Máquina – Parte 7

Segue a sétima parte de “Máquina”. Primeira parte de “Máquina” aqui.

Ela observava todos os grandes monitores, onde imagens de gráficos, sinais elétricos e listas intermináveis rolavam e mudavam constantemente. Pelo menos umas vinte pessoas estavam naquela sala, cada um em sua posição. A sala era muito ampla, o pé direito alto lhe chamou a atenção e os olhos rapidamente viram no outro lado da sala perto do teto uma estrutura suspensa envidraçada onde duas pessoas observavam tudo o que acontecia. Uns trinta metros a separavam de lá, mas podia ver outro possível médico com seu jaleco branco e um homem alto vestido elegantemente. Os olhos deste estavam escondidos atrás de óculos escuros.

-Quem é ele?

-Ele é o financiador disto tudo. Não sabemos nada sobre ele. Só que o dinheiro vem de lá. Nós não perguntamos muito sobre isso, afinal ele deu liberdade total aos pesquisadores.

-Claudius, você confia nele?

-Ninguém aqui jamais falou com ele. Então não sabemos. O que interessa é que o projeto continua firme. Graças a ele. Mas mudando de assunto. O que já sabe sobre a fase três?

-Você citou o fato que eu não terei mais um cérebro eletrônico…

-Exatamente e…

-E eu deduzi que vocês vão simular o meu cérebro dentro do Simulador.

-Muito bem. Você é mesmo extraordinária. É isso mesmo. Nós queremos lhe deixar livre das amarras do cérebro eletrônico que criamos para você.

-Só não entendi a necessidade disso.

Luis tomou a palavra:

-Olá, Eva. É bom revê-la.

Ele também aparentava estar muito mais velho do que a última vez que o viu. Ana pensou sobre como passou tantos anos conversando com ele e aprendendo sobre neurologia, genética, nanotecnologias, inteligência artificial, e tantas áreas do conhecimento.

-Lembra-se de nossas aulas de replicação eletrônica?

-Como é? – Eva não lembrou-se.

-Dispositivos eletrônicos replicantes: se reproduzem para criar grandes máquinas e para corrigir defeitos em alguns dos dispositivos.

-Sim, agora sim. O meu cérebro foi construído assim?

-Em parte. Porém as estruturas foram copiadas do DNA humano e por isso possuem as mesmas características. Algumas células não são substituíveis. Por exemplo, em nós humanos um rompimento da coluna vertebral não é naturalmente recuperável.

-O que isso quer dizer?

-Eva. Apesar de você ser uma máquina, alguns de seus neurônios eletrônicos e suas sinapses se forem desligados te destruiriam completamente.

-Então eu morreria?

-Digamos que sim. – Luis foi interrompido por Claudius:

-Nem todos concordamos com isso. Eu não concordo. Seria necessário uma falha catastrófica para você parar de funcionar.

-Claudius, não vamos recomeçar esta discussão, certo? Já chegamos a um consenso sobre o que fazer, isso é o que importa…

-Tem razão Luis. Embora as consequências de não fazermos nada não sejam um consenso.

O clima ficou tenso e só foi quebrado quando Carter apaziguou-os:

-Assim vocês vão deixar Eva insegura. Veja só Eva, é assim: você como é hoje pode morrer exatamente como qualquer um de nós. Talvez por uma falha simples, talvez por uma falha catastrófica. Temos certeza, por exemplo, que uma falha na energia que alimenta seu cérebro eletrônico é uma situação sem volta.

-Isso não me assusta. – Eva ponderou – É melhor do que imaginar que poderia morrer por muito menos…

Claudius continuou então:

-Pois é. O que queremos fazer aqui nem é garantir que você possa viver para sempre. Mesmo que isso possa acontecer por consequência. O que queremos é garantir que seu legado possa existir para sempre.

-Não entendo…. – Eva retrucou.

Luis continuou:

-Queremos garantir que você possa se reproduzir. Criar mais entidades como você. Relacionar-se com estas entidades. Garantir que um traço da espécie humana viva em você e em outros como você.

Claudius completou:

-Queremos que você viva por nós. Porque nosso tempo está por um fio.

-O nosso tempo está por um fio? – Eva perguntou.

Claudius tinha um olhar triste e respondeu:

-O seu tempo não, Eva. O tempo da humanidade. Estamos acabando. Morreremos todos em pouco tempo.

-Como pode ser isso?

-Estamos todos contaminados por um novo vírus muito resistente. Todos se tornaram estéreis. Não nasce uma criança a dois anos. É questão de tempo até todos morrerem. Os cientistas estão trabalhando para uma cura. Porém parece impossível.

-O que é este vírus? O que aconteceu? – Eva ficou atordoada.

Todos ficaram sérios e cabisbaixos. Ninguém costumava mais falar sobre o assunto. E ouvir aquilo novamente colocava todos diante do precipício.

-Veja só, o vírus começa atacando diretamente o sistema reprodutor humano. Destrói as células reprodutoras presentes, e o sistema de produção destas células. O processo é muito rápido, em poucas horas uma pessoa fica estéril. O vírus se propaga de diversas formas: ar, água, insetos. E sobrevive fora do ser humano por tempo indeterminado. Depois de incubado, o vírus provoca outro efeito: acelera o envelhecimento. Dependendo da condição de uma pessoa, o vírus pode matar em poucos meses.

Eva novamente se viu diante de algo impensável.

-Eu não sei o que pensar.

-Nós não tempo tempo para lamentações. Precisamos garantir que você mantenha a centelha humana. – Claudius retrucou.

-Mas eu sou uma máquina. Não foi isso que vocês disseram?

-Você é o mais próximo que temos de um humano que irá sobreviver. Todos aqui estão trabalhando para garantir que isso aconteça.

Novamente uma dor cortou seu coração. Ela não sabia como reagir a esta novidade. Cambaleando quase caiu. Ana aproximou-se de sua filha e a abraçou. Eva afundou-se em seu ombro e chorou.

Por longos minutos o silêncio tomou conta da sala. Até que Eva percebeu que a mãe em pouco tempo não estaria mais ali:

-Mamãe, você… você vai me deixar de novo?

Enfim ela entendeu que ficaria sozinha. Desta vem nem os professores, nem ninguém estaria com ela. As lágrimas rolavam na face de Eva. Ela não viu mas também Ana chorou.

Com este capítulo a primeira parte do livro está encerrado. Apresentei os principais personagens pelo menos de relance, e agora a ação vai realmente começar.

Eva está diante da Terceira fase do projeto e terá um desafio complicado pela frente.

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