Máquina – Parte 8

Segue a oitava parte de Máquina. Se não está acompanhando do começo ainda, veja a primeira parte aqui.

-Temos que continuar. – Claudius com uma voz ríspida interrompeu o momento entre mãe e filha.

Carter lançou um olhar repreendendo-o e aproximou-se das duas:

-Eva, infelizmente isso é certo. Não temos muito tempo e você ficará sozinha. A não ser que…

Eva levantou o olhos rápido e segurou Carter com duas mãos:

-Tem algo que possa fazer sobre minha mãe.

Todos se entreolharam penosos.

-Não, Eva, nada sobre sua mãe e qualquer um de nós aqui. Estamos todos condenados. Mas você poderá ter companhia, se conseguirmos fazer a Fase Três funcionar.

Eva irritou-se e agitada tentou correr para fora da sala. Porém Ana segurou um de suas mãos e impediu-a.

-Filha, não temos tempo. Você precisa se controlar. Deixe a razão falar mais alto agora.

Carter continuou:

-Eva, por mais que seja duro pra você, para todos nós é ainda mais difícil. Mas não podemos parar agora. Claudius mostre a ela.

Claudius tomou a frente e chamou-a para um grande telão na parede. Teclando rapidamente a imagem mudou no telão apresentando uma pequena mancha brilhante no meio da tela preta.

-O que é isso Claudius?

-Gostaríamos que você estivesse aqui neste momento importante do projeto. Vamos iniciar a replicação do novo simulador. Esta pequena mancha são as células inorgânicas iniciais. Elas devem iniciar sua reprodução assim que liberarmos o catalizador. Isto passará a funcionar como o novo simulador.

Ana abriu bem os olhos e tentou focar o pequenino ponto brilhante.

-Meu pensamento passará a funcionar nesta nova máquina?

-Exatamente, Eva. Assim que a replicação atingir o tamanho adequado iremos transferir o processamento de seu cérebro eletrônico para o simulador.

Luis aproximou-se:

-Quer tomar as honras? Ali, aperte aquele pequeno botão na tela.

Eva aproximou-se da tela e esticou seu braço para apertar o botão. Antes encarou sua mãe, Claudius, Luis e Carter. Apertou rapidamente e um zumbido tomou conta do lugar.

Ela levou as mãos instintivamente aos ouvidos. O zumbido aumentou. No telão, rapidamente, a pequena luz aumentou rápido. Em segundos tomava metade da tela.

Claudius mantinha os olhos no telão com um sorriso no rosto. Luis com a testa franzida não escondia sua preocupação. Ana aproximava-se da filha quando ela se contorceu em dor com o zumbido que lhe rasgava a alma. O zumbido a esta hora já se transformou em um estrondo. No entanto só Eva podia ouvi-lo. Os outros repararam no que acontecia a ela, mas a replicação não era controlável. Luis foi o primeiro a reagir:

-Claudius, eu lhe disse que isso poderia acontecer… O que faremos?

A luz já tomava conta de todo o telão. E no meio da tela a intensidade da luz era cegante.

-Está tudo sobre controle Luis, deixe de medo homem.

-Você pois tudo a perder. Se o novo simulador utilizar energia demais irá destruí-la.

Neste momento a luz deu uma vacilada e piscou rapidamente. Um segundo depois um blecaute deixou tudo totalmente escuro.

Foram alguns minutos de completo silêncio e escuridão. Como se nada mais existisse.

Sem conseguir determinar o tempo que levou, Claudius ainda sonolento levantou-se, sentou-se em sua maca e e esfregava os olhos para tentar acordar. Então um vulto apareceu contra a luz e uma mão voou em um soco certeiro em seu rosto.

Claudius caiu da maca ao chão e sem esperar levou um chute nas costelas.

-Seu idiota. Eu lhe disse que isso aconteceria. Seu estúpido.

Reagindo a dor, Claudius tentou se proteger atrás da maca e com os pés tentou derrubar o oponente.

-Luis, pare com isso, você sabia dos riscos. Você sabia.

Luis ainda em fúria empurrou a maca para o lado e quando ia para cima de Claudius levou um chute que lhe fez bater a cabeça na parede e cair inconsciente.

A luz ainda estava vacilante. Claudius apoiou-se para levantar e aproximou-se para ver se Luis estava bem. Ao ver que ele estava apenas desacordado, correu pelos corredores sem pensar em mais nada.

Os corredores eram os mesmos, mas a decadência era ainda maior. Ele parou diante da grande porta da Sala de Controle.

-Espero que dê tempo…

Ao digitar a senha a porta abriu-se para ele. Não havia ninguém dentro da sala e tudo estava desligado.

Ele correu para o canto da sala onde se encontrava um painel fechado. Usou a chave que estava preso em seu cinto para abri-la e começou a ligar os disjuntores.

Primeiro acionou o principal no topo do painel. Um estalo característico seguido de eco tomou conta do lugar.

Olhou para os lados e tudo permanecia desligado.

-Vejamos. Devo começar por aqui.

Acionou novas chaves e o sistema começou a dar sinal de vida. Primeiro as luzes no alto da sala, depois um barulho baixo de ventoinhas.

Quando terminou, as telas já começavam a apresentar a carga dos sistemas.

Claudius não demorou a conseguir a imagem que queria. Em um monitor estava a mesma sala em que se encontrava. E na imagem estavam lá: Ana, Eva, Claudius e todos os outros. Estavam caídos no chão desacordados.

-A simulação, está funcionando.

Alguém aproximou-se por trás de Claudius:

-Ela está bem? Ela está bem?

Luis estava com a mão na cabeça, afagando a ferida de onde escorria um pouco de sangue.

-Estou quase lá, o sistema ainda não subiu. Desculpe-me por isso, mas achei que iria me matar.

-Se algo aconteceu a ela, eu vou matá-lo. Mas temos que ser rápidos agora.

-O simulador não parou. Está cem por cento funcional. O sistema de monitoração de Eva está carregando. Mais um minuto. Meu Deus, espero que tenhamos sorte.

-Não é questão de sorte, você sabe. Foi imprudência sua.

-Deixe de conversa. Vá verificar o novo simulador. Veja se continua replicando.

-Não acredito que ainda vai se preocupar com isso.

-Estamos todos mortos. Sem o novo simulador, ela também estará.

Luis, ainda que relutante, não poderia contestar, virou-se e começou a trabalhar. Ele teclava rapidamente e observava o telão desligado na parede. Enxugava o suor em sua testa enquanto praguejava baixinho e trincava os dentes.

-Noventa e cinco por cento. O monitoramento de Eva está quase lá.

-Aqui está, o novo simulador. – Luis terminou de dizer estas palavra e o última teclada fez seu pequeno barulho.

Uma luz insuportável tomou conta da sala. O telão apresentava uma intensidade inimaginável. Claudius levou as mãos aos olhos e Luis rapidamente, com os olhos fechados, acionou o teclado para que o telão desligasse.

Em outra pequena tela alguns números não deixavam dúvida:

-O novo simulador está em perfeito funcionamento e crescendo a uma taxa acima do esperado.

-Ótimo. Agora, Eva.

Claudius continuou digitando e finalmente a tela em sua frente começou a apresentar a interface padrão de monitoramento de Eva. Luis aproximou-se e observava a tela por sobre os ombros.

-Aqui. Funções vitais. Carregando.

-Ande logo – Luis estava totalmente descontrolado.

-Pronto. Veja, veja.

-Ela está bem!

-Mas está desacordada. Vamos ter que passar a rotina inteira de checagem. Isso vai levar algum tempo. Veja o que o log de informações diz sobre o evento.

Luis voltou ao teclado e começou a procurar o horário exato do blecaute.

-Aqui diz que houve uma instabilidade no fornecimento de energia. Uma sobrecarga. O sistema automaticamente desligou os equipamentos menos prioritários, enquanto os geradores reservas não estivessem ligados.

-Quais subsistemas foram desligados Luis?

-As interfaces. Primeiro a nossa interface com o simulador. Por isso acordamos da simulação. Mas ainda não foi suficiente.

-O que mais?

-Foi desligado a interface do simulador com Eva. E as simulações de pessoas também foram desligadas.

-Ana?

-Todos. Todos foram desligados.

-Onde está Carter? Vamos precisar dele. Quando ela voltar vamos precisar dele para explicar porque sua mãe sumiu de novo.

-Não é possível a gente reativá-la?

-Luis, você me irrita! Sem a reserva de energia que tínhamos fica impossível acionar uma nova simulação de personalidade. E levaria anos para que estivesse no ponto que ela estava.

-Vamos ter problemas com isso, Claudius. Vou ver se Carter está bem. Quanto tempo para a rotina de teste terminar?

-Dez minutos. Vai vê-lo, vou aproveitar para chegar os sistemas de energia. O novo simulador continua crescendo rápido, logo teremos novos problemas.

Luis saiu da sala de controle e seguiu de volta pelo corredor.

Era quase imperceptível a diferença da realidade que estava e a simulação de alguns minutos atrás. Talvez a única coisa que notava é sua miopia que lhe atrapalhava agora. Pensou em como era fácil corrigir uma falha de visão em um sistema simulado.

Entrou na saleta e amaca estava ainda jogada no chão. E foi até o canto na maca de Carter.

Ele parecia dormir. Seus cabelos grisalhos, e rosto enrugado não deixavam dúvidas sobre sua idade. Deveria ter mais de oitenta anos. As mãos cheias de manchas e a grande aliança dourada em seu dedo lhe chamou a atenção.

-Acorde velhinho, acorde.

Carter remexeu-se e num gemido acordou.

-O que aconteceu?

-Um blecaute desligou alguns sistemas. Aparentemente Eva está bem. Vamos até a sala de controle. Quer que lhe ajude?

-Peque a minha cadeira ali para mim, Luis.

Luis puxou a cadeira de roda para perto da maca e ajudou o velho homem a sentar.

-Deixe-me. – disse empurrando. Carter afastou-se rapidamente e tomou a frente deslizando a cadeira pelo assoalho.

“Pobre Carter”, pensou Luis. “Está preso a esta cadeira a tanto tempo… não o culpo por não querer sair do simulador”.

Quando Luis chegou a sala de comando, Claudius estava sobre a mesa calculando e anotando em uma folha grande.

-Segundo meus cálculos a taxa de crescimento do novo simulador está estabilizando no nível planejado. Houve um crescimento mais acelerado no início, mas agora está bem.

Luis um pouco mais aliviado não deixou de repreender o outro doutor:

-Culpa sua. Eu lhe disse que este tipo de replicação é imprevisível. Como está ela, o teste já terminou?

-Ela está bem. No momento seu cérebro entrou em modo emergência e ela ficará inconsciente por algum tempo.

-Ela está em coma, Claudius. – Carter replicou com uma voz rouca – Você sabe que o cérebro dela imita um humano em todos os detalhes. Ela entrou em coma para proteger o funcionamento de sua mente.

Luis voltou a franzir a testa:

-Ela voltará a tempo?

-”Ela voltará?”, seria uma pergunta mais adequada. – Claudius respondeu.

-O que faremos? – retrucou Luis.

Os três senhores se entreolharam, esperando que algum deles tivesse uma solução para o problema.

Até que Claudius insistiu:

-Vamos prosseguir com o programado. E rezar para que ela volte a tempo.

Sem ter mais o que fazer ali, os três voltaram para as macas na outra sala e deitaram-se.

-Todos prontos. Computador: acionar o sistema de interface.

-Sistema acionado – uma voz metálica respondeu.

Ao lado das macas um sistema automático ativou uma agulha para cada um e em segundos eles estava desacordados e sedados.

Quando Claudius abriu novamente os olhos estava de volta a sala de controle. Carter e Luis já estavam de pé no instante seguinte.

-Temos que agir rápido. Se ela voltar do coma e ver sua mãe assim vai surtar.

-Claudius, ela vai surtar de qualquer maneira. – Luis retrucou.

-Não se eu puder evitar. – Carter por fim respondeu. E sem gastar um minuto pegou nos pés de Ana enquanto Luis pegava pelas mãos. -Vamos levar os corpos para a enfermaria. Eu vou pensar em algo até lá.

Carter carregou fácil os corpos junto com Luis e Claudius. Levaram pouco mais de uma hora para levar os vinte corpos da saleta. Luis ainda insistia:

-Não poderíamos apenas sumir com eles?

-Não temos tempo para programar o sumiço no simulador e nem energia para executar o programa. Não é tão mal, aqui pelo menos Carter pode andar e nos ajudar a fazer o trabalho pesado.

-Eu ouvi isso Claudius. Melhor tomar cuidado com o que diz. Ainda mais que teremos que explicar ao financiador esta bagunça toda.

-O financiador tem motivos pra crer que tudo está sobre controle.

-Se ela acordar sim. Mas se ela ficar mais tempo assim o projeto estará perdido.

Quando os três chegaram na sala de controle, Eva estava sentada lendo o resultado do teste na tela do computador. O teste tinha acabado de ser executado.

Luis deu-lhe um sorriso enorme. Eva, ainda confusa, parecia querer encontrar os outros que estavam a pouco na sala.

E mais um capítulo está disponível. Ainda temos muita estória pela frente. Será que o acidente comprometeu o funcionamento de Eva? Logo saberemos…

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