Máquina – Parte 9

Segue a nona parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte aqui.

-E então, quem vai começar a dizer o que aconteceu?

Eva não estava para amizade, um olhar tenso rapidamente destruiu o sorriso de Luis.

-Nós tivemos uma sobrecarga. Mas no momento tudo está sobre controle.

Ela continuou olhando fixadamente e sem muita pausa já remendou outra pergunta:

-Onde estão os outros? Minha mãe, os pesquisadores?

Neste momento Luis abaixou os olhos sem pensar em nenhuma outra ação. Mas Claudius adiantou-se controlando a situação:

-Nós tivemos uma falha nas interfaces entre nós e o Simulador e entre você e o Simulador. Tivemos que fazer algumas escolhas.

-Como assim? – com um olhar preocupado por sua mãe, Eva já não transmitia a mesma confiança.

-O nível de energia baixou a níveis alarmantes e tivemos que desativar a interface da maior parte de equipe. Ficamos só o pessoal imprescindível. Eu, Carter e Luis.

-E minha mãe?

Carter entendeu imediatamente a jogada de Claudius e começou a trabalhar:

-Infelizmente a interface dela não pode ser reativada. Estas interfaces são individualizadas e a dela foi totalmente danificada no processo de desativação. Ela não poderá retornar ao Simulador. Eu sinto muito…

-Em quanto tempo ela ficará fora?

Os três se entreolharam e desta vez Luis tomou a palavra:

-Sinto muito mesmo. Não haverá tempo para revê-la.

O rosto de Eva desfigurou-se em uma mistura de asco e ódio. Em fúria ela arrancou o teclado em sua frente e o lançou sem direção. Caiu em lágrimas.

Luis aproximou-se dela e tentou consolá-la.

-Não é bem assim. Poderemos colocá-la em videoconferência com ela. O que não será possível é que ela esteja com você aqui.

Isso foi suficiente para ela se conter.

-Venha comigo, você deve estar cansada.

Carter aproximou-se e a conduziu para fora da Central de Controle. Não sem antes lançar um olhar reprovando o que Luis acabara de dizer.

Quando os dois encontravam-se fora da sala, Luis correu, pegou o teclado do chão reinstalou no terminal usado por Eva a alguns segundos. Começou a digitar.

-Vejamos o resultado do teste completo…

Claudius aproximou-se para ler e não gostou do que viu.

-Aqui, – disse apontando na tela – parte dos neurônios foram comprometidos. Maldição. Descubra que área do cérebro foi afetada.

Luis nem precisou da ordem de Claudius. Nem havia visto o ponto de falha já estava teclando os comandos de detalhamento.

-Parte do Lobo Frontal. Uma pequena parte. Isso é péssimo.

-Teremos que discutir as consequências disso com Carter. Ele é o especialista em Cérebros.

Luis tinha a face triste e já saia cabisbaixo, quando Claudius o segurou:

-Você tem trabalho extra. Precisa acertar as imagens e a voz de Ana para a vídeo conferência. Quero isso pronto o mais rápido possível. Eu mesmo farei o papel dela. Não tinha que ter falado que isso era possível, nosso tempo está curto demais para perdermos com estas bobagens.

-Não acho que seja bobagem. Ana é o maior vínculo de Eva com a humanidade. Se ela estiver presente neste momento decisivo, poderá ajudá-la a encontrar seu caminho.

-Espero que ajude mesmo. Já perdemos tempo demais com a simulação da personalidade dela. Deveríamos ter feito as videoconferências deste o início.

-Claudius, você sabe que a simulação é muito mais convincente não é? Agora que ela tem a certeza que a mãe está viva, fica mais fácil para ela criar o vínculo, mesmo que seja por videoconferência.

-Está certo. Enquanto você prepara isso, deixe-me ver a quanto anda o novo simulador.

Claudius acionou novamente o telão, tomando o cuidado para ajustar a escala de brilho do detector de células inorgânicas. O telão rapidamente estava tomado pela cor branca intensa. Ele ajustou a escala de ampliação e logo era possível ver uma grande mancha branca semi arredondada no meio do telão. Ele ativou então uma régua de escala e uma linha milimetrada atravessou bem o centro da mancha.

-Já está com 3 quilômetros de extensão. O dobro do previsto para este tempo. Vejamos a densidade…

Nestas tecladas tentava obter a quantidade de células por metro quadrado. E quase caiu da cadeira quando o número quase estourou a escala:

-Um trilhão de células por metro quadrado e aumentando! Além de atingir um volume enorme ainda está mais de mil vezes mais denso do que tínhamos projetado. Uma conta rápida e já acho que está pronto para Eva.

-Não posso acreditar nisso, Claudius, tínhamos previsto quase um mês até que o novo Simulador tivesse poder de processar o pensamento dela.

-Então aperte os cintos que vou mandar calcular o poder de processamento desta gracinha.

Ele acionou por fim o comando na tela e quando ia cruzar os braços para esperar a resposta o número pulou na tela:

-Dez vezes, dez! E já está subindo… onze… É incrível!

-Dez vezes o que?

-Dez, não, onze vezes a Eva. Esta máquina já é capaz de simular onze Evas. E continua crescendo.

-Impressionante. Então já podemos começar a prepará-la para a grande mudança.

-Sim. Podemos preparar as novas interfaces deste simulador. E o grande armazém de dados dela já está pronto para ser transferido. Isso significa que temos que tomar a grande decisão que adiamos até agora…

-Devemos escolher até quando iremos copiar…

Luis coçou o queixo pensando sobre isso. E não tinha uma resposta certa.

-Acho que poderíamos ir até hoje. A noite quando ela for dormir desligamos o registro do armazém e começamos a transferência.

-Ou esperamos o plano de Carter de prepará-la antes. – Claudius também estava confuso.

-Se ele prepará-la antes e algo der errado na transferência podemos tentar de novo sem perder o treinamento.

-Se algo der errado na transferência não perdemos tempo em treiná-la de qualquer maneira. – Claudius já mais convencido.

-Temos pressa e esta parece ser uma boa ideia. Transferimos ela para o novo simulador e depois seguimos o treinamento.

Claudius pareceu concordar com isso. Embora ele fosse o mais crítico sobre a transferência.

-Se a transferência não funcionar partimos para o plano B. O que eu queria fazer desde o início.

-Não pode ser tão insensível a ponto de abandoná-la para a destruição embora ela esteja tão próxima da imortalidade.

Claudius sorriu malandramente e não poupou Luis da mais pura verdade:

-Ela está mesmo próximo disso, mas em compensação, você está a um passo da morte. Não existe como mudar isso Luis. Deixe-a ir.

Luis quase reagiu nervoso e chegou a ensaiar uma resposta grosseira, porém ele sabia que Claudius estava certo. Mesmo que ela tivesse todo o futuro pela frente, não seria junto dele.

Mais uma parte encerrada. Estou pensando em lançar uma promoção sobre o livro. Fiquem atentos.

 

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