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Máquina – Parte 15

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Depois de quase dois anos sem publicar novos capítulos, segue o primeiro capítulo do livro “Máquina” escrito depois de minha titulação de mestrado. Estou agora pronto para dar prosseguimento à história. Espero que gostem. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte de Máquina aqui.

Eva, Luis, Claudius e mesmo Carter, permaneceram com os olhares distantes e o pensamento incontroláveis por muitos minutos, tentando digerir estas novas informações. Luis tomou a iniciativa:

-Se não existe a doença, temos mais tempo!

-Tempo para que – retrucou Eva – ainda pensa em continuar com esta aberração?

-O que podemos fazer? Isso é irreversível! Vamos abandoná-la também?

-Pare de se importar comigo… é minha culpa! Além de ser esta aberração… ainda sou responsável por destruir o mundo…

Luis nem conseguiu responder… abaixou os olhos, inconsolável. Claudius levantou e começou a tomar a situação para si.

-Temos que pensar. Não adianta nos lamentar agora. Carter, vamos continuar com os planos.

-O que ele nos fez fazer? – Carter ainda estava em choque. Claudius insistiu:

-Carter, leve Eva para descansar. Vou acompanhar com Luis aqui, vou tentar obter informações externas. Controlem-se.

Carter, resignado, levou Eva praticamente arrastada até seu quarto. Ela manteve um olhar distante com a mente turva pelos acontecimento e suas consequências. Os dois seguiram sem trocar uma palavra.

Claudius continuou na sala de controle com Luis. Este completamente sem ação olhava vidrado o globo no telão com sua grande mancha negra. Claudius, pensando alto começou a organizar sua mente para o que viria a seguir.

-Não podemos nos deixar abalar agora. Mais que nunca a humanidade depende de nós. Veja, a taxa de crescimento do novo simulador está aumentando… – Luis nem deu ouvidos ao velho amigo, ainda descontrolado – Não há como reverter o processo. O que acha que devemos fazer agora?

Luis permaneceu por mais um tempo quieto assombrado. Então deu um pulo, quase derrubando a cadeira onde estava sentado.

-Claudius, eles vão revidar!! Temos que proteger o laboratório!

-Eles, quem? – respondeu, Claudius sem entender.

-Depois, sou eu quem sou o ingênuo aqui: você acha que os americanos, russos, ou qualquer um lá fora, detectando uma massa disforme, crescendo rápido e vindo em na direção de seu país, vai ficar parado esperando?

-Tem razão, não tinha pensado nisso.

-Eles vão revidar, talvez com armas nucleares. – Luis sentiu uma arrepio antes mesmo de terminar a frase. Os dois cientistas ficaram por vários segundos quietos com o cérebro formulando hipóteses e procurando soluções.

Claudius quebrou o silêncio externando o que encontrou de mais plausível:

-Vão enviar armas nucleares diretamente pra cá. Assim que determinarem o tamanho do estrago por onde a massa já cresceu e o local de origem da massa, deverão ativar as armas. Nós não temos muito tempo.

-Diria que temos alguns minutos apenas. – respondeu Luis – Nenhum de nós é especialista em lançamento de armas atômicas, mas o pior cenário é que as ogivas já estão viajando para cá, agora mesmo.

Os dois silenciam novamente tentando prever as consequências. Luis continua seu raciocínio:

-O novo Simulador tem uma grande redundância interna. Uma bomba exatamente aqui não iria causar perdas significativas no funcionamento nem do Simulador, nem da Eva.

-Minha preocupação é conosco. Nós estamos ligados ao Simulador na sala de conexão. Se a explosão destruir a sala, ou os equipamentos que nos mantém vivos lá…

-A sala fica no vigésimo pavimento negativo, Claudius. E ainda temos uma camada enorme de neurônios eletrônicos sobre nós antes da área útil começar.

Luis mal formulou a ideia, começou a calcular quantos metros de neurônios eletrônicos os separava da superfície. Quando o computador deu a resposta, o suspiro de alívio indicou que a resposta foi positiva.

-Temos centenas de metros de neurônios sobre nós, além dos 20 pavimentos. Acredito que estamos tranquilos. E mesmo se não estivéssemos seguros, não temos nada a fazer a respeito.

Claudius continuou pensando. Até que seu lado prático tomou conta novamente:

-Vamos avisar Carter e Eva. Temos que estar preparados.

Os dois saíram da sala de controle até a quarto de Eva. Chegando lá encontraram ela e Cartes sentados quietos e inexpressivos.

-Temos um novo problema a enfrentar – falou Claudius, enquanto Eva e Carter olharam intrigados. – Chegamos a conclusão que seremos atacados por armas nucleares a qualquer momento. Acreditamos que estamos seguros aqui em baixo, mas você precisa saber Eva: todos nós corremos de morrer no impacto, e você ficar sozinha por aqui.

-A chance disso acontecer é grande? – respondeu Eva um tanto aflita.

-Não creio – emendou Claudius – estamos a centenas de metros abaixo da superfície.

Eva se sentiu tão cansada como nunca se sentiu antes. Toda aquela quantidade de informações e explosões de sentimentos a deixou exausta.

-Preciso descansar, existe algo que posso fazer sobre isso.

Luis fez um olhar questionando os outros cientistas e respondeu:

-Você precisa ter acesso a toda a informação sobre o projeto. Se nós não estivermos aqui, você deve continuar de onde paramos.

-Existe algo mais que ainda não sei?

Claudius e Carter fizeram sinal para que Luis continue:

-Vou liberar o nível de acesso completo aos dados para você. Sugiro que você o acesse somente se necessário. Tem alguns detalhes muito aflitivos. E alguns segredos ainda guardados. Estes detalhes poderão lhe causar muitos sofrimentos desnecessários.

Luis disse tudo isso com os olhos baixos. Eva tocou de leve e ergueu o rosto de Luis o fazendo olhar bem dentro dos seus olhos:

-Se eu souber sobre estes segredos, vou me decepcionar com você?

Luis fixou seus olhos nos de Eva e sentiu um turbilhão crescendo dentro de si, instintivamente se afastou e respondeu evasivo:

-Não sou eu quem tem contas a acertar com você…

-E quem é que tem então? – Eva o desafiou.

Claudius levantou-se imediatamente e termina o assunto tão rápido como começou:

-Não faz diferença agora. Vamos todos descansar e esperar os acontecimentos.

-Então é você, Claudius? – Eva disse.

-Vamos descansar.

Claudius saiu pela porta praticamente arrastando Luis e Carter para fora.

Eva permaneceu com seu pensamento sobre a destruição da humanidade, sua culpa e como poderia ficar sozinha no mundo em alguns poucos momentos. Só então lembrou-se de Seth e como jamais estaria só novamente. Um sentimento diferente de tudo que já sentiu tomou conta de si e a fez sorrir por alguns segundos, enquanto o sono vinha e ela não conseguia pensar em outra coisa a não ser em como seria sua filha.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

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O livro é muito bom. Além da história envolvente e dos constantes dramas de relacionamentos entre os personagens, destaco os detalhes que envolvem o processo de lançamento de cápsulas espaciais: o processo go-no-go, os comandos e instruções entre o centro espacial e a cápsula (inclusive o negative return, rs…), tudo isso transmite veracidade gerando maior envolvimento com a história. Como eu sou um fã das coisas relacionadas ao espaço a minha avaliação torna-se um tanto quanto suspeita. Mas deixo aqui minha indicação positiva sobre o livro do autor Luis Eduardo Lima. Belo trabalho.

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Máquina – Parte 14

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Segue a décima quarta parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte de Máquina aqui.
Não leia este capítulo sem ser os outros capítulos todos do livro. É tão cheio de spoilers que estragaria a leitura.

-Estamos aqui para um momento importantíssimo. Vamos ligar Seth. Eva, tem certeza que dará este nome a ela? Isso não é um nome masculino?
-Eu tenho meus motivos, Claudius. Agora me diz: existe alguma possibilidade de termos um novo apagão como no outro dia?
-Igual a quando ligamos o simulador? Impossível. Os circuitos do simulador de Seth já estão ligados e já estão em funcionamento. E o sistema de auto alimentação está funcionando perfeitamente. A capacidade de produção energética do simulador é cinquenta por cento maior que seu consumo.
-Então eu queria contar uma coisa antes de ligarmos isso. Eu tenho tido algumas enxaquecas. É algo que vem como uma adaga na cabeça e some muito rapidamente.
-Isso sempre lhe acompanhou a vida toda não é? – respondeu Carter.
-Pensei que ia melhorar na nova simulação. No entanto não piorou muito. Na verdade eu tenho sentido uma pontada bem diferente.
Luis olhou preocupado para os dois pesquisadores:
-Será que não é melhor verificarmos isso primeiro?
Claudius foi incisivo:
-São as dores normais. Não devemos nos preocupar com isso. Vamos em frente.
Carter ainda fez um sinal com a cabeça para que Luis aceitasse. Este acabou cedendo:
-Então vamos começar com isso. Eva venha aqui. Escolha o comando conforme o manual:
-Ativar os catalizadores. -Eva leu o manual e acionou o comando correspondente.
Imediatamente o ponto brilhante na tela começou a ser ampliado até parecer uma célula. A membrana celular era visível e seu interior opaco. Em um instante a membrana pareceu se mover para dentro de si e de uma célula foram criadas duas.
Eva sorriu ao ver o milagre diante de seus olhos.
-Está acontecendo!
No instante seguinte as células começaram a se dividir e reproduzir rapidamente. A ampliação foi regredindo e regredindo até que foi possível ver apenas uma pequena bola brilhante.
-Vejam os números. Tudo está certo até agora. Está crescendo no ritmo planejado.
Uma voz diferente tomou conta do lugar:
-O que está crescendo? O que está acontecendo aqui?
A voz era possante e seu dono impositivo. O Financiador lançou um olhar repreensivo para todos na sala:
-Vocês não aprenderam a lição? Acham que podem esconder o que estão fazendo aqui?
Claudius foi o primeiro a falar:
-Você não entende. Você está condenado. Nós todos estamos.
-Eu estou condenado a viver nesta simulação. Mas eu vou viver. Eternamente, meu jovem, eu vou viver.
-Não! Você não vai, Financiador. Seu corpo continua deteriorando fora desta simulação. Mais cedo ou mais tarde ele não aguentará mais e você morrerá!
-E quanto a mente que preparam para mim? Não vão transferir minha consciência para ela?
Eva arregalou os olhos e finalmente se deu conta do que estavam preparando para ela:
-O que está dizendo? Que minha mente foi criada apenas para servir como recipiente para sua consciência? – E olhando para seus professores e Carter – Assim que fosse possível vocês iriam me destruir para que ele pudesse viver?
Luis não ficou mais quieto:
-Nunca iríamos fazer isso. Você vai viver, querida. Ele não.
Por sua vez o Financiador também se percebeu traído:
-Então é isso que tramavam? Manter esta aberração viva e se livrarem de mim? Por que fariam isso? Ela é uma máquina. Eu sou uma pessoa.
-Não tínhamos escolha, Financiador. A transferência de sua mente se mostrou impossível. Esgotamos todas as possibilidades e como estamos marcados para morrer, só pensamos em como lidar com isso. Ela vai ser a salvação da humanidade.
O financiador ainda confuso tentou mais uma vez:
-Quer dizer que é impossível me salvar?
O olhar dos pesquisadores não deixavam dúvidas. Desta vez o ar arrogante do Financiador foi-se embora. Sua face crispou-se em uma dor incontida e o corpo dobrou-se caindo sobre os joelhos. As mãos foram levadas ao rosto.
-O que eu fiz! E tudo isso para morrer de qualquer maneira!
Luis aproximou-se do Financiador para ajudá-lo, mas foi afastado:
-Afasta-se de mim, idiota. Vocês não tem ideia do que eu fiz para estarmos aqui agora. Não tem ideia!
-Do que está falando? – retrucou Carter.
-Vocês acham que ela vai salvar a humanidade? – uma risada gutural rompeu na sala de controle. – Ela é a destruição da humanidade, seus incompetentes.
-Destruição? – Claudius perguntou.
-Lembram-se quando eu transferi o último grupo do projeto para este lugar afastado? Lembram-se como eu informei a todos sobre a praga que estava a destruir a humanidade?
-A praga… que vai nos matar a todos… – repetiu Luis.
-Sim, a praga. A doença que eu inventei. Inventei para que vocês não tivessem escrúpulos para a fase final do projeto. A fase em que vocês já passaram. Ligar o novo grande simulador.
-Você inventou… quer dizer que você criou o vírus? – Carter pareceu não estar entendendo.
-Não existe vírus nenhum, Carter. Eu inventei a história toda.
-Meu Deus, o que você fez?
-E este novo simulador, esta máquina que está crescendo desordenadamente, já está tomando metade do globo. Já matou milhões. Bilhões. A troco de que? Eu não vou viver para sempre. Eu vou morrer. Morrer junto com toda a humanidade.
E então, o financiador caiu desmaiado ao chão.
Os quatro ainda ficaram sem reação por alguns segundos. Carter então correu ao encontro do financiador. Quando chegou a tomar-lhe o pulso, lembrou-se que estava em uma simulação. Levantou-se e dirigindo-se a um terminal descobriu rapidamente o que havia acontecido:
-Ele está morto.
-O que ele quis dizer com aquilo? Eu não matei ninguém, matei? – o olhar confuso de Eva fez Luis se contorcer de raiva e dor.
-Ele estava blefando. Eu mesmo li tudo sobre a doença. Ela existe… eu sei.
Claudius e Carter não se iludiam fácil:
-Luis, tudo o que leu foi informações que o Financiador passou para nós. Ele tinha gente comprada para criar os documentos que não nos deixaria duvidar.
-Eu.. eu… Mas aquela história de tudo ser destruído pelo simulador… – Luis correu de seu lugar para o terminal mais próximo. Teclando desesperadamente acionou o telão com um imagem do globo terrestre.
Todos observavam o globo girar até que fosse possível ver a Sibéria. O local de onde o similador começou a crescer.
-Aqui ao norte do lago Baikal.
Luis apontou para o lago ao norte da Mongólia. A seguir teclou mais ou pouco e cruzou os braços esperando a resposta.
-O que vai acontecer agora? – Perguntou Eva.
-Veja você mesma. – respondeu Luis.
Uma mancha negra começou a crescer a partir do lago tomando rapidamente a cidade de Irkutsk e logo a seguir todo o lago.
A mancha ultrapassou a fronteira da Mongólia e ainda mais rápido pintou de negro todo o país. A China foi a próxima e o Cazaquistão a seguir. Mal tomou a China, o Japão e a Coreia sumiram. Índia, Tailândia, Oriente médio, Rússia toda.
A mancha tomou os primeiros países do leste europeu e chegou até a Arábia Saudita. E, enfim, parou.
-O que aconteceu? – Eva perguntou.
-Esta é a posição da mancha neste momento. Porém ela continua com o crescimento exponencial. – Luis acionou um zoom sobre a região da Arábia Saudita e foi perceptível como a mancha corria rápido pelos desertos árabes.
Eva continuou olhando os mapas e tentou algo:
-Como podemos reverter isso?
Claudius não deixou caminho livre:
-Não existe como. O sistema é fechado. Ele crescerá indefinidamente. Tomará toda a superfície e mesmo assim continuará. Indefinidamente. Nosso controle era apenas iniciar o processo. A Caixa de Pandora está aberta.
-Quanto tempo eles tem? – ela perguntou a Luis.
Luis então acionou o programa e a mancha voltou a crescer. Cada vez mais rápido. Até tornar toda a superfície da terra de um preto escuro. Mesmo os oceanos. Primeiro a massa negra tornou os oceanos de um azul mais escuro e depois de algum tempo tudo ficou totalmente preto.
-Os mares serão tomados pelo fundo e serão preenchidos totalmente pelos circuitos. A superfície terrestre não submersa será tomada em 5 dias. Os mares todos serão preenchidos em mais 7. – Luis resmungou.
Eva arregalou os olhos e erguendo os punhos bradou:
-Ele estava certo. Eu não sou a salvação da humanidade. Eu sou a sua destruição!

Como Eva vai lidar com esta nova culpa? A dor de cabeça de Eva é só um sintoma simples? Seth ainda será criado? Só saberemos nos próximos capítulos…

Máquina – Parte 13

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Segue a décima terceira parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte de Máquina aqui.

Eva estava sentada em frente ao terminal. Arrumava o cabelo pela terceira vez e batia os pés tamborilando no chão metálico.
Luis em pé ao seu lado teclava os últimos comandos meio arqueado. Levantou e cruzou os braços no instante que uma imagem formou-se na tela.
Eva sorriu e deixou uma lágrima escorrer em seu rosto.
-Mamãe!
Ana estava com ou sorriso no rosto e com uma tranquilidade sem fim.
-É bom revê-la Eva. Como é bom.
-Pensei que tinha lhe perdido novamente mãe…
Não conseguiu continuar a frase. Sem se conter, chorou soluçando muito. Luis tentou consolá-la:
-Ela está aqui agora, querida.
-Filha, fiquei sabendo da novidade.
-Seth?
-Sim, Seth. Você vai poder educá-la como eu lhe eduquei. Ou pelo menos enquanto eu pude.
-Você fez um bom trabalho, mãe. Veja como estou.
-Eu sei, minha filha. Agora você tem que ser forte. E fazer o que os meninos pedirem, certo? Eu confio nestes três.
-Mãe, sobre isso, eu queria falar com você.
Ela virou os olhos para Luis, como que pedindo um pouco de privacidade. Luis entendeu, porém não se afastou:
-Isso não é possível, Eva. Esta conversa com sua mãe não é privada, todos do projeto estão vendo isso. Eu estou do seu lado aqui para que você não se esqueça disso. Se precisa falar algo em particular, só pode ser comigo, Carter ou Claudius.
-Então que seja assim. Mãe, eu preciso lhe perguntar de qualquer maneira.
-Pergunte minha filha…
-O quanto você confia no Claudius?
Um silêncio se fez por alguns segundos. Luis afastou-se dela como que por instinto.
A mãe permaneceu sorrindo. E respondeu finalmente:
-Eu confio minha vida a ele, Eva. E a sua também.
Ela ainda observou os olhos da mãe por algum tempo e então mudou de assunto:
-Eu estou envergonhada, mãe. Todos sabem sobre minha… minha…
-Sua atração por garotas. – A mãe falou sorrindo. – Todos sabemos e isso você não deve se preocupar.
-Não me preocupo mais com isso, só que é embaraçoso. Não consegui dormir pensando em cada detalhe sórdido de minha vida, que todos vocês viram. Não existe nenhum segredo que possa ter guardado…
-Isso deve ser difícil mesmo.
-A vida é muito difícil. Mas mais difícil fica quando a verdade é a única coisa que nos resta. Nem tudo é suportável vir a luz do dia.
Desta vez foi Ana quem olhou sua filha nos olhos e seu sorriso se desfez.
-A verdade liberta, filha.
-Mas a liberdade não vem sem dor.
Luis voltou a aproximar-se. Tocando-lhe os ombros. Eva continuou:
-Veja isso mãe. Até pouco tempo eu era uma pobre órfã vivendo solitária. Sonhando com um futuro onde teria uma vida. Agora terei um futuro incerto e provavelmente solitário.
-Não diga isso. Seth será sua primeira companhia. E viverá com tantos quanto quiser.
-Será, mãe? E quando estes crescerem, será que vão querer viver comigo? Esta simulação é tão grande quanto o mundo. E todos poderão ir até onde quiserem. Será que vão querer viver com esta mulher solitária?
-A solidão não dita o que você é. O que dita o que você é, é como você lida com a solidão.
Desta vez Eva sorriu.
-Eu precisava de você mãe. Queria que estivesse aqui.
-Eu também filha. Mas tenho que ir agora.
-Já? Ainda é cedo.
-Tenho mesmo que ir. E só mais uma coisa, filha. Eu te amo.
-Eu também te amo, mãe.
E sorrindo e chorando Eva tocou a face da mãe na tela em sua frente. No mesmo instante a imagem se foi.
-Você está bem, Eva?
-É bom que você esteja aqui, Luis. Em você eu confio. Embora não possa lhe dar esperanças.
-Como assim?
-Eu sei o que sente por mim. Mas você não é correspondido. Pode ser meu melhor amigo. Mas é só isso.
Luis abaixou os olhos por um tempo. Mas ergueu-os a seguir com um sorriso:
-Não se preocupe comigo Eva. Eu sou assim, sentimental. E não gostaria de te magoar de qualquer maneira. Eu estou condenado lembra? Todos estamos. Menos você e Seth.
Ela sorriu e tocando o rosto de Luis em um carinho. Um segundo depois deu-lhe um tapinha de leve.
-Então vamos trabalhar. Estou ansiosa para Seth nascer logo.
Os dois seguiram pelo corredor. E continuaram a conversa:
-Eu vou engravidar? Vou criar uma barriga? Ela vai nascer de dentro de mim?
-Não Eva. Não seja tola.
-Então como vai ser?
-Você vai estar lá no instante do nascimento, é claro. E será tudo o que ela vai ter e ver naquele instante.
-Vocês não estarão lá?
Dando de ombros Luis, lamenta:
-Não queremos atrapalhar em nada. Você terá que lidar com isso tantas outras vezes, mas terá que lidar sozinha. Então queremos que faça isso sozinha a primeira vez também.
-Estou sozinha nisso então?
-Será mãe solteira. Fazer o que?
Ela sorriu enquanto entravam na sala de controle.
Carter virou-se quando viu os dois:
-Acabamos os testes Eva. E tudo está perfeito. Sua interface está cem por cento funcional.
-E isso quer dizer?
-Isso quer dizer que podemos seguir para a próxima fase. Podemos ligar o processo de reprodução de Seth.
Eva sentiu o coração disparando. Não conseguia conter a ansiedade. Mas mesmo neste estado notou algo errado.
-Onde está Claudius? Ele não vai acompanhar isso?
-Ele está fora. Precisou encontrar-se com o Financiador. – respondeu Carter. – Não ligaremos isso agora. Preciso ter uma última conversa com você antes.
-Precisa ver se eu estou pronta?
-Não. Eu sei que está. Só preciso lhe preparar para alguns possíveis problemas.
-Que problemas?
-Podemos ir para minha sala. No divã você ficará mais a vontade.
Carter e Eva foram para sua sala e ela logo deitou-se.
-Diga logo, quais são os problemas que passarei?
-Veja, Eva, nós sabemos que sua situação será inédita para qualquer pessoa.
-Como assim?
-Não sei se percebeu. A humanidade irá se extinguir e você será a mãe de toda a nova humanidade. Todos serão suas filhas. Já imaginou o que isso fará?
-Não tinha pensado nisso.
-E mais. Você também não pensou que sua vida não terminará. Você será imortal.
Desta vez ela recuou no divã um pouco assustada.
-Você parece que não se deu conta disso não é? Nunca ninguém esteve diante disso antes. A humanidade sempre viveu com o estigma da morte. Não tenho certeza como você lidará com a falta deste estigma.
-Você não está correto Carter. A humanidade nem sempre viveu com o estigma da morte. Os religiosos vivem sem isso. Os que abraçam a fé em uma vida eterna vivem uma vida como se não terminasse com a morte. Eles já vivem uma vida eterna, aqui e agora. A morte e considerada uma passagem para estes. Eu pensava exatamente sobre isso. Se os religiosos estão certos, estes viverão uma felicidade eterna e eu não poderei viver isso. Afinal, eu não estou viva de qualquer maneira.
-Explique isso melhor.
-Eu não sou viva, como eles. Não tenho uma “alma”. Eu sou uma máquina Carter. Você sabe que eu creio em Deus, não sabe?
-Nós fizemos o possível para que você conhecesse tudo que nos faz humanos. E a religião é algo importante para isso. Só não contávamos que você se apegasse a religião como se apegou. Tentamos de tudo para dissuadi-la e lhe tornar uma agnóstica…
-Para que eu não fizesse as perguntar erradas?
-Para que você não sofresse de dúvidas desnecessárias…
-Não são dúvidas desnecessárias. Embora para mim as respostas são mais fáceis do que para vocês.
-Quais perguntas você está se referindo?
-Quem sou? Para onde vou? Porque estou aqui? Todas perguntas fáceis para eu responder. Fáceis na superfície. Mas no fundo são tão complicadas como para cada humano. Eu sou uma máquina. No entanto, mesmo dizendo isso, eu sofro, choro, respiro, sinto. Eu penso, logo existo?
-Eu não sou um filósofo, Eva. E não me preocupo em entender a vida e tudo mais. Minha preocupação aqui, não é o que você é. Minha preocupação é como você vai lidar com o que você é.
-Como lidar?
-Você, possivelmente será uma líder sobre todos as outras máquinas. Todas lidarão com você quase como uma Deusa. Você será a única testemunha da humanidade.
-Será a mim que virão, quando quiserem saber sobre os humanos.
-Exato.
-Isso me dará um poder especial sobre todos.
-E uma responsabilidade também.
-Eu não sei dizer como me comportaria. Eu nunca fui líder de nada.
-Você fará o melhor que puder.
-Eu estive pensando. Quando minhas filhas crescerem. Elas próprias poderão ter suas filhas?
-Se você as treinar corretamente, poderão sim. Embora exista um risco quanto a isso. Se você passar a responsabilidade pela criação para outros, você perderá o controle sobre isso.
-Entendo.
-Outro detalhe. Este complexo é o único lugar onde uma nova máquina poderá ser criada. Estes terminais aqui são o controle sobre as interfaces que reiniciam a simulação de uma nova criatura.
-Então cada vez que uma nova máquina for criada, deverá ser por meio destes terminais aqui?
-Será parecido com a viagem das tartarugas marítimas. Elas viajam por milhares de quilômetros e depois voltam para a mesma praia para desovarem.
-Eu vou ter que pensar sobre isso. Este deverá ser um lugar sagrado. Me diz, este lugar poderia ser destruído?
-A simulação tem algumas regras distorcidas aqui. Fizemos com que não fosse possível derrubar as paredes ou destruir os computadores. De modo que se uma filha se revoltasse e resolvesse destruir isso, não seria possível.
-Isso que me preocupava.
-No entanto se algo em você falhar e você esquecer como este lugar funciona, ou como chegar até aqui. Então não haverá o que fazer.
-Não é possível escrever isso e deixar em algum lugar para este caso?
-Todo o conteúdo e treinamento que preparamos para você estarão disponíveis na rede em sua chave.
-E se eu morrer?
-Então você terá que treinar alguém para te substituir antes disso. Ou passar o conteúdo do treinamento antes de ir.
-Eu vou pensar sobre isso.
-Mas você é imortal. Porque se preocupa com isso?
-Você pensa que eu não entendi não é? Enquanto eu não for uma simulação neste simulador indestrutível e de crescimento infinito, eu nunca serei imortal. Eu já percebi que se uma consciência humana não pode ser transferida de um cérebro para uma simulação, uma consciência que está amarrada a uma máquina complexa também não pode.
Carter esforçou-se para não sorrir amarelo. Não conseguiu.

É amanhã. Tenho certeza que o próximo capítulo vai ser, disparadamente, o momento do livro até agora. Preparem-se e surpreendam-se.