Máquina – Parte 11

Segue a décima primeira parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte aqui.
Recapitulando (com spoilers para quem não leu): Ana não é a mãe real de Eva e é destruída em fase decisiva para construção do Novo Simulador. Eva sobre danos no mesmo acidente, mas aparentemente volta de um coma curto. O Financiador chega de surpresa e permite que Eva participe mais próximo da equipe.

Eva deitou-se na maca indicada por Carter e esperou um pouco apreensiva o que viria a seguir.
-Bem, como eu lhe expliquei anteriormente você deverá sentir como se perdesse os sentidos. Ficará tudo nebuloso e escuro. A seguir verá uma luz forte e depois de algum tempo poderá ver pelas câmeras do robô.
Ela ainda fez uma cara incrédula, mas deu de ombros.
Carter continuou:
-Neste momento estamos testando apenas a interface visual. Você terá a visão do robô. Mas sou eu que vou controlá-lo. Você ouvirá minha voz explicando o que deverá fazer a seguir.
-Entendi. Só uma pergunta, eu vou sentir alguma coisa?
-Quando eu faço isso costumo sentir um pouco de náusea. Mas não temos ideia se isso será do mesmo modo para você.
Ela preparou-se para a ativação, enquanto Carter continuava a acionar os comandos.
Ela não conseguia controlar a ansiedade. No instante seguinte sua vista escureceu e aconteceu como ele havia dito: uma tontura e sentiu-se desmaiando.
Não demorou muito seus olhos voltaram a funcionar. Porém a visão era turva e de um ponto de vista estranho, como se ela fosse um tanto mais baixa. Uma voz metálica pareceu falar diretamente de sua mente:
-Eva, está me ouvindo?
Ela logo percebeu que era Carter:
-Sua voz soa tão estranho, parece um sintetizador de voz dos mais antigos.
-É uma voz padrão para gerar uma baixa taxa de dados. Eu estou digitando isso, não falando. Você está vendo alguma coisa agora?
-Estou sim. Parece que estou em um armazém. E… não sei se consigo explicar…
-O que foi Eva?
-Eu pareço estar muito baixa!
-É que já está vendo pelos olhos do Robô. Ele tem olhos em um nível mais próximo do chão. Além de usar uma lente olhos de peixe.
-É isso, tudo está distorcido. Como se eu olhasse por uma lente.
-Perfeito, Eva. Tudo certo até agora. Algum desconforto?
-Não mesmo. Não estou sentindo nada errado.
-Então vou indicar como pilotar o robô. Primeiro indique que quer se mover colocando as duas mãos com as palmas para cima. Isso avisa o sistema que o robô deverá acionar as rodas. Para ele se mover é bem simples, levantando uma das mãos, a direita ou a esquerda, o robô gira para o lado inverso. Levantando as duas mãos ao mesmo tempo o robô anda para frente, sem girar. Quanto mais alto você levanta mais rápido ele vai. As duas palmas para baixo aciona o freio.
-Acho que entendi.
-Agora vou colocar minha imagem em seu campo de visão e você poderá ver meus movimentos ao mesmo tempo que vê o robô.
Uma pequena tela apareceu diante dela como que flutuando a alguns metros. Na tela ela pode identificar a imagem das costas de Carter. Ele estava com os braços estendidos a frente do corpo.
-Vou começar – Carter indicou.
Ele moveu as palmas das mãos para cima e ela ouviu o som metálico de motores elétricos sendo acionados.
- As palmas para cima ligam os motores. – Eva repetiu. Não queria esquecer os movimentos depois,.
Carter então começou a controlar o robô movendo os braços para cima e para baixo. Eva via o ambiente em sua volta se movendo, como se ela estivesse sentada em um carrinho de compras sendo levada para um lado e para outro.
O robô deslizou para o outro canto do armazém e aproximou-se de uma caixa fechada. Carter posicionou o robô diante de marcadores na caixa.
-As duas mãos com as palmas para baixo desligam os motores. – Eva repetiu.
-Isso. Agora vamos ter que abrir a caixa. Para isso precisamos controlar os braços mecânicos do robô. Para indicar que queremos isso juntamos as palmas das mãos, assim.
Ele juntou as palmas das mãos e imediatamente os braços do robô entraram no campo de visão de Eva.
-As mãos do robô agora imitam os movimentos de sua mão… e observe que você sente a pressão nos dedos quando toca em algo.
Enquanto falava ele acionou um botão na caixa e esta começou a abrir automaticamente. No momento que ele tocou a caixa ela sentiu a pressão na ponto de seu dedo, como se ela tivesse realizado o movimento.
Dentro da caixa um dispositivo bem complexo, com vários fios e conectores do tamanho de um bola de basquete esperava para ser ativado.
-Veja, Eva. Este é uma das interfaces. Basta transportá-lo para o campo de conexão e encaixá-lo em um dos slots de conexão.
-Qualquer um deles?
-Sim. Em qualquer um deles. Antes de darmos início ao crescimento do novo simulador uma sala de conexão foi criada e preparada para se ligar ao núcleo inicial.
-Onde fica esta sala?
Carter sorriu, embora do ponto de vista dela, não pudesse ver.
-Fica abaixo da sala de controle. Vamos levar esta caixa até lá.
Ele acionou os braços mecânicos e segurou a interface a sua frente. Depois levantou acima de sua cabeça, para poder se movimentar pelos corredores sem a peça obstruir sua visão. No momento que levou as mão ao alto um pequeno sinal sonoro fez-se ouvir.
-Este sinal indica que os braços estão travados. Quanto atinjo os pontos máximos do movimento e mantenho por dois segundos, eles travam automaticamente. Isso permite que eu acione novamente as rodas.
-Então você não precisa ficar o caminho todo com os braços pra cima?
-Isso iria cansar a beça, não é?
Ela ficou pensando sobre os movimentos enquanto Carter começou a mover novamente o robô pelo armazém. Logo o robô cruzava os corredores.
-As linhas verdes no chão. São indicação do caminho para a sala de controle?
-Bem observado, Eva. Verde indica o caminho entre a sala de controle e o armazém. Vermelho é a rota de fuga. Assim por diante.
-Carter. E as outras cores? Este corredor está bem colorido. Quando entrei a primeira vez aqui foi uma das questões que eu gostaria mais de perguntar.
-No seu devido tempo, Eva. Por enquanto, a verde e a vermelha é o suficiente, para instalação das interfaces e para fugir em caso de problema.
-Você quer dizer, para salvar o robô, em caso de problema…
-Só temos quatro robôs a sua disposição. Sem eles você não terá nenhum acesso ao mundo real. Dois deles são específicos para manutenção dos outros. São menores e tem muitas ferramentas úteis.
-Então eu poderia consertá-los.
-Exato. E para garantir que sempre terá ao menos um disponível, são dois robôs de cada. Dois para trabalhos pesados e dois para manter os quatro em ordem. Uma área inteira do armazém possui peças sobressalentes para mantê-los por décadas.
-Haverá tempo para eu treinar a manutenção dos robôs?
-Não será necessário. Temos roteiros inteiros preparados para cada tipo de manutenção.
-E quando acabar uma peça? – Eva insistiu.
-Temos também roteiros para construção de cada peça. E material e ferramental completo para isso. Se um dia for necessário.
-Parece que vocês pensaram em tudo!
-Tudo depende de cada detalhe que pensarmos, Eva.
Enquanto discutiam eles entraram na sala de controle. Que naquele momento estava vazia. O robô foi posicionado em um canto sobre um sinalização verde no canto da sala. Assim que Carter desligou os motores o chão sobre o robô começou a descer. Era um elevador. Eva se sobressaltou assustada.
-Está tudo bem, não se assuste.
O elevador levou-o para o piso abaixo da sala de controle.
-Veja, esta sala possui em sua paredes estas portas.
A sala estava bem iluminada. Eva observou que cada parede do pequeno cubículo possuía quatro portas com botões.
-Dezesseis slots de conexão. Não dá pra conectar muita gente ao novo simulador. – observou Eva.
-Não é necessário. Usaremos apenas cinco interfaces: a minha, a de Luis, Claudius e do financiador.
-Não seriam quatro então?
Ele apertou o botão na primeira porta no canto da parede e ela se abriu. Encaixou então a interface no slot e afastou-se. A porta fechou em seguida deixando a sala como estava antes de chegarem.
-Errado, você está esquecendo de você, Eva.
Naquele instante ela sentiu uma pontada na cabeça e sua vista escureceu tão rápido quanto ela parecia rodopiar até sumir em um abismo sombrio.

E a trama está armada. Estava com grandes dúvidas sobre o andamento deste livro, sobre o desenrolar do mesmo. Tinha um projeto para final, mas o roteiro até lá estava um pouco obscuro. Enquanto revisada este capítulo e iniciava o seguinte parei um pouco para rever tudo que escrevi e preparar um roteiro descente para a história. Felizmente agora já posso seguir com tranquilidade uma vez que as maiores, e piores decisões já estão tomadas…

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