Estou prosseguindo com a publicação de mais um dos capítulos de meu livro Vermelho Vivo.
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Para quem está ansioso pela demora dos capítulos, tenho uma ótima notícia: já terminei de escrever o livro inteiro. Ele será publicado e estará a venda neste blog nas próximas semanas. Está em fase de revisão e acabamento. Portanto, se não quiser esperar a publicação de cada capítulo, ou quer ter a obra em sua estante, prepare-se!
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Capítulo 10 – O Pouso da Phoenix
No centro de controle no JPL, acompanhávamos atentamente o momento do pouso da sonda. Dezenas de técnicos seguiam cada uma das fases do pouso de seus terminais, enquanto eu, Anna, Gavin, Reynaud e Won estávamos de pé no fundo da sala.
A sala de controle tinha o formato de uma rampa descendente e na parede da frente um grande telão apresentava várias informações e gráficos. Várias fileiras de mesas com telas de computadores estavam ocupadas por técnicos e engenheiros, cada um com suas atribuições e sua face tensa e concentrada. A decoração era toda em um azul berrante com alguns
logotipos espalhados.
Nós olhávamos tudo por cima dos ombros dos engenheiros enquanto ouvíamos as informações de um dos técnicos, responsável pela integração dos dados. Ele narrava cada uma das atividades com um entusiasmo crescente conforme os passos eram realizados.
-Ativação dos retrofoguetes, detectado;
Esta era a primeira ação: os retrofoguetes ativos provocavam a frenagem da nave que estava em órbita de Marte. A nave perderia altura e o atrito com a pequena atmosfera geraria um círculo vicioso.
-Cinco minutos para contato;
-Velocidade diminuindo em cinquenta por cento;
-Eliminação das amarrações, detectado;
-Ativar segundo nível de retrofoguetes, detectado;
A cada ação uma comemoração ainda tímida se ouvia. Gavin com os punhos serrados socava o ar impaciente. Anna permanecia sentada com a mão direita apoiando o queixo, com um olhar desdenhoso e em completo tédio. Achei aquilo estranhíssimo, porém meu nervosismo era tanto, que na hora nem pensei muito a respeito.
-Cinquenta metros e diminuindo;
-Paraquedas acionados, abertura detectada;
Esta ação arrancou palmas e alguns gritos mais efusivos;
-Um minuto para o contato;
-Trinta metros;
-Eliminação da capa de proteção, detectado;
-Acionar laser para medida de aproximação, detectado;
-Quinze metros;
-Remover proteção de trem de pouso, detectado;
-Dez metros;
-Acionar trem de pouso…
Um grande silvo agudo, seguido de apitos intermitentes como de um monitor cardíaco tomou conta da sala. Um sinal laranja piscou no telão em nossa frente. Todos levantaram os olhos para o telão. Gavin virou-se para um dos engenheiros que não tirou os olhos de seu monitor.
-Problemas com o trem de pouso, detectados;
-Cinco metros;
-Quatro metros;
Doutor Gavin, começou a gesticular enquanto berrava tentando ser ouvido pelo rádio. Eu toquei seu ombro para descobrir o que havia. Num gesto ele me afastou sem nem mesmo me olhar.
-Novo acionamento do trem de pouso…
-Problemas com o trem, detectados;
-Três metros;
-Dois;
-Dois e meio;
-Dois;
-Um e meio;
-Contato;
Todos fizeram um silêncio tenebroso. Somente o som do apito cortava a sala. Aguardamos os segundos seguintes até a definição. Eu levei minhas mãos ao rosto, torcendo pelo melhor. O sinal do rádio do responsável pela integração foi acionado e a resposta veio rápida:
-Sinais da sonda perdidos;
No mesmo instante o apito parou e o sinal laranja na tela mudou para vermelho. Uma exclamação de espanto e decepção ecoou pela sala.
Gavin arrancou o rádio e lançou no chão em um acesso de raiva.
-Perdemos todos os sinais de rádio;
-Sonda destruída no pouso. – e o técnico desligou seu rádio definitivamente.
Eu permaneci de pé por vários segundos. Um milhar de pensamentos desordenados tomou conta de meu cérebro. O chão sumiu embaixo de mim e eu senti minhas pernas tremendo. Sentei-me e não consegui ver nada ao meu redor.
Não sei quanto tempo fiquei ali desligado de tudo. Porém assim que me recobrei, olhei para os lados e tentei entender o que havia acontecido. Três anos do meu trabalho foram destruídos em uma fração de segundo. Nossas esperanças de termos nossas respostas imediatamente, foram frustradas.
Anna continuava impassível. A mão direita apoiando o queixo e o olhar entediado. Levantei-me indo em sua direção:
-O que há com você Anna? Não percebe o que acaba de acontecer? – eu disse em um acesso de fúria.
-Você é que não percebe Schumann. Você é que não percebe… – disse em um tom calmo e com autoridade. E ela deixou a sala sem nem mesmo olhar para trás. Andando devagar, como que me provocando.
Mister Won percebeu meu abatimento e me chamou para fora, enquanto todos na sala discutiam e recebiam ordens de Gavin para rever a telemetria e tentar descobrir o que havia acontecido.
Eu segui Won desanimado. E nem percebi que ele também estava tranquilo e seguro. No corredor ele começou a falar. Só depois dele dizer várias palavras eu comecei a realmente a ouvi-lo:
-… e não esperávamos nada diferente disso. Acha que quatro meses é o suficiente para um projeto desta complexidade? Pior: fizeram as escolhas erradas.
-Do que você está falando? Quem esperava este resultado?
-Eu esperava por isso. Anna também. Ela já participou do lançamento e pouso de outras sondas antes. Ela sabe que o pouso em Marte é traiçoeiro. Esta era uma sonda barata e de alto risco. Você ainda não tem experiência nesta área. Vai acostumar com as perdas.
-Espere aí, Won. E quanto a nós? Nosso pouso lá terá tantos riscos assim? Também poderemos nos espatifar no solo de Marte?
Won me olhou totalmente incrédulo.
-Carl. Você não entende mesmo não é? Nosso voo para Marte é quase um suicídio! Temos pouca chance de voltarmos com vida. Não acredito que você não tinha esta noção. -Ele falava e balançava a cabeça negativamente.
Eu senti minhas pernas novamente falharem. Ele percebeu e me apoiou e levou até um bebedouro onde me deu um pouco d’água.
-Não queria te assustar Carl. Mas, você sabe, ainda está em tempo de desistir. Você pode…
Desistir, este pensamento cruzou minha cabeça naquele instante. No entanto eu respondi:
-Não vou desistir. –e uma onda de coragem, ou idiotice, tomou conta de mim e me senti forte para enfrentar o medo que me paralisou. – Estaremos juntos em Marte, Won. Nem que seja para espatifarmos naquele monte de poeira vermelha.
Ele sorriu confiante:
-Só espero que este problema não atrase demais nossa missão.
Ficamos na Califórnia somente poucos dias após o acidente. O tempo suficiente para sabermos a causa: um dos sistemas de acionamento do trem de pouso falhou, causando o travamento dos outros. O impacto da sonda diretamente sobre o solo, apesar da pouca velocidade, deve ter causado o desligamento do equipamento.
A reação fria de Anna durante o pouso deixou-me totalmente irritado com ela. Eu não conseguia nem olhar para ela sem que uma raiva enorme me dominasse e fizesse afastar-me o mais rápido possível.
Uma raiva crescente tomava conta de mim, e piorava a cada vez que via ela e Won sorridentes pelos corredores do Laboratório.
Por fim, voltamos para Houston, para prosseguir com os treinamentos. O Diretor Gavin ficou de determinar o que faríamos a respeito: se lançaríamos uma nova sonda, ou nos arriscaríamos a uma viagem ao planeta Marte sem os dados conclusivos. Provavelmente a meta de irmos até a fim da década, ou não seria alcançada, ou teríamos que desistir de uma sonda.
Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com
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