Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 10
Autor: Prof. Luis Eduardo | Data: 20 novembro 2008 | Por favor, Deixe seu Comentário!Mais um capítulo do Livro Vermelho Vivo, de minha autoria.
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Reaprendendo a viver
A bateria de testes físicos iniciais foi algo bem mais simples que eu imaginava. Exames clínicos comuns, um teste ergométrico em esteira, e uma tomografia completa. Todos gozávamos de perfeita saúde.
Pelo menos, saúde física. A saúde psicológica, é que seria outra coisa. Mas teríamos tempo para lidar com isso.
A primeira semana em Houston foi de grande animação e agitação. Conhecemos onde viveríamos os próximos dias, nossos novos instrutores e toda a infra-estrutura de treinamento.
O Presidente chegou ao fim de semana seguinte e foi preparado uma coletiva de imprensa onde ele iria lançar os termos da missão e nos apresentar. Seu discurso foi realmente inspirador, embora não todo verdadeiro. Era um dia de Sol e estávamos em um palco armado próximo a um dos lagos. As câmeras de todas as emissoras estavam lá presentes:
-Senhoras e senhores cidadãos deste país. Todos os presentes sabem que nós estamos nos preparando para uma nova conquista espacial. Desde o grande desafio de Kennedy há 40 anos para levarmos o homem à Lua, não temos momentos tão especiais. Momentos especiais e desafiadores.
-Eu era apenas um pequeno garoto quando Armstrong disse aquelas palavras grandiosas: “Um pequeno passo para um Homem e Um grande passo para Humanidade”. Mas hoje é preciso um passo ainda maior. Chegou a hora de irmos mais longe. Conquistarmos e fincar nossos pés em um novo destino.
-Uma motivação para a conquista da Lua, pode até ter sido uma guerra fria, e uma corrida sem sentido. Porém, hoje somos todos aliados. Estão conosco representantes de todas as nações com tecnologia espacial.
-Estes mais de 40 anos sem visitarmos nossa companheira mais próxima, não foram de forma alguma um atraso. Foi como uma inspiração antes do mergulho em águas mais profundas.
-Precisávamos dominar novas técnicas. Viver sem a gravidade é ainda um desafio. Mas estamos aprendendo.
-No próximo mês iremos realizar uma nova uma visita a Lua. Seis de nossos melhores homens e mulheres irão pisar novamente naquele terreno poeirento.
-Mas desta vez isso será apenas um passo. Após ele iremos mais longe. Daremos o passo seguinte: Nós iremos a outro planeta.
-Estamos aqui, reunidos neste dia ensolarado, nesta tarde, para anunciar que a humanidade terá representantes pisando em Marte antes do fim da década! Nós o faremos.
Uma salva forte de palmas com todos de pé ovacionavam o Presidente. Ele fez um sinal para que parassem e prosseguiu:
-Queria lembrar a descoberta de Encélado. Esta pequena lua de Saturno, antes desconhecida de quase todos, tornou-se um lugar especial. Continuamos estudando todos os dados das sondas gêmeas. E novas informações podem aparecer ainda.
-Marte pode se tornar ainda mais especial. Com o que temos hoje de tecnologia, não podemos ainda ir visitar Encélado com nosso pessoal. Mas Marte está ali, próximo, possível. É o pássaro na mão.
-Gostaria de apresentá-los as pessoas que irão realizar este feito grandioso. Cada uma delas tem uma participação importantíssima na missão.
Levantamos os seis, e o Presidente nos apresentou:
-Estes são os representantes das nações amigas, que estão partilhando conosco deste momento mágico:
-Mister Liwei Won, engenheiro espacial, responsável por navegação, engenharia e pela participação chinesa no projeto;
-Doutora Claire Sophie, astronauta e engenheira, representando a agência européia;
-Doutora Anne Ivanova, bioengenheira, participante da nação russa, irá realizar os experimentos mais importantes junto com o representante americano:
-Doutor Carl Schumann, biólogo, responsável pelos equipamentos e experimentos para a detecção de vida em Marte.
Não consegui me conter diante da apresentação. Minha emoção foi muito grande. Finalmente senti o peso da responsabilidade em minhas costas. Por sorte, eu não iria dizer nada, pois com certeza, iria gaguejar.
-Por fim, quero apresentar dois de nossos melhores astronautas, respectivamente Comandante e Piloto da nave:
-Capitão Jayson Palmer e John Albert.
-Devo informar que ambos também estão escalados para o segundo vôo para Lua do projeto Constelation, que será realizado daqui alguns meses.
Neste momento o público aplaudiu ainda mais e os flashes das câmeras não paravam de ofuscar nossos olhos.
Bem ao meu lado, o Capitão Jay Palmer sussurrou sorrindo muito:
-O discurso do Kennedy foi muito melhor que esta porcaria. Não conseguiu sequer uma frase de efeito?! - bateu no meu ombro e continuou acenando com entusiasmo para os fotógrafos. Eu não pude deixar de pensar que o Presidente era um republicano, ao contrário de Kennedy, e a observação de Palmer foi por mesmo isso.
O Presidente nos cumprimentou um a um para fotos e saiu de lá sem demora em seu helicóptero presidencial.
Fiz minhas contas de cabeça, e percebi que o Presidente nos deu apenas quatro anos para visitarmos Marte.
Aquele momento naquela mesa seria a última vez que nos encontraríamos até a fase final do treinamento. JP, Albert e Claire não iriam participar do treinamento básico conosco, uma vez que já o tinham realizado. Eu, Anna e Mister Won permanecemos em Houston, enquanto os outros se preparavam para o seu vôo até a Lua.
Nosso treinamento básico foi realizado junto com uma turma normal do processo da NASA. Evidente que éramos motivo de curiosidade nos primeiros dias. Mas todos se acostumaram.
O curso iniciou com muito estudo teórico, onde aprendíamos ciência, matemática e muito sobre a tecnologia espacial. Estudamos os efeitos da falta de gravidade no organismo e o que deveríamos fazer para combater estes problemas.
Basicamente estudávamos em salas de aulas comuns durante grande parte do dia, e no fim da tarde realizávamos uma série de exercícios físicos para manter o condicionamento.
Não conseguimos manter contato direto entre nós três, devido à intensa carga de treinamento. Na verdade, eu não consegui trocar duas palavras com Anna durante estes seis meses. Eu a observava de longe e via o quanto ainda guardava seu luto. Uma tristeza sem fim em seu semblante durante o tempo todo.
O Dr. Peter Martin continuava me ligando para saber as novidades. Era reconfortante ouvir sua voz amiga e poder discutir o andamento do treinamento e expor minhas dúvidas e preocupações.
Tínhamos também um trabalho de análise com um psicoterapeuta. Eu achei muito difícil falar sobre mim e minhas neuroses. Eu nunca havia feito terapia e parecia algo totalmente inútil.
Os seis meses passaram voando e terminamos esta fase do treinamento com ótimo rendimento e prontos para voltar a Califórnia e colocar a sonda Phoenix 2 para funcionar.
Durante o último mês antes de retornarmos, ficou claro que se para mim a terapia foi inútil, para Anna foi muito diferente: ela foi livrando-se da dor e da mágoa, e pareceu outra pessoa no retorno ao JPL.
Porém ela permanecia resistente a minha aproximação. E ficou claro que era algo pessoal, já que ela e Mister Won tornaram-se bons amigos. Muitas vezes no ginásio de esportes observei os dois conversando e sorrindo juntos, enquanto se exercitavam na esteira. Confesso que não fiquei nada contente com isso. Meu coração parecia queimar-se ao vê-los juntos.
Ainda teríamos muito tempo de treinamento pela frente. Mas os seis meses de viagem da Phoenix até Marte já tinham se passado e teríamos que analisar os seus resultados.
Voltamos ao JPL, em Pasadena, Califórnia para os momentos mais decisivos para o projeto até aquele ponto. Nossa sonda seria posta à prova e poderíamos ver o resultado de nosso trabalho.
Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com
Continua…
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