperte aquele pequeno botão na tela.

Eva aproximou-se da tela e esticou seu braço para apertar o botão. Antes encarou sua mãe, Claudius, Luis e Carter. Apertou rapidamente e um zumbido tomou conta do lugar.

Ela levou as mãos instintivamente aos ouvidos. O zumbido aumentou. No telão, rapidamente, a pequena luz aumentou rápido. Em segundos tomava metade da tela.

Claudius mantinha os olhos no telão com um sorriso no rosto. Luis com a testa franzida não escondia sua preocupação. Ana aproximava-se da filha quando ela se contorceu em dor com o zumbido que lhe rasgava a alma. O zumbido a esta hora já se transformou em um estrondo. No entanto só Eva podia ouvi-lo. Os outros repararam no que acontecia a ela, mas a replicação não era controlável. Luis foi o primeiro a reagir:

-Claudius, eu lhe disse que isso poderia acontecer… O que faremos?

A luz já tomava conta de todo o telão. E no meio da tela a intensidade da luz era cegante.

-Está tudo sobre controle Luis, deixe de medo homem.

-Você pois tudo a perder. Se o novo simulador utilizar energia demais irá destruí-la.

Neste momento a luz deu uma vacilada e piscou rapidamente. Um segundo depois um blecaute deixou tudo totalmente escuro.

Foram alguns minutos de completo silêncio e escuridão. Como se nada mais existisse.

Sem conseguir determinar o tempo que levou, Claudius ainda sonolento levantou-se, sentou-se em sua maca e e esfregava os olhos para tentar acordar. Então um vulto apareceu contra a luz e uma mão voou em um soco certeiro em seu rosto.

Claudius caiu da maca ao chão e sem esperar levou um chute nas costelas.

-Seu idiota. Eu lhe disse que isso aconteceria. Seu estúpido.

Reagindo a dor, Claudius tentou se proteger atrás da maca e com os pés tentou derrubar o oponente.

-Luis, pare com isso, você sabia dos riscos. Você sabia.

Luis ainda em fúria empurrou a maca para o lado e quando ia para cima de Claudius levou um chute que lhe fez bater a cabeça na parede e cair inconsciente.

A luz ainda estava vacilante. Claudius apoiou-se para levantar e aproximou-se para ver se Luis estava bem. Ao ver que ele estava apenas desacordado, correu pelos corredores sem pensar em mais nada.

Os corredores eram os mesmos, mas a decadência era ainda maior. Ele parou diante da grande porta da Sala de Controle.

-Espero que dê tempo…

Ao digitar a senha a porta abriu-se para ele. Não havia ninguém dentro da sala e tudo estava desligado.

Ele correu para o canto da sala onde se encontrava um painel fechado. Usou a chave que estava preso em seu cinto para abri-la e começou a ligar os disjuntores.

Primeiro acionou o principal no topo do painel. Um estalo característico seguido de eco tomou conta do lugar.

Olhou para os lados e tudo permanecia desligado.

-Vejamos. Devo começar por aqui.

Acionou novas chaves e o sistema começou a dar sinal de vida. Primeiro as luzes no alto da sala, depois um barulho baixo de ventoinhas.

Quando terminou, as telas já começavam a apresentar a carga dos sistemas.

Claudius não demorou a conseguir a imagem que queria. Em um monitor estava a mesma sala em que se encontrava. E na imagem estavam lá: Ana, Eva, Claudius e todos os outros. Estavam caídos no chão desacordados.

-A simulação, está funcionando.

Alguém aproximou-se por trás de Claudius:

-Ela está bem? Ela está bem?

Luis estava com a mão na cabeça, afagando a ferida de onde escorria um pouco de sangue.

-Estou quase lá, o sistema ainda não subiu. Desculpe-me por isso, mas achei que iria me matar.

-Se algo aconteceu a ela, eu vou matá-lo. Mas temos que ser rápidos agora.

-O simulador não parou. Está cem por cento funcional. O sistema de monitoração de Eva está carregando. Mais um minuto. Meu Deus, espero que tenhamos sorte.

-Não é questão de sorte, você sabe. Foi imprudência sua.

-Deixe de conversa. Vá verificar o novo simulador. Veja se continua replicando.

-Não acredito que ainda vai se preocupar com isso.

-Estamos todos mortos. Sem o novo simulador, ela também estará.

Luis, ainda que relutante, não poderia contestar, virou-se e começou a trabalhar. Ele teclava rapidamente e observava o telão desligado na parede. Enxugava o suor em sua testa enquanto praguejava baixinho e trincava os dentes.

-Noventa e cinco por cento. O monitoramento de Eva está quase lá.

-Aqui está, o novo simulador. – Luis terminou de dizer estas palavra e o última teclada fez seu pequeno barulho.

Uma luz insuportável tomou conta da sala. O telão apresentava uma intensidade inimaginável. Claudius levou as mãos aos olhos e Luis rapidamente, com os olhos fechados, acionou o teclado para que o telão desligasse.

Em outra pequena tela alguns números não deixavam dúvida:

-O novo simulador está em perfeito funcionamento e crescendo a uma taxa acima do esperado.

-Ótimo. Agora, Eva.

Claudius continuou digitando e finalmente a tela em sua frente começou a apresentar a interface padrão de monitoramento de Eva. Luis aproximou-se e observava a tela por sobre os ombros.

-Aqui. Funções vitais. Carregando.

-Ande logo – Luis estava totalmente descontrolado.

-Pronto. Veja, veja.

-Ela está bem!

-Mas está desacordada. Vamos ter que passar a rotina inteira de checagem. Isso vai levar algum tempo. Veja o que o log de informações diz sobre o evento.

Luis voltou ao teclado e começou a procurar o horário exato do blecaute.

-Aqui diz que houve uma instabilidade no fornecimento de energia. Uma sobrecarga. O sistema automaticamente desligou os equipamentos menos prioritários, enquanto os geradores reservas não estivessem ligados.

-Quais subsistemas foram desligados Luis?

-As interfaces. Primeiro a nossa interface com o simulador. Por isso acordamos da simulação. Mas ainda não foi suficiente.

-O que mais?

-Foi desligado a interface do simulador com Eva. E as simulações de pessoas também foram desligadas.

-Ana?

-Todos. Todos foram desligados.

-Onde está Carter? Vamos precisar dele. Quando ela voltar vamos precisar dele para explicar porque sua mãe sumiu de novo.

-Não é possível a gente reativá-la?

-Luis, você me irrita! Sem a reserva de energia que tínhamos fica impossível acionar uma nova simulação de personalidade. E levaria anos para que estivesse no ponto que ela estava.

-Vamos ter problemas com isso, Claudius. Vou ver se Carter está bem. Quanto tempo para a rotina de teste terminar?

-Dez minutos. Vai vê-lo, vou aproveitar para chegar os sistemas de energia. O novo simulador continua crescendo rápido, logo teremos novos problemas.

Luis saiu da sala de controle e seguiu de volta pelo corredor.

Era quase imperceptível a diferença da realidade que estava e a simulação de alguns minutos atrás. Talvez a única coisa que notava é sua miopia que lhe atrapalhava agora. Pensou em como era fácil corrigir uma falha de visão em um sistema simulado.

Entrou na saleta e amaca estava ainda jogada no chão. E foi até o canto na maca de Carter.

Ele parecia dormir. Seus cabelos grisalhos, e rosto enrugado não deixavam dúvidas sobre sua idade. Deveria ter mais de oitenta anos. As mãos cheias de manchas e a grande aliança dourada em seu dedo lhe chamou a atenção.

-Acorde velhinho, acorde.

Carter remexeu-se e num gemido acordou.

-O que aconteceu?

-Um blecaute desligou alguns sistemas. Aparentemente Eva está bem. Vamos até a sala de controle. Quer que lhe ajude?

-Peque a minha cadeira ali para mim, Luis.

Luis puxou a cadeira de roda para perto da maca e ajudou o velho homem a sentar.

-Deixe-me. – disse empurrando. Carter afastou-se rapidamente e tomou a frente deslizando a cadeira pelo assoalho.

“Pobre Carter”, pensou Luis. “Está preso a esta cadeira a tanto tempo… não o culpo por não querer sair do simulador”.

Quando Luis chegou a sala de comando, Claudius estava sobre a mesa calculando e anotando em uma folha grande.

-Segundo meus cálculos a taxa de crescimento do novo simulador está estabilizando no nível planejado. Houve um crescimento mais acelerado no início, mas agora está bem.

Luis um pouco mais aliviado não deixou de repreender o outro doutor:

-Culpa sua. Eu lhe disse que este tipo de replicação é imprevisível. Como está ela, o teste já terminou?

-Ela está bem. No momento seu cérebro entrou em modo emergência e ela ficará inconsciente por algum tempo.

-Ela está em coma, Claudius. – Carter replicou com uma voz rouca – Você sabe que o cérebro dela imita um humano em todos os detalhes. Ela entrou em coma para proteger o funcionamento de sua mente.

Luis voltou a franzir a testa:

-Ela voltará a tempo?

-”Ela voltará?”, seria uma pergunta mais adequada. – Claudius respondeu.

-O que faremos? – retrucou Luis.

Os três senhores se entreolharam, esperando que algum deles tivesse uma solução para o problema.

Até que Claudius insistiu:

-Vamos prosseguir com o programado. E rezar para que ela volte a tempo.

Sem ter mais o que fazer ali, os três voltaram para as macas na outra sala e deitaram-se.

-Todos prontos. Computador: acionar o sistema de interface.

-Sistema acionado – uma voz metálica respondeu.

Ao lado das macas um sistema automático ativou uma agulha para cada um e em segundos eles estava desacordados e sedados.

Quando Claudius abriu novamente os olhos estava de volta a sala de controle. Carter e Luis já estavam de pé no instante seguinte.

-Temos que agir rápido. Se ela voltar do coma e ver sua mãe assim vai surtar.

-Claudius, ela vai surtar de qualquer maneira. – Luis retrucou.

-Não se eu puder evitar. – Carter por fim respondeu. E sem gastar um minuto pegou nos pés de Ana enquanto Luis pegava pelas mãos. -Vamos levar os corpos para a enfermaria. Eu vou pensar em algo até lá.

Carter carregou fácil os corpos junto com Luis e Claudius. Levaram pouco mais de uma hora para levar os vinte corpos da saleta. Luis ainda insistia:

-Não poderíamos apenas sumir com eles?

-Não temos tempo para programar o sumiço no simulador e nem energia para executar o programa. Não é tão mal, aqui pelo menos Carter pode andar e nos ajudar a fazer o trabalho pesado.

-Eu ouvi isso Claudius. Melhor tomar cuidado com o que diz. Ainda mais que teremos que explicar ao financiador esta bagunça toda.

-O financiador tem motivos pra crer que tudo está sobre controle.

-Se ela acordar sim. Mas se ela ficar mais tempo assim o projeto estará perdido.

Quando os três chegaram na sala de controle, Eva estava sentada lendo o resultado do teste na tela do computador. O teste tinha acabado de ser executado.

Luis deu-lhe um sorriso enorme. Eva, ainda confusa, parecia querer encontrar os outros que estavam a pouco na sala.

E mais um capítulo está disponível. Ainda temos muita estória pela frente. Será que o acidente comprometeu o funcionamento de Eva? Logo saberemos…

Máquina – Parte 7

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Segue a sétima parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

Ela observava todos os grandes monitores, onde imagens de gráficos, sinais elétricos e listas intermináveis rolavam e mudavam constantemente. Pelo menos umas vinte pessoas estavam naquela sala, cada um em sua posição. A sala era muito ampla, o pé direito alto lhe chamou a atenção e os olhos rapidamente viram no outro lado da sala perto do teto uma estrutura suspensa envidraçada onde duas pessoas observavam tudo o que acontecia. Uns trinta metros a separavam de lá, mas podia ver outro possível médico com seu jaleco branco e um homem alto vestido elegantemente. Os olhos deste estavam escondidos atrás de óculos escuros.

-Quem é ele?

-Ele é o financiador disto tudo. Não sabemos nada sobre ele. Só que o dinheiro vem de lá. Nós não perguntamos muito sobre isso, afinal ele deu liberdade total aos pesquisadores.

-Claudius, você confia nele?

-Ninguém aqui jamais falou com ele. Então não sabemos. O que interessa é que o projeto continua firme. Graças a ele. Mas mudando de assunto. O que já sabe sobre a fase três?

-Você citou o fato que eu não terei mais um cérebro eletrônico…

-Exatamente e…

-E eu deduzi que vocês vão simular o meu cérebro dentro do Simulador.

-Muito bem. Você é mesmo extraordinária. É isso mesmo. Nós queremos lhe deixar livre das amarras do cérebro eletrônico que criamos para você.

-Só não entendi a necessidade disso.

Luis tomou a palavra:

-Olá, Eva. É bom revê-la.

Ele também aparentava estar muito mais velho do que a última vez que o viu. Ana pensou sobre como passou tantos anos conversando com ele e aprendendo sobre neurologia, genética, nanotecnologias, inteligência artificial, e tantas áreas do conhecimento.

-Lembra-se de nossas aulas de replicação eletrônica?

-Como é? – Eva não lembrou-se.

-Dispositivos eletrônicos replicantes: se reproduzem para criar grandes máquinas e para corrigir defeitos em alguns dos dispositivos.

-Sim, agora sim. O meu cérebro foi construído assim?

-Em parte. Porém as estruturas foram copiadas do DNA humano e por isso possuem as mesmas características. Algumas células não são substituíveis. Por exemplo, em nós humanos um rompimento da coluna vertebral não é naturalmente recuperável.

-O que isso quer dizer?

-Eva. Apesar de você ser uma máquina, alguns de seus neurônios eletrônicos e suas sinapses se forem desligados te destruiriam completamente.

-Então eu morreria?

-Digamos que sim. – Luis foi interrompido por Claudius:

-Nem todos concordamos com isso. Eu não concordo. Seria necessário uma falha catastrófica para você parar de funcionar.

-Claudius, não vamos recomeçar esta discussão, certo? Já chegamos a um consenso sobre o que fazer, isso é o que importa…

-Tem razão Luis. Embora as consequências de não fazermos nada não sejam um consenso.

O clima ficou tenso e só foi quebrado quando Carter apaziguou-os:

-Assim vocês vão deixar Eva insegura. Veja só Eva, é assim: você como é hoje pode morrer exatamente como qualquer um de nós. Talvez por uma falha simples, talvez por uma falha catastrófica. Temos certeza, por exemplo, que uma falha na energia que alimenta seu cérebro eletrônico é uma situação sem volta.

-Isso não me assusta. – Eva ponderou – É melhor do que imaginar que poderia morrer por muito menos…

Claudius continuou então:

-Pois é. O que queremos fazer aqui nem é garantir que você possa viver para sempre. Mesmo que isso possa acontecer por consequência. O que queremos é garantir que seu legado possa existir para sempre.

-Não entendo…. – Eva retrucou.

Luis continuou:

-Queremos garantir que você possa se reproduzir. Criar mais entidades como você. Relacionar-se com estas entidades. Garantir que um traço da espécie humana viva em você e em outros como você.

Claudius completou:

-Queremos que você viva por nós. Porque nosso tempo está por um fio.

-O nosso tempo está por um fio? – Eva perguntou.

Claudius tinha um olhar triste e respondeu:

-O seu tempo não, Eva. O tempo da humanidade. Estamos acabando. Morreremos todos em pouco tempo.

-Como pode ser isso?

-Estamos todos contaminados por um novo vírus muito resistente. Todos se tornaram estéreis. Não nasce uma criança a dois anos. É questão de tempo até todos morrerem. Os cientistas estão trabalhando para uma cura. Porém parece impossível.

-O que é este vírus? O que aconteceu? – Eva ficou atordoada.

Todos ficaram sérios e cabisbaixos. Ninguém costumava mais falar sobre o assunto. E ouvir aquilo novamente colocava todos diante do precipício.

-Veja só, o vírus começa atacando diretamente o sistema reprodutor humano. Destrói as células reprodutoras presentes, e o sistema de produção destas células. O processo é muito rápido, em poucas horas uma pessoa fica estéril. O vírus se propaga de diversas formas: ar, água, insetos. E sobrevive fora do ser humano por tempo indeterminado. Depois de incubado, o vírus provoca outro efeito: acelera o envelhecimento. Dependendo da condição de uma pessoa, o vírus pode matar em poucos meses.

Eva novamente se viu diante de algo impensável.

-Eu não sei o que pensar.

-Nós não tempo tempo para lamentações. Precisamos garantir que você mantenha a centelha humana. – Claudius retrucou.

-Mas eu sou uma máquina. Não foi isso que vocês disseram?

-Você é o mais próximo que temos de um humano que irá sobreviver. Todos aqui estão trabalhando para garantir que isso aconteça.

Novamente uma dor cortou seu coração. Ela não sabia como reagir a esta novidade. Cambaleando quase caiu. Ana aproximou-se de sua filha e a abraçou. Eva afundou-se em seu ombro e chorou.

Por longos minutos o silêncio tomou conta da sala. Até que Eva percebeu que a mãe em pouco tempo não estaria mais ali:

-Mamãe, você… você vai me deixar de novo?

Enfim ela entendeu que ficaria sozinha. Desta vem nem os professores, nem ninguém estaria com ela. As lágrimas rolavam na face de Eva. Ela não viu mas também Ana chorou.

Com este capítulo a primeira parte do livro está encerrado. Apresentei os principais personagens pelo menos de relance, e agora a ação vai realmente começar.

Eva está diante da Terceira fase do projeto e terá um desafio complicado pela frente.

Máquina – Parte 6

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Segue a sexta parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

Eva levantou-se assim que luz do Sol tocou a janela e se arrastou para uma chuveirada. Nada parecia diferente. Por alguns minutos foi como se nada tivesse mudado.

Porém ao sentir a água quente em sua pele e ver o vapor embaçar o box, voltou a pensar sobre sua nova condição. E o estranhamento de cada coisa ao redor retornou. Olhava seu corpo despido e imediatamente lembrou-se que era vigiada o tempo todo. “Viam tudo que ela via”, pensou. E forçou-se olhar para outro lado enquanto saia para se cobrir.

Ao mesmo tempo que sua razão achava este cuidado ridículo, um instinto de preservação disparava em sua cabeça. E ela não conseguia resistir ao instinto.

Arrumou-se, comeu algo que deixaram no quarto e sentou-se em um poltrona aguardando ser chamada. Estava tão cansada que dormiu ali mesmo.

Desta vez o sono foi tranquilo. Não houve pesadelos.

-Olá Eva, bom dia…

Carter acordou-a com um sorriso.

-Bom dia, doutor. Quanto tempo dormi aqui?

-Pode me chamar de Carter, Eva. Está dormindo… – continuou olhando o relógio – … a meia hora. Acredito que é o suficiente não é?

-Sim, Carter. Estou ótima agora.

-Vamos, temos muito por fazer hoje. Primeiro para minha sala.

Seguiram pelo corredor até uma pequena sala com um divã e um poltrona. Carter sentou-se e indicou para que ela ficasse a vontade. Eva olhou o divã e, sem pensar muito, deitou-se.

-Como isso funciona? Eu devo contar sobre minha infância? – ela disse divertindo-se.

-Isso vai ser um pouco diferente. Veja que temos todas as informações sobre sua vida. Foi uma leitura dura. Me enviaram milhares de páginas sobre sua história e sobre suas reações a cada fato vivido. Isso vai adiantar um pouco o que vamos fazer aqui. Na verdade eu tenho algumas perguntas específicas.

-Pois não.

-A primeira questão é sobre sua infância realmente. Nós sabemos que o fator determinante de sua personalidade foi a perda de seus pais. Gostaria que falasse um pouco sobre como se sentiu, e o que mudou em você aquela experiência.

-Como me senti sobre aquela farsa? – respondeu quase gritando.

-Por favor, Eva, sei que está se sentindo traída agora. Porém tente se ater aos sentimentos no momento da perda, não nesta revolta atual.

Os olhos dela transpareceram o ódio por ter sido enganada por tantos anos. Porém Eva fez o que pode para se controlar. Depois de respirar fundo continuou:

-Está bem. Está bem. O acidente, aquilo me destruiu. Senti como se tudo mais não fizesse sentido. Eu era adolescente ainda. E minha cabeça já estava bagunçada demais. Sinto que a dor foi tanta que amadureci mais rápido do que devia.

-Após o ocorrido você se fechou como uma ostra…

-Sim. Fiquei com um medo enorme de me envolver de novo. Não consegui me apegar a mais ninguém. Não que eu tenha tido oportunidade não é?

-Seus professores, Luis e Claudius. Como foi quando eles apareceram?

-Logo que meus pais morreram, eles foram ao enterro e me levaram para o orfanato. Eu sempre achei estranhíssimo ser a única em um orfanato como aquele.

-Li que não foi possível simular ou colocar crianças no simulador para interagir com você. Infelizmente isso deve ser uma lacuna no seu crescimento e seu aprendizado de interação social. Mas, fale mais dos professores…

-Eles sempre foram muito atenciosos. E devo quase tudo que sei aos dois. E aos livros que eles me traziam. Adorava os livros. E ainda adoro, ler é algo fabuloso, é como se pudesse viver outras vidas.

-Você nunca se importou muito com os seus professores, não é?

-Não me deixei envolver. Não novamente. Meu coração estava quebrado. Ainda está. Só que agora estou confusa. Minha mãe está aqui. Ela não é minha mãe, eu não sou o que pensava. Era tão simples quando o que tinha que fazer era me fechar em meus livros.

-Isso é um ponto a trabalhar, Eva. Você precisa se abrir mais. Precisamos que você reaprenda a relacionar de verdade com outras pessoas. Você foi capaz disso. A interação que tinha com sua mãe é prova disso. Apesar de você ser uma máquina…

E Carter interrompeu a frase percebendo sua gafe. Depois de uma pausa tentou consertar:

-… você tem sentimentos como uma pessoa.

-Uma maquina não é? – disse Eva. – Olha pra mim Carter. Olhe meus olhos e veja. Vê minha dor? Vê como me sinto. Eu nunca consigo esconder o que sinto. Claudius repetia isso sempre. E quando me olho no espelho é assim: transparente. Veja em meus olhos a dor que sinto, Carter…

Ele olhou e viu exatamente o que ela dizia. Mesmo depois de tudo o que tinha visto, encarar aqueles grandes olhos era assustador. Em qualquer outra circunstância ele não duvidaria sobre os sentimentos dela. Na verdade, ele não duvidava. Embora sua razão dissesse o contrário, todo o resto dizia a ele que estava diante de um ser humano, de uma mulher…

Ele balançou a cabeça como quem quer jogar as ideias fora. Olhou a caderneta de anotações e ticou algo que estava lá.

-Bom, então esta será uma de suas tarefas: deverá retomar seu contato com sua mãe. E não deverá fazer ressalvas. Entregue-se. Deixe o sentimento voltar a viver dentro de você. Lembre-se que ela lhe ama, sentiu profundamente sua falta estes anos todos.

-Ela me abandonou. O que espera que sinta por ela?

-Não é verdade. Ela foi expulsa deste lugar. Nunca mais pode entrar no simulador. Ela sofreu muito. Talvez mais que você. Imagina o que é não conviver com quem se ama, apesar de podê-lo? Você, por outro lado, teve que aceitar o inevitável. Aposto que depois de um tempo a dor diminuiu.

-Claro que sim. Você tem razão. Uma cicatriz se formou e a dor chegou a um ponto suportável.

-Pois a dor de Ana nunca diminuiu. Ela sempre tinha esperança de que fosse retornar a vê-la. Ao mesmo tempo que nada poderia fazer. Ela sempre lhe considerou sua filha, sabia?

-Mesmo conhecendo o que eu era?

-Na simulação, no primeiro instante ela lhe tomou nos braços e olhou para você. Um sorriso dela foi o suficiente. Ela a recebeu como sua.

Eva sorriu diante daquele relato e deixou-se cair no divã.

-Está certo. Farei o que puder sobre ela.

-Que bom, Eva. Fico contente que tenha aceito esta atribuição. Teremos que trabalhar também sua falta de jeito com crianças. Nunca teve uma nos braços não é?

-O que está pensando? Vou ter um bebê, Carter?

-Não é bem isso. Você vai começar a se relacionar com todo tipo de pessoas. E isso incluí bebês. É bom que esteja preparada. Ainda estou divergindo da equipe sobre este ponto. Eles não acham necessário. Eu acho imprescindível.

-O que eu deverei fazer? Vou ser treinada para babá?

-Primeiro vou deixar alguns livros para você ler, além de alguns filmes. Eles vão ajudar a você entender o comportamento de crianças.

Naquele instante um despertador tocou. E ele levantou rápido:

-Terminou nosso tempo hoje.

-Rápido assim? Pensei que ficaríamos aqui pelo menos uma hora.

-Que bom que gostou. Amanhã teremos uma nova consulta e poderemos conversar como está a reaproximação com sua mãe. Você terá um tempo hoje para passar com ela. Aliás ela está lhe esperando.

Ana entrou na saleta e sorriu para a filha com toda a ternura de uma mãe. Embora Eva ainda não estivesse confortável com aquilo tentou retribuir.

-Venha comigo filha, quero que conheça mais sobre a terceira fase do projeto.

Elas seguiram até uma porta ampla, quando Ana fez um sinal para que parassem.

-Aqui é a sala de controle de todo o projeto. Você poderá saber tudo o que quiser sobre a fase três e sobre que lhe espera agora.

-Vai ser perigoso para mim?

-Eu não deixarei nada de mal lhe acontecer, querida. Lembre-se, eu estou aqui. – E Ana afagou os cabelos longos de Eva.

Ao entrarem na sala de controle, muitos rostos desconhecidos imediatamente pararam o que estavam fazendo e se viraram para observá-la. Eva olhou um a um, e reconheceu Luis sério e Claudius sorrindo. Claudius aproximou-se:

-Seja bem vinda, Eva. Este é sistema de controle principal do projeto Gênesis.

Ainda esperando as opiniões de vocês. Diga olá ao menos, para eu identificar quem está lendo até aqui!

Máquina – Parte 5

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Segue a quinta parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

Para quem está seguindo pelo blog: decidi mudar o nome da máquina, será Eva. Então a partir daqui troquem o nome da máquina de Ana para Eva, ok?

Claudius conduziu Eva ao seu alojamento. O rosto cansado da jovem e seu olhar perplexo era perceptível.

-Amanhã iniciaremos os primeiros testes para a fase seguinte do projeto. -Claudius disse e fechou a porta do quarto atrás de si.

Eva ficou alguns minutos olhando para a porta fechada com o cérebro a mil. Seria tudo aquilo verdade? A porta a sua frente não existe?

-Eu sou uma máquina?

E deixou-se cair sentada na cama sentindo o lençol quente sob si. Estes lençóis que também não deveriam existir de qualquer maneira. Exausta e sem forças para continuar remoendo aquelas novidades, Eva por fim caiu no sono. Um sono intranquilo.

Estava ela sentada no topo de um edifício contemplando a grandeza da cidade, com suas luzes e amaranhados de prédios. O céu estava cheio de nuvens escuras e maus preságios. Sua mente estava límpida e clara. Sentia a brisa leve e fria roçando seus cabelos e seu rosto. Um arrepio foi a primeira reação. Eva ergueu as mãos e fechou os olhos para sentir o fluxo de ar deslizando em seus dedos, escorrendo em seus braços. De súbito, em um rápido movimento com as pernas, ainda com os olhos fechados, ela se lançou ao vazio. A velocidade da queda aumentava a cada fração de segundo. Mantendo os olhos fechados Eva aguardava o baque no asfalto e o o fim de tudo. No entanto a queda não terminava. Abriu o olhos e se viu em uma escuridão impenetrável em todas as direções, e em uma queda sem fim. De sua garganta tentou emitir em um grito todo seu desespero, porém nada saiu…

Abriu os olhos sobressaltada e levantou-se rápido. Estava ainda em seu pequeno quarto.

A porta abriu-se assustando-a. Alguém estava à porta:

-Você está bem? O que aconteceu?

Ela então percebeu que o grito fora real, e chamou a atenção de alguém mais. Observou o jovem senhor que aparentava seus trinta a quarenta anos, mas tinha um ar muito jovial. Suas roupas brancas o identificavam como um médico. Antes que ela pudesse responder ele pegou uma de suas mãos enquanto tentava medir algo em seus olhos. A outra mão tocava-lhe o rosto, como que posicionando os olhos de determinada maneira.

-Você está bem? – ele repetiu.

Eva o afastou com cuidado para não parecer rude:

-Estou bem. Mas, … quem é você?

Ele se aprumou e com certa cerimônia apresentou-se:

-Eu sou Doutor John Carter e sou seu novo analista. – e mudando a postura quase automaticamente, franzindo a testa continuou: – Você deu um grito assustador agora a pouco. Era um pesadelo?

-Sim, um pesadelo.

-Nós temos nossa primeira consulta marcada amanhã pela manhã. Mas, se quiser conversar agora, estou disponível.

-Como assim, nem sei que horas são. E, que estranho, o que você faz acordado a esta hora?

-Já deve saber que temos turnos para acompanhá-la. E este é meu horário. Agora que já sabe o que você é, vamos lidar com isso de outra forma. Sempre que precisar temos alguém de plantão dia e noite. Além do mais, eu não consegui dormir ainda conectado.

-Não entendi…

-Bom, nós estamos agora no Simulador, e como ainda não me acostumei com isso, não consigo dormir.

-Você fica ligado direto ao Simulador? Dia e noite?

-Pois é. Quem está a mais anos no projeto já acostumou-se com o processo de conexão e desconexão. Nós que chegamos agora… É algo terrível, parece que tentavam arrancar minha cabeça!

-Tem mais pessoas que chegaram agora?

-Sim. Fomos recrutados para a fase três.

Eva olhou-o novamente e percebeu uma certa agitação no doutor.

-A fase em que vão me tornar totalmente software?

Desta vez foi Carter que não respondeu imediatamente. Pelo seu olhar não pensava que ela já saberia disso. Ele suspirou e perguntou:

-Você não está com medo?

-Eu deveria estar?

-Se fossem mexer tão a fundo na minha cabeça, bom, eu estaria petrificado. Eu mesmo estou com medo. Se algo der errado será desastr…

Enquanto ainda falava entrou no quarto Claudius com os olhos irados:

-O que faz aqui Carter? Não foi instruído sobre o protocolo?

Doutor Carter pareceu murchar. Constrangidíssmo e gaguejando respondeu e saiu a seguir:

-Desculpe-me, já estou indo. É que ela teve um pesadelo… e eu…

-Ela tem pesadelos todos os dias desde sempre, – Claudius retrucou.

Eva nunca o vira tão transtornado.

-Ele só estava tentando me ajudar. Deixe-o em paz.

Carter já estava longe e Claudius teve que esforçar-se por alguns minutos até acalmar-se.

-Desculpe menina. É que as coisas aqui estão estressantes. Não podemos falhar por causa da curiosidade de um novato.

-Carter não pareceu-me assim tão novato.

-Ele chegou aqui ontem. Ainda está com a ressaca da conexão. Amanhã terá sua consulta com você e ele poderá matar sua curiosidade.

-Ele não estava curioso. Na verdade eu é que fiquei, após as coisas que ele disse.

-É por isso que ele não deveria estar aqui. Temos muito o que esclarecer, e pouco tempo. E você tem que descansar. Amanhã é um dia duro e você não pode estar sonolenta.

-A fase três do projeto começa amanhã?

-A fase três já começou, menina. Estamos trabalhando nela a anos. Amanhã você verá.

-Não consigo dormir. Não tem nada que possam fazer a respeito?

-Lembre-se das aulas de relaxamento. Quem sabe isso ajuda. Vá dormir.

-Está certo.

Ela fez um olhar contrariado e tentou ainda mais uma pergunta:

-Claudius, algo pode dar errado?

-Agora chega, Eva. Vá dormir.

Resignada ela deitou-se novamente e tentou afastar os pensamentos e controlar o coração e a respiração, conforme a aula de relaxamento recomendava.

Claudius afastou-se pelo corredor, parando diante da porta onde estava Carter. Ao abrir Carter o esperava. Estava sorrindo e descontraído:

-Então Claudius? Como me saí?

-Acho que ganhará a confiança dela. A história de estar com medo foi perfeita.

-Será que esta aparência que me arrumaram é a mais adequada? Ela é lindíssima e deve querer alguém mais apessoado…

-Pare com isso, Carter. Já disse que o ideal é ser assim, um tanto normal, frágil. Isso ajuda a identificar-se com você. E tem mais, ela não teve contato com muitas pessoas, então isso facilita muito. Ela já demonstrou que sabe o que pretendemos fazer?

-Ela entendeu parte da ideia. Mas ainda não toda.

- Perfeito. Amanhã daremos início ao processo.

Eva continuou a noite toda sem pregar o olho. Preferia o cansaço a novos pesadelos.

Ainda não decidi o sobrenome de Ana, digo Eva. Gostaria de receber sugestões. Fiquem a vontade. Aliás, mandem suas idéias nos comentários. A participação de vocês é bem vinda e desejável.