Segue a décima segunda parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte de Máquina aqui.
Preocupações pessoais me impediram de revisar os capítulos que já tinha escrito (12, 13 e 14) de maneira a poder publicá-los. Então como hoje estou mais tranquilo já estou publicando os três, agendando um para cada dia.
Recapitulando (com spoilers para quem não leu): Ana não é a mãe real de Eva e é destruída em fase decisiva para construção do Novo Simulador. Eva sobre danos no mesmo acidente, mas aparentemente volta de um coma curto. O Financiador chega de surpresa e permite que Eva participe mais próximo da equipe. Ela começa os trabalhos e termina desmaiando.
Ela acordou com uma dor de cabeça enorme. Demorou um pouco para aceitar a dor e abrir os olhos. Mas quando abriu tal como uma onda de choque a luz comprimiu seu cérebro.
Era como se seus olhos se abrissem pela primeira vez. A beleza dos detalhes do ambiente ao seu redor eram fabulosos. Podia ver tudo com uma clareza que jamais imaginou existir. A nitidez, o contraste e os tons coloridos que jamais havia percebido inundaram sua percepção.
Sentiu um perfume e também se assustou com isso. Era uma coisa doce e forte além de ser dezenas de vezes mais intenso do que qualquer coisa que sentisse antes daquilo.
Ouviu um ruído e olhou para a direção de onde vinha. Podia apostar que eram sapatos masculinos, em passos rápidos sobre o piso elevado metálico de uma sala próxima. Podia ouvir que estavam sujos de areia.
A algodão da roupa que vestia foi a descoberta a seguir.
Toda sensação era superlativa. Inclusive o sabor amargo na boca.
-Você demorou a acordar, Eva.
Os olhos azuis e o sorriso doce de Luis estavam diante dela.
-O que aconteceu? Porque está tudo tão.. tão… – ela não encontrou uma palavra para expressar. Carter tentou:
-Brilhante? Detalhado? Refinado?
-Carter? O que aconteceu afinal?
-Seja bem vinda, Eva para sua casa final. Esta é a Nova Simulação. A nova e definitiva. Bem melhor não é?
Eva levantou-se e se sentiu forte como nunca. A dor de cabeça sumiu.
-Que… maravilhoso. Parece que ganhei novos olhos. Nunca enxerguei tantas cores e tão nítido. Quantos detalhes em tudo. E meus ouvidos…
-Sentimos o mesmo Eva. Para nós também é a mesma sensação. Este novo simulador simplesmente criou um ambiente super realístico, melhor até mesmo que a realidade, se posso exagerar. – disse Claudius também ao seu lado.
-Se estamos aqui. Então, funcionou? O novo simulador está funcionando?
-Exato. O novo simular está em perfeito funcionamento. E os dados da simulação do antigo já foram transferidos para cá. Além disso uma série de detalhamentos que estavam sendo capturados da realidade também foram acrescentados.
-Então a simulação é criada a partir da realidade?
-Totalmente. Um conjunto de centenas de sensores: câmeras, detetores de cheiros e sistemas de reconhecimento de animais, objetos, vegetais e tudo o mais, estavam trabalhando o tempo todo coletando informações. Agora tudo está disponível na simulação. Nosso complexo está todo remodelado. Verá que tudo é novo.
Eva sentou-se na maca e observou que tudo era realmente novo em folha. As paredes e o chão estavam impecáveis.
-Não se preocupe, tudo tem aparência de novo, mas está tudo exatamente no mesmo lugar que antes. Isso, você não precisará aprender novamente.
-E minha mente? Já é uma simulação também? Ou ainda sou aquele emaranhado de eletrônicos?
-Sua mente é a mesma de sempre, Eva. Só que agora não está ligado mais ao antigo simulador. Trocamos os cabos, entende?
-E quando vamos finalmente me colocar toda dentro do simulador?
Ela olhou a cada um dos seus amigos ao seu redor e viu que os olhos animados de Carter e Claudius informavam algo contraditório aos olhos preocupados de Luis. Este disse:
-Precisamos ter certeza de uma coisa antes.
-O que seria, meu amigo?
-Precisamos saber se um cérebro simulado realmente funciona.
Eva olhou bem dentro dos olhos de Luis e mediu seu nível de preocupação. Ele parecia tenso demais. Ao se virar para os outros dois viu que trocavam um olhar cúmplice. No mesmo instante um frio percorreu sua espinha . Não deixou de pensar em como a nova simulação também não deveria ter melhorado sua percepção das coisas.
-O que está acontecendo Claudius. Como pretendem garantir que a simulação da minha mente funcione? – disse num tom desconfiado.
Claudius deu-lhe as costas, não sem antes fazer sinal para que o seguisse. Eva foi e quando ele chegou ao painel da central de controle. O telão em sua frente apresentava uma imagem simples, mas também já vista antes.
-Claudius, você vai preparar um novo simulador? Por que esta imagem é igual a tela de criação do simulador?
-Não é um novo simulador, Eva. Este é a célula inicial de uma nova criatura.
Eva abriu bem os olhos e tentou identificar algo na tela. No entanto a imagem era apenas um ponto branco na tela toda negra.
-Este será meu filho?
-Sim, Eva. E você pode escolher o nome que quiser… – respondeu Luis.
Ela continuou olhando.
Luis uma mão em seu ombro e falou baixinho:
-Eu tenho uma sugestão. Que tal Seth?
Ela aproximou-se da tela e respondeu ainda suspirando:
-Seth. É perfeito. Mas ele é um menino?
Claudius interveio:
-Isso vai ser um problema. É uma menina. A simulação da mente repete como algoritmo o processo que foi a criação de sua mente. Uma mente feminina. O DNA utilizado para sua formação foi de uma mulher. Portanto não temos uma receita masculina. E não temos tempo de criar outra mente.
-Então… todas as máquinas serão mulheres?
-Sim. Todas as máquinas serão do gênero feminino. Todas elas.
Eva enrugou a testa com uma olhar estranho:
-Mas, e como, como vamos nos reproduzir?
Ela sentou-se a cadeira com o rosto estafado. Luis permaneceu ao seu lado com a mão lhe tocando os ombros:
-Como você pode ver, você será reproduzida, mas não precisará de um ser masculino para completar o processo.
-Sim, eu entendo.
Ela ainda olhava com aquele olhar. E um pouco constrangida e com o olhar baixo lançou a questão que realmente estava lhe preocupando:
-E quanto a sexo? Como espera que vamos fazer? Se formos só mulheres?
Luis tossiu constrangedoramente e se afastou. Carter virou bem a tempo de esconder um sorriso que não conseguiu segurar. Claudius foi quem deu a resposta:
-Isso nunca foi impedimento em nenhum tempo. A natureza sempre dá um jeito em situações como esta de escassez de um gênero. Se é que me entende. No mais, você será a última a ter contato com o masculino. Todas as outras máquinas terão somente o feminino como referência.
-Isso é estranho demais. Eu nunca senti nenhuma atração pelo mesmo sexo e no entanto se eu quiser viver esta face de minha vida terei que me adaptar. Não me parece justo.
-Não é justo com os homens também. Eles não terão nenhuma sobrevida. Deveria pensar nisso…
-Eles fizeram muito mais pelo fim da humanidade que todas as mulheres. – Eva grunhiu furiosa.
-E no entanto você está tensa assim, porque não poderá dividir sua vida com outro homem. – repeliu Claudius.
Ela lembrou o tamanho do problema que todos estavam enfrentando e tentou se acalmar. Luis foi quem seguiu a questão por outro caminho.
-Veja por outro lado. Você tem asco, ou aversão pelo mesmo sexo Eva?
Eva olhou-o um pouco envergonhada. Lembrou-se de um dia a muitos anos quando ainda estava em seu estranho orfanato. Sua memória voltou-se para quando os hormônios adolescentes começaram a mexer com sua cabeça e ela começou a descobrir seu corpo.
Ela se sentia atraída pela figura de uma mulher que todos os dias preparava sua comida. Ela só a via pela pequena janela no refeitório. A visão para a cozinha permitia que visse os grandes seios da mulher, além das curvas de suas ancas. E de uma maneira estranha ela se sentia atraída.
Luis olha ainda para Eva. E esta voltou de seu devaneio com o rosto corado.
-Eu… eu…
-Você sabe que conseguirá conviver com isso não é? Nós também percebemos como sua atenção com a cozinheira no orfanato. E como ela povoou suas fantasias adolescentes. – Claudius pareceu ler a mente de Eva.
Ela sentiu aquilo como um tapa na cara. E com os olhos cheios de lágrimas, levantou-se e estapeou em cheio o rosto de Claudius. Ainda preparou um segundo tapa, mas Claudius desta vez interrompeu a trajetória do movimento segurando firme o braço de Eva.
-Você não tem segredos conosco. Não tem. Não pense que eu estou dizendo isso para machucá-la.
-Deixe-a em paz, Claudius. – intimou Luis. Claudius soltando a mão de Eva se afastou.
-Ela sabe que estamos de seu lado, Luis. Ela sabe.
-Cale a boca, Claudius, você está me cansando. – desta vez foi Luis que preparou um soco em Claudius, porém no exato instante Carter segurou-o.
-Parem com isso, seus tolos. E você Eva, pare de choramingar. Parece que esqueceu o que estamos fazendo aqui? É uma sobrevida à humanidade. Deixaremos você aqui, com tantas companhias você desejar. E podendo criar tantas quanto quiser. E serão todas mulheres. Sim, serão. Mas você já demostrou que isso não é problema para você. Então assunto encerrado.
-Nós já tínhamos percebido isso, Eva. Inicialmente iríamos criar uma mente masculina também. Mas o tempo está acabando… – Luis falou mais calmo e tentando ser gentil.
Eva olhou nos olhos de Luis e percebeu sua verdade. Respirou fundo e limpou as lágrimas.
-De qualquer forma, mesmo tendo estes instintos eu não poderei me aproximar de ninguém. Serão todas como minhas filhas. Como eu poderia? Não se preocupem comigo. Eu só preciso de um tempo.
-Certo Eva. Vá descansar. Temos um pouco de tempo para testar se sua nova interface está perfeita. Aparentemente sim, mas temos que fazer outros testes. E temos que terminar de preparar Seth.
-Quanto espera ativar seu crescimento? – perguntou Eva.
-Assim que terminarmos seus testes nós podemos começar com isso. Provavelmente amanhã ainda. Agora, vá descansar. Você vai precisar.
Eva se afastou para seu quarto.
Luis olhou para Claudius com um olhar zangado:
-Você estava pensando em que? Em bater nela?
Claudius levou a mão ao rosto ainda quente pelo tapa.
-Parece que ela não perdeu tempo quanto a isso, não é?
-Você merecia muito mais seu bastardo.
Carter novamente se colocou entre os dois. Claudius continuou provocando:
-Seu idiota. Ela é uma devassa e você sabe. Não lembra o que ela fazia sozinha no orfanato? Se tocava e chamava pela cozinheira gemendo… gemendo…
Luis afastou Carter com um empurrão e armou um soco em Claudius. No entanto em um movimento rápido Claudius desviou-se e segurando o braço de Luis conseguiu imobilizá-lo. Apertava o braço pelas costas de Luis mais forte a cada tentativa de soltar-se.
-Escute aqui. Você tem que reprimir estes seus arroubos sentimentaloides. Está começando a atrapalhar nosso trabalho.
Carter aproximou-se e tentou apaziguar.
-Vocês dois tem que deixar estas diferenças de lado. Todos queremos que Eva viva. Nos dividirmos agora não vai resolver nada.
Luis tentou soltar-se novamente mas por fim relaxou. Claudius percebendo soltou-lhe o braço.
-Desculpe-me, Claudius, acho que me excedi.
-Sou eu que deveria pedir desculpas. Peguei pesado com Eva. E sabia que iria te ofender. No entanto você tem que acertar esta cabeça amigo. Está misturando seus sentimentos. E sabe onde isso vai dar.
-Eu sei.
Amanhã virá o capítulo 13 e depois o capítulo 14, que será disparadamente um dos capítulos mais decisivos do livro. Não perdem por esperar!
