Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 8

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Mais um capítulo do Livro Vermelho Vivo, de minha autoria.

Lançamento da Viking 1. (1975). Crédito: Kennedy Space Center (KSC)

Lançamento da Viking 1. (1975). Crédito: Kennedy Space Center (KSC)

Capítulo 8 – Tempo de Morrer e Tempo de Nascer

Logo ficamos todos sabendo o motivo da viagem de Anna: seu marido, Boris, morreu em combate. Nenhum detalhe a respeito foi divulgado, como acontece em muitas guerras. O corpo foi levado da Tchetchênia até Moscou em um caixão lacrado. A nota de falecimento dizia que ele fora enterrado no cemitério Novodevichy. E seu túmulo ficara próximo do de Nikita Khrushchev.

Fiquei com o coração partido por ela. Naquela última conversa que tivemos, pude perceber claramente o quanto ela estava sofrendo. Imaginei porém, que esta definição sobre o que havia acontecido com o marido, de certa forma, lhe traria algum alívio. Talvez trouxesse sentimentos contraditórios de dor e alívio.

Ela ficou afastada por quatro semanas. O ambiente no laboratório não era dos melhores. Um recorrente murmurinho rodava pelos corredores, sobre a visita de Won e o sumiço de Anna e também Gavin. Won retornou à China imediatamente para finalizar a preparação do lançamento da Phoenix.

Todos especulavam a respeito do teor daquela reunião que tivemos. Não era segredo nenhum que uma reunião com o diretor Gavin era sempre seguida de mudanças estruturais nos rumos dos projetos.

Num dia atribulado, Cláudio procurou-me para tentar arrancar algum detalhe. Porém eu fui claro quanto ao nível de segurança das informações daquela reunião. Ele sabia bem o que isso queria dizer.

Aquele dia foi muito cansativo. Além de ter de responder aos questionamentos de Cláudio, estava revendo os relatórios com os resultados estatísticos da sonda. Tentava me convencer que ela seria suficiente para confirmar a vida em Marte. Sentei em meu sofá e os papéis começaram a ficar cada vez mais confusos. Acomodei-me melhor e devo ter dormido. Meus pensamentos iam até Moscou e eu tentava imaginar uma maneira de atenuar o sofrimento de Anna.

Com o laboratório envolvido por uma penumbra e meus olhos pesados, notei alguém entrando na sala. Não consegui vê-la corretamente, mas aproximou-se e pude perceber seus olhos castanhos. Sentia-me amarrado ao sofá, uma sensação estranha, mas familiar. Sem dizer uma palavra ela tocou meus lábios de leve com seus dedos longos, e meu corpo
reagiu. Mas não consegui me mexer. Agarrando meu pescoço, ela beijou-me os lábios com desejo, e entrei em um êxtase com aquele sabor doce e quente em minha boca. Parecia que flutuava no ar. Mas nada era bem definido. E na ânsia de agarrá-la tentei me mover. Mas algo parecia me manter imóvel. Fiz um esforço enorme para alcançá-la e acabei acordando.

Era apenas um sonho.

E ela era Anna.

Fiquei perturbado demais. Comecei a repensar sobre meus sentimentos para com ela, e percebi que não era apenas uma amizade sincera o que eu esperava. Senti-me culpado e confuso por nutrir este sentimento naquele momento em que ela estava tão frágil.

Recolhi os papéis do chão e procurei me concentrar em outra coisa. Afinal neste momento ela estava do outro lado do mundo velando seu marido.

Tinha que me ocupar daquela especulação que começou a aumentar no laboratório. Porém, nos dias seguintes ela logo deu lugar a uma grande ansiedade. O dia do lançamento de nossa sonda aproximava-se e todos esqueceram a tal reunião.

Um pequeno atraso na integração da nossa sonda ao foguete chinês adiou em algumas semanas o lançamento da Phoenix. Assim, com duas semanas de atraso, viajamos, eu e Dr. Reynaud, para a província de Sichuan, na China, para acompanhar o lançamento pessoalmente.

Chegamos a tempo de rever a sonda, já fixada no foguete. Won recebeu-nos com entusiasmo e com sua simpática humildade.

Era um dia ensolarado e pudemos acompanhar junto a outras autoridades a contagem regressiva. Os motores do foguete entraram em ignição: um forte barulho e leve tremor tomaram conta do bunker onde estávamos. Era possível ver a parte inferior do foguete acender em chamas.

Naquele instante alguém me tocou nos ombros por atrás. Eu girei num susto e quando focalizei aquela face, reconheci aqueles olhos castanhos.

-Olá, camarada! – Anna não disse mais nada, somente deu um sorriso amarelo.

-Eu sinto muito por tudo, doutora. – e veio-me à memória aquele beijo de meu sonho, porém me calei, já que não adiantava mais falar, o barulho do foguete virou um estrondo absurdo, fazendo-nos levar as mãos aos ouvidos e nos virar para ver o lançamento.

Ela vestia um vestido preto, ainda em luto. E o preto caia-lhe muito bem. Estava lindíssima.

O foguete partiu da base de lançamento Xichang rumo a Marte. Eu, Anna, Reynaud e Won observamos o lançamento e nos olhamos com a esperança que aquela sonda respondesse as nossas dúvidas. Assim que o estrondo passou, ela virou-se para mim e disse:

-Eu estou bem Carl. Não se preocupe. E pare de me chamar de doutora, por favor. Anna. É assim que deve me chamar agora.

-Está bem dout… – quase errei, e sorrindo corrigi-me – Anna. Seja bem vinda de volta à equipe!

Conversamos um pouco sobre amenidades e sobre o que chamamos falha de Encélado. Procurei não falar sobre o seu marido, melhor deixar a ferida cicatrizar. Ela pareceu-me mais relaxada e leve.

Depois do lançamento retornamos à Califórnia, ao JPL. Reynaud chamou-nos para contar as novidades. O Diretor Gavin deixou a ele a incumbência de transmitir os próximos passos de nossa tarefa, uma vez que continuava em Washington.

-Senhores, eu tenho novidades de Washington. É desejo do Presidente que nós façamos o que Won nos propôs. Iremos seguir os planos conforme o combinado: mais transparência e nosso pessoal em Marte o quanto antes.

-Ele entrou em contato com os responsáveis da ESA e com o governo chinês e o russo. Estão todos cientes da nova situação e estão tentando entrar em acordo sobre a forma como irão divulgar a falha em Encélado. De qualquer maneira, temos sinal verde para acelerar o programa para levar humanos para Marte, para que o tamanho do estrago seja menor. Ainda
não decidiram se divulgam antes ou depois da viagem.

-Fecharam também alguns detalhes sobre a viagem. Como sabem, a nave para Marte tem lugar para seis tripulantes. Teremos então: uma cadeira para os chineses, uma para os russos, uma para um representante da ESA e uma cadeira para americanos. As duas restantes serão da equipe técnica do voo: o comandante e o piloto.

-Os representantes russo e chinês já foram definidos: Doutora Anna Ivanova e Liwei Won. Os franceses, pela ESA estão propondo o nome da Dra. Claire Sophie. Ela participou de vários voos para a Estação Espacial. E está na fila para um voo para a Lua.

-Dr. Schumann, você é nosso candidato para a vaga americana. Basta aceitar a incumbência.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei olhando para ele com aquele olhar incrédulo. Anna me olhava com um sorriso nos lábios. E disse sem pensar:

-Não vai se ver livre de mim, nos próximos anos!

Todos rimos da brincadeira que foi ótima para quebrar o gelo.

-Se não temos objeções, então vão preparar as malas. Farão o treinamento padrão para astronautas. Schumann, Ivanova e Won, irão para Houston, Texas, no centro de treinamento Johnson Space Center. Depois dos exames médicos iniciais, serão apresentados à imprensa, em uma coletiva. O Presidente pretende fazer um discurso apresentando o projeto.

-O treinamento dura dois anos. Farão uma pausa ao final de seis meses quando retornarão para analisar os resultados da nave Phoenix 2. E dependendo do resultado prosseguiremos o cronograma. Ainda teremos mais uma fase de treinamento com os equipamentos que estão sendo desenvolvidos. Por fim, será preciso também treinar com o equipamento
Russo, na Star City.

Won interrompeu-o:

-O treinamento com o equipamento chinês poderá ser realizado na Rússia também. Temos muitos módulos comuns, e eu levarei o material para estudarmos as diferenças de forma simultânea. Não teremos nenhuma dificuldade em relação a isso.

Era quase palpável a eletricidade que tomou conta do ar naquela sala. Todos apreensivos e ao mesmo tempo ansiosos pelos acontecimentos que viriam.


Todos os direitos desta obra pertencem a Luís Eduardo Lima. email: contato_at_tecnoclasta.com

Continua…

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2 comentários para “Livro: Vermelho Vivo, Capítulo 8”

  1. Professor, estou adorando…!

  2. Laura disse:

    Tiane,Tudo bem!Quando falo em ser independente finneceiramante , ne3o e9 ser milione1rio, ganhar na mega sena ou ter que ganhar em um reality show, a metodologia DSOP nos leva a este patamar, mas antes temos que fazer todo o processo completo:Peguemos seu caso como exemplo:Quando temos um bom rendimento mensal e somos demitidos, a renda pode cair,ente3o somos obrigados a refazer nosso padre3o de vida e adequar nosso padre3o de consumo, mas como?1) Diagnosticar: Saber o valor de todo dinheiro que entra e sai, saber aonde vai parar cada centavo do nosso rendimento, seja muito ou pouco.2) Sonhar: Ne3o e9 o fato de diminuie7e3o da renda que temos de deixar nossos sonhos de lado, temos que continuar com nossos planos de realizae7e3o do contre1rio a vida ne3o valere1, mas o que termos que refazer e9 alterar o fator tempo e adequar a nova condie7e3o financeira. EX: Um computador sonho de 1 ano(curto prazo) , talvez passe para 2 anos ( me9dio prazo), mas continua valendo como um objetivo um sonho , entendeu?3) Ore7ar: Nesta fase e9 que vocea visualizare1 seus nfameros e sabere1 qual a sua real condie7e3o financeira e da onde podere1 sair o dinheiro necesse1rio para realizar seu sonho.4) Poupar : Neste Pilar e9 onde nasce os primeiros passos para sua futura independeancia, tenha em mente reter 10% no mednimo de todo dinheiro que passar por suas me3os, je1 pensou se viesse fazendo isso desde de quando comee7ou a ter contato com dinheiro, quanto ne3o teria poupado ate9 hoje!Esta reflexe3o e9 para saber que, independente de nossa renda atual, podemos a qualquer momento comee7ar a trilhar o caminho da INDEPEDcaNCIA FINANCEIRA com algumas mudane7as de comportamento para com o Dinheiro.Espero ter ajudado Obrigado.

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