outubro, 2008 Arquivos

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Conforme prometido, segue o sétimo capítulo.

Supostos fósseis de bactérias marcianas. Estudos posteriores à divulgação desacreditaram a descoberta. (1996). Crédito: NASA

Supostos fósseis de bactérias marcianas. Estudos posteriores à divulgação desacreditaram a descoberta. (1996). Crédito: NASA

Capítulo 7 – Mentiras e Segredos

O diretor Gavin mantinha seu semblante tenso e as mãos tremendo. Eu e Anna ficamos ansiosos para saber qual seria este problema tão sério.

-Quero que vejam estes papéis. Vejam isso. Digam que Mister Won está errado. – disse mostrando os papéis na mão de Won.

Won passou-nos os papéis fazendo negativas com a cabeça como quem sabe que está certo. Olhei as fotos e tabelas e não entendi a princípio do que se tratava. Porém, identifiquei as fotos claramente: eram imagens obtidas por um microscópio eletrônico. Uma delas era uma imagem desfocada de cristais, outra, de bactérias, ou pareciam ser.

-O que são estes papéis? – Perguntei. – E o que Won está dizendo de errado?

Sem deixar Gavin falar mais, Won pediu a palavra e começou a contar uma história muito absurda:

-O que estou dizendo é que não existe vida bacteriana em Encélado. Estes papéis comprovam isso. Mas deixe-me contar a história toda. Doutor Gavin, acalme-se, você vai entender tudo se me deixar falar.

-Prossiga Mister Won. – Gavin devolveu-lhe a palavra.

-Vocês sabem que as duas sondas da NASA que encontraram vida em Encélado eram naves gêmeas. Foram enviadas em pares para aumentar a possibilidade de sucesso no pouso, e para que cobrissem uma área maior da superfície de Encélado.

Continuou Won, enquanto ficamos com a respiração suspensa:

-Pois bem, as duas naves apresentaram um defeito nos seus sensores. O defeito de projeto era congênito, por isso ambas tinham o mesmo problema. As imagens obtidas pelos sensores eram desfocadas. Porém as imagens obtidas pareciam não deixar dúvidas que eram bactérias.

-Eu mesmo vi as imagens, – tive que interrompê-lo.

-Sim, mas você não sabia que as câmeras das naves não foram projetadas para detecção de bactérias. Não estavam lá para isso. O objetivo das mesmas era determinar a composição química dos jatos líquidos dos gêiseres. Como a NASA não esperava encontrar bactérias, não enviou sensores específicos para isso. O pessoal da ESA, a agência europeia, questionou muito as conclusões. E preparou uma sonda ela mesma para resolver a questão.

-E confirmou ser bactérias – eu completei.

O Dr. Gavin me repreendeu:

-Deixe-o terminar. – e pediu a Won que prosseguisse. Ele fez uma pausa longa, olhou-nos a cada um, direto nos olhos, respirou fundo e finalmente disse:

-O pessoal da agência europeia mentiu. Mentiu deliberadamente. Eles obtiveram imagens e dados conclusivos: a descoberta da NASA não eram bactérias.

-No entanto, divulgaram exatamente o contrário.

Ficamos atônitos. Dr. Gavin levantou da cadeira e esmurrou a mesa. Anna levou as mãos à cabeça e não parecia conformar-se.

-Como pode fazer uma acusação desta? O que mais sabe a respeito? – Dr. Gavin queria ir fundo na questão.

-Na época da descoberta, o meu governo tinha engavetado um projeto de uma nave similar aos Voyagers. Queríamos estudar os grandes planetas: Saturno e Júpiter. Eu estava diretamente envolvido com o projeto. Claro que assim que a NASA anunciou vida na lua próximo à Saturno, ficamos interessados em estudar as tais bactérias.

-Tocamos este projeto com prioridade máxima e a sonda fez a viagem, chegando a Saturno no último verão. Estes papéis são os resultados de nossos estudos. Não existe nenhum traço de vida lá. Nenhum. Ficamos estupefatos e intrigados. Então colocamos nossa inteligência para pesquisar o que poderia ter acontecido.

-Espiões? – perguntei ingenuamente.

Gavin fez um gesto afirmativo. E uma cara incrédula, por eu ter feito a pergunta. Won continuou:

-Não precisamos ir longe, o ex-diretor do projeto da ESA para a sonda a Encélado, confidenciou a um de nossos agentes o que havia acontecido. Na época do achado, para não comprometer-se com a mentira ele afastou-se. Ele não sabia nenhum detalhe do motivo da farsa, mas recebeu uma boa recompensa financeira da mais alta diretoria da ESA para calar-se. Os técnicos diretamente envolvidos com os dados também foram afastados.

-Também não foi difícil obter alguns detalhes das sondas gêmeas da NASA. E comparando as imagens da NASA com imagens simuladas em computador pudemos matar a questão: os cristais apresentavam uma aparência diferente sob a lente das sondas. A NASA não usou de má fé. Foi um caso de pareidolia.

Pensei imediatamente em pedir um desenho, como Peter havia me indicado num dos telefonemas. Mas ele continuou, como se a palavra “pareidolia” fosse a mais comum:

-Resumindo: não existe vida fora da Terra. Pelo menos não em Encélado.

Olhei novamente os papéis. Desta vez procurando evidências do que ele tinha dito. Tudo estava correto. Realmente sob estas novas informações, as fotos de Encélado não pareciam exatamente bactérias. Comparei rapidamente as fotos chinesas com as da NASA. Não havia o que contestar. Minha mente já tinha sua conclusão, mas meu coração não
aceitava. Por fim, me virei para Dr. Gavin com um olhar confirmativo. Foi o suficiente para que ele sentasse novamente, abaixasse a cabeça e não falasse mais nada.

Anna tomou então a palavra questionando:

-Isso não faz sentido. Porque a alta direção da ESA iria mentir assim? Porque sustentar que havia mesmo vida lá? Não entendo.

-Não sabemos os motivos. – respondeu Won – Mas tenho um palpite. As verbas do programa espacial europeu dobraram após a descoberta. A sonda europeia é a única oficialmente fazendo experimentos no local da descoberta. Mas só estou especulando.

-Não é possível. – Anna olhava os papéis e olhava para mim, como quem pedia para que eu negasse o que ela, também, já não contestava mais.

Won procurou posicionar-se:

-Senhores, eu trouxe esta questão aqui a pedido de meus superiores. Eles não querem desacreditar tudo o que os cientistas espaciais tem feito há décadas. E mais, não passa pela cabeça deles um corte de verbas para o programa Constelation. Eles não querem perder a chance de levar um chinês até Marte. E perder também o contrato bilionário da nave Chinesa.

-A opinião pública americana e mundial iria tripudiar sobre este grande vacilo da comunidade científica. Este sim, o maior de todos os tempos.

-Eles acreditam, e eu concordei que só será possível divulgar a verdade, se pudermos afirmar com certeza que em Marte também não existe vida. Ou que existe. Para isso devemos ter uma evidência tão forte que não possa ser contestada.

-Não queríamos envolver mais pessoas, isso poderia vazar. Por isso, só chamamos o diretor e vocês. Evidentemente vocês foram chamados para confirmar tecnicamente estes dados. E estou aqui sozinho, pois para todos os efeitos, os chineses não sabem de nada e foi algo que saiu de minha cabeça. Eu concordei com esta abordagem, porque estava sufocado querendo passar a informação para vocês.

Fez-se um silêncio enquanto eu ainda revisava os papéis. Tudo se encaixava e eu não pude deixar de encarar os fatos:

-Tecnicamente, está tudo correto diretor. Não tenho mais dúvidas. Encélado não tem bactérias – respondi e continuei:

-Quais são as consequências disso agora? O que vai mudar nos nossos planos?

Com uma mão coçando o queixo e a outra batucando a mesa, Gavin pensou por longos segundos. Girou a cadeira em direção à janela. Permaneceu com um olhar distante e, enfim, ele retornou:

-Won está certo. Precisamos provar de forma irrefutável o que fizermos agora. Evidências não servem para nada diante disso. Precisaremos de provas.

-Isso aumenta demais nossa responsabilidade neste projeto. Enormemente. Teremos que redobrar nossa cautela. Ao mesmo tempo temos que tornar tudo mais transparente. O que está acontecendo na ESA, só não foi desmascarado ainda, pois aquela missão foi caixa preta. Ninguém fora do projeto sabia ao certo o que eles estavam fazendo, quem eram os responsáveis. A única pessoa publicamente envolvida nisso foi o diretor afastado.

-Mas como iremos fazer isso? – indaguei – Como tornar mais claro, transparente?

-Teremos que nos expor. Divulgar tudo que está acontecendo. Divulgar todos os detalhes. Divulgar os resultados parciais. Os problemas, tudo. – continuou.

-Mas deixem comigo. Eu sou o diretor aqui, e vocês dois são engenheiros. Façam seu trabalho. Não falem sobre isso com mais ninguém. E preparem-se. A partir de agora vamos ter que divulgar tudo, tudo o que encontrarmos, em todos os detalhes.

-Infelizmente – ele refletiu – diante disso, acredito que a sonda que está a caminho de Marte não é o suficiente para confirmar o que temos lá. Teremos que ter uma abordagem mais direta.

-O que você tem em mente? – Anna perguntou.

-Independente do que encontrarmos lá, nós teremos que ir a Marte pessoalmente para confirmar. Eu terei que falar com o Presidente sobre isso.

Ficamos todos apreensivos. E a reunião encerrou-se naquele mesmo momento. Não havia mais nada a ser dito.

Na saída chamei Anna para o laboratório. Tinha que conversar sobre aquilo, a reunião não foi o suficiente para mim. Mal chegamos na sala, eu comecei a bombardeá-la:

-O que foi aquilo? Você acredita mesmo em Won?

-É a verdade. Você sabe Schumann. Por mais estranho que pareça, eu sempre vi aquelas bactérias com certa desconfiança. Foi algo instintivo. Algo estava errado, eu sentia isso.

-E quanto a Marte? Estamos perdendo nosso tempo? Não tem nenhum esporo de bactéria lá, não é?

Percebendo meu desespero, ela colocou sua mão direita sobre meu ombro, olhou-me bem nos olhos e permaneceu quieta. Parecia querer ler minha alma. Aquilo teve um impacto enorme em mim, senti meu coração disparar e minha respiração descontrolar-se. Não sei dizer o que pensei, se é que pensei algo, mas aqueles olhos castanhos e confiantes me olhavam.
Ela deu um leve sorriso, e me acalmei quase instantaneamente:

-Acalme-se Carl. Vamos saber a resposta para sua pergunta em alguns meses. – Ela apertou um pouco meu ombro enquanto dizia isso. Olho no olho, e alguma coisa aconteceu dentro de mim. Pelo que vi em seus olhos, algo aconteceu em nós. Mas, logo a seguir, em uma fração de segundo, sua atenção desviou-se para longe, ela abaixou os olhos que se tornaram turvos. Ficou confusa, e afastou-se de mim. E pude ver a mudança, ela estava de novo tomada por uma fúria. Virou-se e quando já ia saindo, eu, num momento de reflexo, segurei sua mão e a intimei:

-O que está acontecendo doutora? Por que este comportamento estranho?

Ela hesitou. Não me olhou diretamente, sentou-se e desatou a falar.

-Se refere ao meu estado emocional descontrolado? É simples, Carl, estou à mercê das notícias que não veem. Meu marido está incomunicável a mais de um mês. Não sei o que está acontecendo e o Kremlin não parece se importar com isso. Dizem que ele está naquela guerra, em uma missão secreta, sei lá. Não aguento mais isso. Eu até estava levando bem até o último mês, trabalhando como uma condenada. Porém, agora que nos resta esperar a sonda chegar a Marte… Estou esperando o pior a cada ligação…

Ela continuou falando e desabafando. Parecia que não tinha mais ninguém para ouvi-la. Falou sobre seus temores com a guerra, e como cada telefonema era uma tortura. E como não podia ficar um minuto sem fazer alguma coisa. E quanto à noite, sozinha em casa, era o pior. Só sabia chorar e quase não conseguia mais dormir.

Aquilo explicava tudo. Quem poderia viver tranquilamente e trabalhar tendo um pesadelo destes?

-Carl, eu não deveria dizer estas coisas para você. Não queria te envolver em meus problemas, você não tem nada com isso. Mas eu precisava falar. Isso estava me matando por dentro. Estava ficando doente.

-Doutora, às vezes nós devemos simplesmente contar com as pessoas. Eu não sou muito bom com amizades. Não sei direito o que fazer para cultivá-las. Normalmente eu estrago tudo. Mas se precisar de um amigo, conte comigo. Eu sou bom ouvinte.

Novamente ela me olhou. Com ternura desta vez. E novamente, depois de alguns instantes sua atenção foi para outro lugar. E, minha proposta em vez de fazer ela se acalmar, fez ela se agitar ainda mais. Ela levantou-se, e se afastou mais rápido desta vez. E com uma perturbação clara na voz disse, sem me olhar:

-Somos profissionais aqui, Carl. Não devemos confundir as coisas. Não devo mais falar sobre isso contigo. Esqueça. Esqueça…

Saiu da sala enquanto falava. Eu, desta vez, não reagi. Fiquei apenas sentado, um tanto desapontado.

Como disse a ela, eu costumava estragar tudo. E parecia que tinha dito algo que tivera este exato efeito.

Doutor Gavin, viajou para Washington naquela semana. Provavelmente teria que falar pessoalmente com o Presidente sobre o caso de Encélado. Teríamos que aguardar as decisões para determinar o que faríamos a seguir.

Enquanto isso, nas semanas seguintes, eu trabalhei com Cláudio nos sistemas e programas para analisar os dados que seriam colhidos pela Phoenix. Tivemos tão pouco tempo para preparar a máquina, que ainda restava muito a fazer para os sistemas em terra.

Anna, por sua vez, isolou-se ainda mais. Minhas tentativas de aproximação foram infrutíferas. Ela se esquivava sempre. Até que eu percebi que ela precisava de espaço e não insisti mais.

Eu não podia parar de pensar em seu sofrimento e em minha total incapacidade de fazer qualquer coisa para diminuí-lo.

Até que, numa manhã ensolarada, recebi um telefonema do Dr. Reynaud informando que ela iria viajar para Moscou naquele mesmo dia e iria retornar em algumas semanas. Mal tive tempo para despedir-me.

Continua

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Como prometi, estou publicando os novos capítulos do livro meu livro: Marte. O nome ainda é provisório, mas espero me decidir logo. Alguma sugestão? Hoje vai o sétimo capítulo e amanhã o oitavo. Para os ansiosos, o nono capítulo já está em fase de revisão, então, talvez ainda publique no fim de semana. Aproveitem:

Atualizando

Título definitivo: Vermelho Vivo. No site leia os primeiros 10 capítulos do livro, o restante já está a venda, prestigie…

Assinatura de certificado por cosmonauta durante a acoplagem de nave Soyuz e Apollo. (1975) Crédito: Johnson Space Center (JSC)

Assinatura de certificado por cosmonauta durante a acoplagem de nave Soyuz e Apollo. (1975) Crédito: Johnson Space Center (JSC)

Capítulo 6 – Mister Won

Continuamos com os trabalhos com muito empenho e os resultados logo começaram a aparecer. A máquina detectora de esporos diminuiu de tamanho e ficou mais e mais precisa.

Apesar do muito trabalho, pude receber algumas ligações do Dr. Peter Martin. Ele estava muito interessado no andamento do projeto, apesar de suas férias no Havaí. Seu telefonema sempre terminava em boas risadas. Afinal, relaxado como ele estava, era fácil arrumar alguma piada para tudo.

Em uma destas ligações, Peter se mostrou um pouco mais preocupado com a questão da entrada dos chineses no projeto. No entanto, quando disse que seria Liwei Won o engenheiro que participaria, suas preocupações se dissiparam.

-Mister Won é uma excelente pessoa. – acalmou-me Peter – Pudemos nos conhecer durante o primeiro projeto conjunto da NASA e a China. Ele é simples e muito prestativo. Inteligente que não acaba mais. Não consegui seguir o raciocínio dele algumas vezes. Precisou desenhar!

-Sem essa. Precisar desenhar para você! – eu já o tinha como um amigo, o que me permitia chama-lo de você, Peter, ou o que desejasse.

-Não o subestime. Quando precisar, puxe o papel e peça o desenho. – E sorriu em uma gargalhada. – Agora preciso desligar; minha esposa já está pedindo outro Martíni, e se continuar assim, eu terei que levá-la ao quarto carregada!

-Até logo meu amigo, espero que aproveite este período sabático. – emendei.

-Não é sabático. Afinal hoje é segunda! – novas gargalhadas. Porém mais sério ele prosseguiu – Na verdade é uma aposentadoria de verdade. Não pretendo retornar ao trabalho. Se soubesse que seria assim, já teria me aposentado antes!

-Então aproveite doutor. E curta sua família. Um abraço.

Logo que desligamos, doutora Ivanova chamou-me ao laboratório. Queria apresentar-me os novos resultado dos sensores.

-Dr. Schumann, veja estes resultados. – colocou uma folha com uma tabela sobre a mesa e continuou: – Segundo Cláudio, o computador pôde relacionar os dados dos dois sensores de forma a conseguir uma taxa de acerto na ordem de 90%. Os resultados estão cada vez melhores. Porém como poderíamos aumentar este valor?

-Se eu pudesse fazer enriquecimento, olhar os tubos de ensaio e selecionar pessoalmente as amostras, com certeza poderíamos chegar a cem por cento. Não há como eu manipular algum robô de controle remoto com câmeras, ou algo assim?

-Deixa de bobagem. – reclamou doutora Ivanova.- Quantas vezes eu terei que repetir: o atraso de dezenas de minutos da comunicação de dados entre Marte e a Terra impede controles em tempo real. Não entende isso, Carl?

Olhei bem para ela. Ela não percebeu que havia me chamado pelo primeiro nome. Era a primeira vez, e indicava que a intimidade estava aumentando. Talvez tenha sido um descuido ou coisa assim. Mas meu pensamento ficou divagando por um ou dois segundos. Até que meu raciocínio retornou ao assunto.

-É. Você está certa.

-Cláudio me apresentou um novo algoritmo de análise. Usando Lógica Fuzzy. Isso seria próximo do que você está propondo, conhece? – ela perguntou.

-Lógica Fully, é de comer?

-Fuzzy, doutor. Lógica Fuzzy. Com esta lógica seria possível armazenar seu conhecimento de análise. O computador capturaria seu conhecimento para escolher e examinar as amostras.

-Isso é meio assustador. Se o computador armazenar meu conhecimento, eles poderiam me mandar para casa. – brinquei.

-Não fale bobagens. Você tem conversado muito com o doutor Martin. Seu senso de humor está além do suportável ultimamente. – disse Anna, com aquele olhar reprovativo.

-Não mesmo. Meu senso de humor está ótimo. É a doutora que anda bem difícil nos últimos dias. – ponderei, afinal, realmente, ela parecia cada dia mais irritada e irritante.

-Não vamos começar com isso. Vou falar com Cláudio, preciso rever os algoritmos que ele está propondo. Minha experiência com lógica Fuzzy me diz que ela é muito promissora para este caso.

-Tudo bem, vá lá falar com o rapaz. Mudando de assunto; Acho que era hoje que o Dr. Won viria para cá. É isso mesmo, Anna?

-Por favor, não me chame de Anna. Eu insisto. – Seus olhos crisparam e não deram espaço para qualquer reação.

-Me desculpe doutora. Não vai se repetir. – respondi constrangido.

-O diretor Gavin deixou avisado que o chinês estará aqui à tarde. Deve recebê-lo junto com o doutor Reynaud.

Ela saiu estalando as tamancas para falar com Cláudio, e me deixou lá pensativo. Sua reação quando lhe chamei pelo primeiro nome foi extremamente exagerada. Por que não poderia chamá-la assim? Ela mesma não tinha acabado de me chamar pelo primeiro nome?

Tentei afastar estes pensamentos para me concentrar em juntar o material para a apresentação ao Mister Won. Já tinha se passado o primeiro mês, de um total de quatro, para o prazo definido na reunião com Reynaud. Embora tivéssemos avançado, não conseguimos diminuir o equipamento suficientemente.

Liwei Won chegou no início da tarde e foi-me apresentado pelo Dr Reynaud. Exatamente como Peter tinha me dito, sua aparência era simples e seus gestos comedidos. Vendo-o na rua, poderia ser confundido com um simples camponês perdido na cidade grande.

No entanto, quando comecei a apresentar os desenhos e as especificações do projeto que desenvolvíamos, ele apontou cada um dos gargalos para aumentarmos a precisão e diminuir o tamanho da máquina. Em pouco menos de vinte minutos ele já dominava o projeto e pediu a presença dos analistas e programadores, para que ele pudesse sugerir
algumas novas técnicas para aperfeiçoar os resultados.

Liguei para Cláudio em sua sala, pedindo sua presença. No entanto em poucos segundos, quem apareceu foi Anna, quase correndo e com a face enérgica. Chegou abrindo a porta com força e quase gritando:

-Não disse que estaria com Cláudio fazendo a análise do novo algoritmo? Será que não pode me deixar trabalhar um segundo?

Ela estava tão transtornada que não percebeu a presença de Won. Mal ela terminou de falar, Cláudio chegou correndo atrás, com aquela cara de quem fez o que pôde para evitar que ela saísse correndo.

Procurei responder com a maior calma possível, falando pausadamente e baixo:

-Desculpe-me, doutora Ivanova, não queria interrompê-los. Porém chamei Cláudio aqui para apresentá-lo ao novo integrante da equipe. Este é Liwei Won, ou Mister Won. Won, esta é a doutora Anna Ivanova, um dos nossos mais dedicados quadros neste projeto. E este é Cláudio, com quem você gostaria de falar.

Ela ficou lívida, e ainda tremendo cumprimentou Won e sem falar nada, saiu rapidamente cabisbaixa. Acho que nunca a vi tão constrangida como naquele momento.

O incidente com Anna foi embaraçador. Soube depois, à boca pequena, que ela saiu da sala e escondeu-se em um canto chorando. Nunca esperaria dela uma reação assim, pois sempre fora altiva e segura de si.

Won conversou um bom tempo com Cláudio e confirmou que Lógica Fuzzy seria ótima neste projeto. Prometeu que traria uma biblioteca de códigos de seu computador, pela internet, para facilitar ainda mais o trabalho dos programadores.

Seu grande conhecimento técnico de todas as áreas envolvidas e sua humildade para propor mudanças, fez com que ele fosse recebido de forma integral pela equipe, sem resistências. Uma semana depois, ele já era visto como um dos nossos. Além do que, como dissera Reynaud, seu inglês era impecável, muito melhor que o da doutora Anna.

Os novos algoritmos de Cláudio com a biblioteca de Won, mostraram-se totalmente seguros e precisos. Não tivemos mais problemas com as amostras. O sensor tinha agora um tempo de leitura excelente e apresentou grandes resultados.

Foi muito interessante a forma com que calibramos o equipamento. Cláudio preparou um programa que me fez uma espécie de entrevista. Ele apresentava imagens e medidas obtidas da máquina e pedia que eu identificasse o quanto estava próximo de um esporo.

Eu imaginava que durante a calibragem eu teria que responder algo preciso como: “o diâmetro do ponto destacado deve estar entre três e quatro micrômetros e a cor deverá estar com nível de azul entre dez e duzentos unidades”, ou outros parâmetros como estes. No entanto as minhas informações poderiam ser bem imprecisas: “o diâmetro do ponto destacado deverá ser pequeno e a cor levemente azul”. A lógica Fuzzy iria mapear estas informações imprecisas matematicamente e identificar com precisão as amostras. Porém a forma exata como a lógica realizava o mapeamento fugiu do meu entendimento.

Mister Won colaborou também com um espectrômetro miniaturizado. Ele trouxe do projeto da sonda que os Chineses iriam lançar junto com a nossa. Isso reduziu ainda mais o tamanho e o tempo do projeto. Se tivéssemos que reduzir o tamanho do espectrômetro que tínhamos anteriormente, o prazo se esgotaria.

A sonda chinesa tinha outros propósitos. Ela ficaria em órbita para mapear detalhadamente a composição química da tênue atmosfera e da superfície de Marte. Além disso, o projeto era testar o foguete para uma futura viagem até a Lua. O projeto astronáutico Chinês recebeu muito dinheiro desde o quebra da bolsa americana e mundial em 2008. A influência da China no retorno à normalidade foi decisiva, e marcou definitivamente sua posição como grande potência mundial. Os europeus também retomaram sua importância, uma vez que somente eles conseguiram acalmar os investidores.

Quanto a nosso projeto, no fim do terceiro mês conseguimos terminar o equipamento e embalá-lo para o transporte até a China, de onde seria lançado.

Anna pareceu cada vez mais melancólica e mais nervosa conforme o projeto ia caminhando. Atribuí seu nervosismo à sua responsabilidade no projeto. Verifiquei que os contatos com Moscou aumentaram muito neste momento. Possivelmente estariam pressionando-a mais do que poderia suportar.

Para comemorar o término da sonda, nos reunimos todos na entrada do laboratório onde tivemos um pequeno evento. Serviram champanhe. Anna apareceu preocupada e sumiu rapidamente. Todos os outros comemoraram muito. Dr. Gavin e Dr Reynaud fizeram discursos e entregaram simbolicamente a sonda a Mister Won.

Batizamos a sonda de Phoenix 2.

Mister Won seguiria com o equipamento para a China, juntamente com alguns de nossos engenheiros. Teriam ainda um mês para fazer integração da sonda ao foguete.

Foi uma vitória conseguirmos realizar o projeto dentro do prazo. Os próximos seis meses seriam o tempo da viagem, e somente após o pouso da nave em solo marciano teríamos os primeiros resultados.

Acreditava que teria um pouco de folga, porém este período de espera reservou surpresas ainda maiores.

Uma quinzena após a partida de Won, o diretor Gavin convocou-me, juntamente com Anna para uma de suas reuniões planejadas. Na última, como já citei, ele mandou Peter embora. Fiquei sabendo que ele só participava diretamente de alguma reunião se fosse mesmo decisivo para o andamento do projeto. Portanto minha expectativa quanto a esta reunião era enorme.

Quando entramos na sala do Colúmbia, encontramos Dr. Gavin de pé, como a face transtornada. Sentado ao seu lado Dr Reynaud parecia ainda pior, e olhava, com os olhos vermelhos, os picos gelados das montanhas. Para nossa surpresa, Mister Won pessoalmente e com um amontoado de papéis em mãos, parecia o único a demonstrar tranquilidade. Por algum motivo ele tinha retornado da China, antes do que esperávamos.

-Temos um grande problema… – disse Gavin com os dedos entrelaçados e a testa enrugada. – Um grande problema…

Continua…

O telescópio Hubble retornou ao funcionamento no último sábado pela manhã. Depois de algumas semanas de problemas, que temos acompanhado de perto, aqui e aqui, os engenheiros da Nasa realizaram novo teste de religação dos equipamentos científicos e tudo funcionou corretamente.

A Câmera principal está em funcionamento e suas primeiras imagems já estão sendo obtidas. Inicialmente serão apenas utilizadas para calibração, porém em uma semana, se tudo continuar perfeito, as primeiras imagens científicas serão realizadas.

Vida longa ao telescópio espacial!