Mais um capítulo do Livro Vermelho Vivo, de minha autoria.
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Capítulo 9 – Lançando o desafio
Finalmente começamos o treinamento para nos tornar astronautas. A bateria de testes físicos iniciais foi algo bem mais simples que eu imaginava. Exames clínicos comuns, um teste ergométrico em esteira, e uma tomografia completa. Todos gozávamos de perfeita saúde.
Pelo menos, saúde física. Quanto à saúde psicológica, bem, essa era outra história. Mas teríamos tempo para lidar com isso.
A primeira semana em Houston foi de grande animação e agitação. Conhecemos o local onde viveríamos os próximos dias, nossos novos instrutores e toda a infra-estrutura de treinamento.
O Presidente chegou no fim de semana seguinte e foi preparada uma coletiva de imprensa onde ele iria divulgar os termos da missão e nos apresentar. Seu discurso foi realmente inspirador, embora não todo verdadeiro. Era um dia de Sol e estávamos em um palco armado próximo a um dos lagos. As câmeras de todas as emissoras estavam lá presentes:
-Senhoras e senhores cidadãos deste país. Todos os presentes sabem que nós estamos nos preparando para uma nova conquista espacial. Desde o grande desafio de Kennedy para levarmos o homem à Lua, não tivemos momentos tão especiais. Momentos especiais e desafiadores.
-Eu era apenas um garotinho quando Armstrong disse aquelas palavras grandiosas: “Um pequeno passo para um Homem e Um grande passo para Humanidade”. Mas hoje é preciso um passo ainda maior. Chegou a hora de irmos mais longe. Conquistarmos e fincar nossos pés em um novo destino.
-A motivação para a conquista da Lua, pode até ter sido uma guerra fria, e uma corrida sem sentido. Porém, hoje somos todos aliados. Estão conosco representantes de todas as nações com tecnologia espacial.
-Estes mais de 50 anos sem visitarmos nossa companheira mais próxima, não representaram de forma alguma um atraso. Foi como uma inspiração antes do mergulho em águas mais profundas.
-Precisávamos dominar novas técnicas. Viver sem a gravidade é ainda um desafio. Mas estamos aprendendo.
-No próximo mês realizaremos uma nova visita a Lua. Seis de nossos melhores homens e mulheres irão pisar novamente naquele terreno poeirento.
-Mas desta vez isso será apenas um passo. Após ele iremos mais longe. Daremos o passo seguinte: Nós iremos a outro planeta.
-Estamos aqui, reunidos neste dia ensolarado, nesta tarde, para anunciar que a humanidade terá representantes pisando em Marte antes do fim da década! Nós o faremos.
Todos de pé ovacionavam o Presidente com uma calorosa salva de palmas. Ele fez um sinal para que parassem e prosseguiu:
-Queria lembrar a descoberta de Encélado. Esta pequena lua de Saturno, antes desconhecida de quase todos, tornou-se um lugar especial. Continuamos estudando todos os dados das sondas gêmeas. E novas informações podem aparecer ainda.
-Marte pode se tornar ainda mais especial. Com o que temos hoje de tecnologia, não podemos ainda ir visitar Encélado com nosso pessoal. Mas Marte está ali, próximo, possível. É o pássaro na mão.
-Gostaria de apresentá-lhes as pessoas que irão realizar este feito grandioso. Cada uma delas tem uma participação importantíssima na missão.
Levantamos os seis, e o Presidente nos apresentou:
-Estes são os representantes das nações amigas, que estão partilhando conosco deste momento mágico:
-Mister Liwei Won, engenheiro espacial, responsável por navegação, engenharia e pela participação chinesa no projeto;
-Doutora Claire Sophie, astronauta e engenheira, representando a agência europeia;
-Doutora Anna Ivanova, bioengenheira, participante da nação russa, irá realizar os experimentos mais importantes junto com o representante americano:
-Doutor Carl Schumann, biólogo, responsável pelos equipamentos e experimentos para a detecção de vida em Marte.
Não consegui me conter diante da apresentação. Minha emoção foi muito grande. Finalmente senti o peso da responsabilidade em minhas costas. Por sorte, eu não iria dizer nada, pois com certeza, gaguejaria.
-Por fim, quero apresentar dois de nossos melhores astronautas, respectivamente Comandante e Piloto da nave:
-Capitão Jayson Palmer e John Albert.
-Devo informar que ambos também estão escalados para o primeiro voo para Lua do projeto Constelation, que será realizado daqui alguns meses.
Neste momento o público aplaudiu ainda mais e os flashes das câmeras não paravam de ofuscar nossos olhos.
Bem ao meu lado, o Capitão Palmer sussurrou sorrindo muito:
-O discurso do Kennedy foi muito melhor que esta porcaria. Não conseguiu sequer uma frase de efeito?! – bateu no meu ombro e continuou acenando com entusiasmo para os fotógrafos.
O Presidente nos cumprimentou um a um posando para fotos e saiu de lá sem demora em seu helicóptero presidencial.
Fiz mentalmente as contas, e percebi que o Presidente nos deu apenas quatro anos para visitarmos Marte.
Aquele momento, naquela mesa, seria a última vez que nos encontraríamos até a fase final do treinamento. Palmer, John Albert e Claire não iriam participar do treinamento básico conosco, uma vez que já o tinham realizado. Eu, Anna e Mister Won permanecemos em Houston, enquanto os outros se preparavam para o seu voo até a Lua. Nos despedimos e cada um seguiu seu rumo.
Nosso treinamento básico foi realizado junto com uma turma normal do processo de formação da NASA. Evidentemente éramos motivo de curiosidade nos primeiros dias. Mas logo todos se acostumaram conosco.
O curso iniciou com muito estudo teórico, onde aprendíamos ciência, matemática, e muito sobre a tecnologia espacial. Estudamos os efeitos da falta de gravidade no organismo e o que deveríamos fazer para combater estes problemas.
Basicamente estudávamos em salas de aulas comuns durante grande parte do dia, e no fim da tarde realizávamos uma série de exercícios físicos para estarmos preparados para a viagem.
Não conseguimos manter contato direto entre nós três, devido à intensa carga de treinamento. Na verdade, eu mal consegui trocar duas ou três palavras com Anna durante estes seis meses. Eu a observava de longe e via o quanto ainda guardava seu luto. Uma tristeza sem fim tomava conta de seu semblante durante o tempo todo.
O Dr. Peter Martin continuava ligando para saber as novidades. Era reconfortante ouvir sua voz amiga e poder discutir o andamento do treinamento e expor minhas dúvidas e preocupações.
Iniciamos também o tratamento com um psicoterapeuta. Eu achei muito difícil falar sobre mim e minhas neuroses. Eu nunca havia feito terapia e para mim parecia algo totalmente inútil.
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Os seis meses passaram voando e terminamos esta fase do treinamento com ótimo rendimento e prontos para voltar à Califórnia e colocar a sonda Phoenix 2 para funcionar.
Durante o último mês antes de retornarmos, ficou claro que se para mim a terapia foi inútil, para Anna foi muito diferente: ela foi livrando-se da dor e da mágoa, e pareceu outra pessoa no retorno ao JPL.
Porém ela permanecia resistente à minha aproximação. E ficou claro que era algo pessoal, já que ela e Mister Won tornaram-se bons amigos. Muitas vezes no ginásio de esportes observei os dois conversando e sorrindo, enquanto se exercitavam na esteira. Confesso que não fiquei nada contente com isso. Meu coração parecia queimar-se ao vê-los juntos.
Ainda teríamos muito tempo de treinamento pela frente. Mas os seis meses de viagem da Phoenix até Marte já tinham passado e teríamos que analisar os seus resultados.
Voltamos ao JPL, em Pasadena, Califórnia para os momentos mais decisivos para o projeto até aquele ponto. Nossa sonda seria posta à prova e poderíamos ver o resultado de nosso trabalho.
Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com
Continua…
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