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Como prometi, estou publicando os novos capítulos do livro meu livro: Marte. O nome ainda é provisório, mas espero me decidir logo. Alguma sugestão? Hoje vai o sétimo capítulo e amanhã o oitavo. Para os ansiosos, o nono capítulo já está em fase de revisão, então, talvez ainda publique no fim de semana. Aproveitem:
Atualizando
Título definitivo: Vermelho Vivo. No site leia os primeiros 10 capítulos do livro, o restante já está a venda, prestigie…

Assinatura de certificado por cosmonauta durante a acoplagem de nave Soyuz e Apollo. (1975) Crédito: Johnson Space Center (JSC)
Capítulo 6 – Mister Won
Continuamos com os trabalhos com muito empenho e os resultados logo começaram a aparecer. A máquina detectora de esporos diminuiu de tamanho e ficou mais e mais precisa.
Apesar do muito trabalho, pude receber algumas ligações do Dr. Peter Martin. Ele estava muito interessado no andamento do projeto, apesar de suas férias no Havaí. Seu telefonema sempre terminava em boas risadas. Afinal, relaxado como ele estava, era fácil arrumar alguma piada para tudo.
Em uma destas ligações, Peter se mostrou um pouco mais preocupado com a questão da entrada dos chineses no projeto. No entanto, quando disse que seria Liwei Won o engenheiro que participaria, suas preocupações se dissiparam.
-Mister Won é uma excelente pessoa. – acalmou-me Peter – Pudemos nos conhecer durante o primeiro projeto conjunto da NASA e a China. Ele é simples e muito prestativo. Inteligente que não acaba mais. Não consegui seguir o raciocínio dele algumas vezes. Precisou desenhar!
-Sem essa. Precisar desenhar para você! – eu já o tinha como um amigo, o que me permitia chama-lo de você, Peter, ou o que desejasse.
-Não o subestime. Quando precisar, puxe o papel e peça o desenho. – E sorriu em uma gargalhada. – Agora preciso desligar; minha esposa já está pedindo outro Martíni, e se continuar assim, eu terei que levá-la ao quarto carregada!
-Até logo meu amigo, espero que aproveite este período sabático. – emendei.
-Não é sabático. Afinal hoje é segunda! – novas gargalhadas. Porém mais sério ele prosseguiu – Na verdade é uma aposentadoria de verdade. Não pretendo retornar ao trabalho. Se soubesse que seria assim, já teria me aposentado antes!
-Então aproveite doutor. E curta sua família. Um abraço.
Logo que desligamos, doutora Ivanova chamou-me ao laboratório. Queria apresentar-me os novos resultado dos sensores.
-Dr. Schumann, veja estes resultados. – colocou uma folha com uma tabela sobre a mesa e continuou: – Segundo Cláudio, o computador pôde relacionar os dados dos dois sensores de forma a conseguir uma taxa de acerto na ordem de 90%. Os resultados estão cada vez melhores. Porém como poderíamos aumentar este valor?
-Se eu pudesse fazer enriquecimento, olhar os tubos de ensaio e selecionar pessoalmente as amostras, com certeza poderíamos chegar a cem por cento. Não há como eu manipular algum robô de controle remoto com câmeras, ou algo assim?
-Deixa de bobagem. – reclamou doutora Ivanova.- Quantas vezes eu terei que repetir: o atraso de dezenas de minutos da comunicação de dados entre Marte e a Terra impede controles em tempo real. Não entende isso, Carl?
Olhei bem para ela. Ela não percebeu que havia me chamado pelo primeiro nome. Era a primeira vez, e indicava que a intimidade estava aumentando. Talvez tenha sido um descuido ou coisa assim. Mas meu pensamento ficou divagando por um ou dois segundos. Até que meu raciocínio retornou ao assunto.
-É. Você está certa.
-Cláudio me apresentou um novo algoritmo de análise. Usando Lógica Fuzzy. Isso seria próximo do que você está propondo, conhece? – ela perguntou.
-Lógica Fully, é de comer?
-Fuzzy, doutor. Lógica Fuzzy. Com esta lógica seria possível armazenar seu conhecimento de análise. O computador capturaria seu conhecimento para escolher e examinar as amostras.
-Isso é meio assustador. Se o computador armazenar meu conhecimento, eles poderiam me mandar para casa. – brinquei.
-Não fale bobagens. Você tem conversado muito com o doutor Martin. Seu senso de humor está além do suportável ultimamente. – disse Anna, com aquele olhar reprovativo.
-Não mesmo. Meu senso de humor está ótimo. É a doutora que anda bem difícil nos últimos dias. – ponderei, afinal, realmente, ela parecia cada dia mais irritada e irritante.
-Não vamos começar com isso. Vou falar com Cláudio, preciso rever os algoritmos que ele está propondo. Minha experiência com lógica Fuzzy me diz que ela é muito promissora para este caso.
-Tudo bem, vá lá falar com o rapaz. Mudando de assunto; Acho que era hoje que o Dr. Won viria para cá. É isso mesmo, Anna?
-Por favor, não me chame de Anna. Eu insisto. – Seus olhos crisparam e não deram espaço para qualquer reação.
-Me desculpe doutora. Não vai se repetir. – respondi constrangido.
-O diretor Gavin deixou avisado que o chinês estará aqui à tarde. Deve recebê-lo junto com o doutor Reynaud.
Ela saiu estalando as tamancas para falar com Cláudio, e me deixou lá pensativo. Sua reação quando lhe chamei pelo primeiro nome foi extremamente exagerada. Por que não poderia chamá-la assim? Ela mesma não tinha acabado de me chamar pelo primeiro nome?
Tentei afastar estes pensamentos para me concentrar em juntar o material para a apresentação ao Mister Won. Já tinha se passado o primeiro mês, de um total de quatro, para o prazo definido na reunião com Reynaud. Embora tivéssemos avançado, não conseguimos diminuir o equipamento suficientemente.
Liwei Won chegou no início da tarde e foi-me apresentado pelo Dr Reynaud. Exatamente como Peter tinha me dito, sua aparência era simples e seus gestos comedidos. Vendo-o na rua, poderia ser confundido com um simples camponês perdido na cidade grande.
No entanto, quando comecei a apresentar os desenhos e as especificações do projeto que desenvolvíamos, ele apontou cada um dos gargalos para aumentarmos a precisão e diminuir o tamanho da máquina. Em pouco menos de vinte minutos ele já dominava o projeto e pediu a presença dos analistas e programadores, para que ele pudesse sugerir
algumas novas técnicas para aperfeiçoar os resultados.
Liguei para Cláudio em sua sala, pedindo sua presença. No entanto em poucos segundos, quem apareceu foi Anna, quase correndo e com a face enérgica. Chegou abrindo a porta com força e quase gritando:
-Não disse que estaria com Cláudio fazendo a análise do novo algoritmo? Será que não pode me deixar trabalhar um segundo?
Ela estava tão transtornada que não percebeu a presença de Won. Mal ela terminou de falar, Cláudio chegou correndo atrás, com aquela cara de quem fez o que pôde para evitar que ela saísse correndo.
Procurei responder com a maior calma possível, falando pausadamente e baixo:
-Desculpe-me, doutora Ivanova, não queria interrompê-los. Porém chamei Cláudio aqui para apresentá-lo ao novo integrante da equipe. Este é Liwei Won, ou Mister Won. Won, esta é a doutora Anna Ivanova, um dos nossos mais dedicados quadros neste projeto. E este é Cláudio, com quem você gostaria de falar.
Ela ficou lívida, e ainda tremendo cumprimentou Won e sem falar nada, saiu rapidamente cabisbaixa. Acho que nunca a vi tão constrangida como naquele momento.
O incidente com Anna foi embaraçador. Soube depois, à boca pequena, que ela saiu da sala e escondeu-se em um canto chorando. Nunca esperaria dela uma reação assim, pois sempre fora altiva e segura de si.
Won conversou um bom tempo com Cláudio e confirmou que Lógica Fuzzy seria ótima neste projeto. Prometeu que traria uma biblioteca de códigos de seu computador, pela internet, para facilitar ainda mais o trabalho dos programadores.
Seu grande conhecimento técnico de todas as áreas envolvidas e sua humildade para propor mudanças, fez com que ele fosse recebido de forma integral pela equipe, sem resistências. Uma semana depois, ele já era visto como um dos nossos. Além do que, como dissera Reynaud, seu inglês era impecável, muito melhor que o da doutora Anna.
Os novos algoritmos de Cláudio com a biblioteca de Won, mostraram-se totalmente seguros e precisos. Não tivemos mais problemas com as amostras. O sensor tinha agora um tempo de leitura excelente e apresentou grandes resultados.
Foi muito interessante a forma com que calibramos o equipamento. Cláudio preparou um programa que me fez uma espécie de entrevista. Ele apresentava imagens e medidas obtidas da máquina e pedia que eu identificasse o quanto estava próximo de um esporo.
Eu imaginava que durante a calibragem eu teria que responder algo preciso como: “o diâmetro do ponto destacado deve estar entre três e quatro micrômetros e a cor deverá estar com nível de azul entre dez e duzentos unidades”, ou outros parâmetros como estes. No entanto as minhas informações poderiam ser bem imprecisas: “o diâmetro do ponto destacado deverá ser pequeno e a cor levemente azul”. A lógica Fuzzy iria mapear estas informações imprecisas matematicamente e identificar com precisão as amostras. Porém a forma exata como a lógica realizava o mapeamento fugiu do meu entendimento.
Mister Won colaborou também com um espectrômetro miniaturizado. Ele trouxe do projeto da sonda que os Chineses iriam lançar junto com a nossa. Isso reduziu ainda mais o tamanho e o tempo do projeto. Se tivéssemos que reduzir o tamanho do espectrômetro que tínhamos anteriormente, o prazo se esgotaria.
A sonda chinesa tinha outros propósitos. Ela ficaria em órbita para mapear detalhadamente a composição química da tênue atmosfera e da superfície de Marte. Além disso, o projeto era testar o foguete para uma futura viagem até a Lua. O projeto astronáutico Chinês recebeu muito dinheiro desde o quebra da bolsa americana e mundial em 2008. A influência da China no retorno à normalidade foi decisiva, e marcou definitivamente sua posição como grande potência mundial. Os europeus também retomaram sua importância, uma vez que somente eles conseguiram acalmar os investidores.
Quanto a nosso projeto, no fim do terceiro mês conseguimos terminar o equipamento e embalá-lo para o transporte até a China, de onde seria lançado.
Anna pareceu cada vez mais melancólica e mais nervosa conforme o projeto ia caminhando. Atribuí seu nervosismo à sua responsabilidade no projeto. Verifiquei que os contatos com Moscou aumentaram muito neste momento. Possivelmente estariam pressionando-a mais do que poderia suportar.
Para comemorar o término da sonda, nos reunimos todos na entrada do laboratório onde tivemos um pequeno evento. Serviram champanhe. Anna apareceu preocupada e sumiu rapidamente. Todos os outros comemoraram muito. Dr. Gavin e Dr Reynaud fizeram discursos e entregaram simbolicamente a sonda a Mister Won.
Batizamos a sonda de Phoenix 2.
Mister Won seguiria com o equipamento para a China, juntamente com alguns de nossos engenheiros. Teriam ainda um mês para fazer integração da sonda ao foguete.
Foi uma vitória conseguirmos realizar o projeto dentro do prazo. Os próximos seis meses seriam o tempo da viagem, e somente após o pouso da nave em solo marciano teríamos os primeiros resultados.
Acreditava que teria um pouco de folga, porém este período de espera reservou surpresas ainda maiores.
Uma quinzena após a partida de Won, o diretor Gavin convocou-me, juntamente com Anna para uma de suas reuniões planejadas. Na última, como já citei, ele mandou Peter embora. Fiquei sabendo que ele só participava diretamente de alguma reunião se fosse mesmo decisivo para o andamento do projeto. Portanto minha expectativa quanto a esta reunião era enorme.
Quando entramos na sala do Colúmbia, encontramos Dr. Gavin de pé, como a face transtornada. Sentado ao seu lado Dr Reynaud parecia ainda pior, e olhava, com os olhos vermelhos, os picos gelados das montanhas. Para nossa surpresa, Mister Won pessoalmente e com um amontoado de papéis em mãos, parecia o único a demonstrar tranquilidade. Por algum motivo ele tinha retornado da China, antes do que esperávamos.
-Temos um grande problema… – disse Gavin com os dedos entrelaçados e a testa enrugada. – Um grande problema…
Continua…


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