Livro do autor novato: Vermelho Vivo, capítulo 2

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Pesquisador Trabalhando no laboratório Light Alloy (1996) . Foto Crédito: NASA

Pesquisador Trabalhando no laboratório Light Alloy (1996) . Foto Crédito: NASA

Capítulo 2 – Projetando na Dinamarca

Eu olhava para o Dr. Peter e seus olhos cheios de rugas sob os óculos e esperava mais detalhes daquela proposta. Achar vida em Marte, quem diria?

-Dr. Schumann, – Peter prosseguiu – sei que já está comprovada vida em outros planetas. A vida em Encélado é, sem dúvida, a maior descoberta da NASA desde que foi criada. No entanto, esta lua de Saturno está longe demais para uma viagem humana com segurança. Portanto, pelo menos por enquanto, estes vizinhos não têm outras influências práticas em nossa vida aqui na Terra, a não ser alguns questionamentos filosóficos. Mas estou divagando. -o doutor fez uma pausa, para tentar reorganizar os pensamentos.

-Retornemos. As últimas sondas para Marte não indicaram nenhuma presença de vida no planeta. Vasculhamos todas as regiões mais prováveis. As sondas confirmaram que várias regiões já foram cobertas por água salgada. Algumas durante milhares de anos.

-A sonda Phoenix, – continuou – que esteve no norte de Marte em 2008 confirmou a presença de água congelada. A água ainda está lá. – Fez uma longa pausa.

-E é aí que você entra.

Curvei-me para me aproximar, sentado na ponta da cadeira; dava todos os sinais que eu fora fisgado pela isca.

-Existe uma pequena possibilidade. Nós acreditamos que possam existir bactérias ou fungos na forma de esporos. – Peter disse isso com uma voz sussurrada, como quem conta um segredo.

Olhei para as outras pessoas na saleta, e os dois pareciam esperar uma resposta minha, com um olhar entre o inquisidor e o curioso.

Tomei a palavra – Mas qual o problema haver esporos em Marte. Em Encélado são bactérias inteiras, vivas. As imagens dos microscópios são irrefutáveis. – rebati sem entender o drama do doutor.

-O problema, Dr. Schumann, é que estes dois homens estarão em Marte nos próximos anos, e seria terrível se esporos de bactérias pudessem estragar o passeio deles. – Um dos homens que estava mais próximo a mim levantou-se e se adiantou em minha direção dizendo:

-Eu sou o Capitão Jayson Palmer. Pretendo ser o Comandante da primeira nave que viajará até Marte. Doutor, durante a viagem, estes esporos poderiam nos contaminar?

Aquilo começou a ficar estranho. Afinal, não havia esporo algum, nada. Precisando de mais informações comecei a fazer as perguntas:

-Impossível fazer qualquer especulação. Precisaria de mais detalhes, capitão. Já estudei bactérias e fungos que sobrevivem em situações absurdas. Mas nunca pensei nisso em outro planeta. Sob que condições nós estamos falando?

-O local do pouso será próximo ao “permafrost” no Norte de Marte. Temperaturas entre -16 e -90 graus centígrados.

-Palmer, nós teremos tempo depois para os detalhes – Peter interrompeu-o. E dirigindo-se para mim – Dr. Carl Schumann, precisamos ter a certeza que não existem bactérias lá sob qualquer forma. Mas, caso existam, precisamos garantir que os astronautas e mesmo a nave não se contaminem. Não desejamos trazer bactérias alienígenas aqui para a Terra. Pelo menos não fora de tubos de ensaio. Queremos você na equipe para coordenar as ações neste sentido.

-Parece tentador. – Respondi.

-Só que nós temos um problema.

-Qual seria este problema? – Perguntei.

-A NASA não sabe que estamos te chamando. Meus superiores não concordaram com minhas objeções sobre este problema. Nós quatro somos os únicos a par de seus trabalhos. Precisamos discrição quanto a isso. Conseguimos um lugar aqui no Instituto Bohr para você trabalhar e formar sua equipe. Aqui tem alguns detalhes sobre verbas disponíveis e alguns estudos em que precisamos de seu apoio. – Passou-me um envelope branco com alguns CDs de dados.

-Poderia estudar isso com calma e nos dar uma resposta o quanto antes?

-Vou precisar de um tempo para isso, são muitas informações ao mesmo tempo. E também não planejava me mudar para tão longe.

-De qualquer maneira é realmente um desafio muito interessante para um simples biólogo!

Deram-me uma semana para pensar e deixamos marcada uma reunião. Eles ofereceram um quarto na faculdade e me mostraram o local onde iria trabalhar.

O laboratório disponível era amplo e completo. Em um canto uma mesa grande com um computador estava pronta para ser meu escritório.

Nos dias seguintes conheci todo o Instituto e pude estudar o material apresentado pelo doutor Peter. Vi que meus artigos sobre o funcionamento do processo de “hibernação” das bactérias em forma de esporos foram citados algumas vezes nos textos. Nos CDs encontrei ainda algumas matérias sobre Antraz; alguns estudos de contaminação de materiais no espaço; um pequeno artigo sobre a poeira da Lua que ficou presa nas botas dos astronautas e entrou na nave Apolo e o procedimento de isolamento dos astronautas no retorno à Terra…

A semana passou rápida. Mesmo sem pensar, já comecei a desenvolver o projeto. Obtive algumas imagens do solo marciano e alguns dados sobre as condições gerais de temperatura e umidade. Fiquei surpreso com informações de geadas na madrugada de Marte e a presença de vapor d ́água na atmosfera.

Na reunião da semana seguinte fechamos um acordo. Meu primeiro projeto seria determinar uma forma de detectar bactérias ou fungos em forma de esporos. Formaríamos uma equipe que projetaria um protótipo.

Até aquele momento nunca tinha pensado nas dificuldades de construir um equipamento para viajar até outro planeta e realizar experiências científicas controladas remotamente. Detectar esporos e revivê-los em uma cultura era algo muito simples. Desde que os mesmos estivessem a alguns centímetros de minhas mãos e de meus olhos nos microscópios. Porém estando a milhões de quilômetros, como faria?

Minha equipe era composta por dois engenheiros da NASA e um auxiliar bioquímico. Trabalhamos duro por vários meses em muitas experiências e equipamentos.

Incomodava-me muito o fato de estar trabalhando quase em segredo. Porém, Peter prometeu-me abrir o jogo assim que a máquina em que eu estava trabalhando estivesse adiantada. Inteirei-me sobre os preparativos para a viagem a Marte e tudo estava indo muito rápido. Os prazos eram curtos e com os foguetes já estavam prontos. Os pontos da missão agora estudados eram os controles dos recursos e determinação dos estudos científicos que seriam realizados. Parte da tripulação já fora escolhida e estavam em treinamento.

A proposta de Peter era que a máquina detectora de esporos deveria ser instalada no módulo de pouso e iria realizar todos os testes antes que os astronautas andassem pela primeira vez no solo de Marte. Peter Martin ainda teria que convencer os seus superiores que esta cautela a mais não prejudicaria o cronograma apertado.

Os engenheiros de minha equipe eram muito experientes. Já tinham trabalhado com o doutor Peter e eram de sua confiança. Porém eram especialistas em equipamentos óticos e eletrônicos. Construíram câmeras sob as especificações do doutor. Câmeras usadas em várias sondas espaciais. Porém tiveram problemas para atender minhas orientações, afinal minha experiência com Astronáutica era nula. Reagentes químicos, solventes e microscópios tiveram que ser organizados e movimentados por braços mecânicos, motores e observado por câmeras. Os engenheiros mais experientes na área de bioengenharia estavam ocupados com outro projeto.

O trabalho tomou minha vida inteiramente nos seis meses seguintes. As jornadas iam até altas horas e meu costume de dormir no próprio laboratório continuou. Providenciei para isso um sofá.

Quando o projeto do equipamento estava quase completo, Dr. Peter marcou uma reunião com a direção da missão da viagem a Marte. Iríamos apresentar nossas ideias e a máquina para aprovação. A máquina estava completamente projetada. Quer dizer, o protótipo da máquina. Questões mais práticas ainda deveriam ser estudadas. O projeto ficou enorme e pesava ainda cerca de duzentas quilogramas. Um processo de miniaturização deveria ser ainda executado. Mas não tínhamos tempo e a apresentação deveria ser feita assim mesmo.

Segui de volta à América, em um voo longo e com muitas preocupações sobre o destino de meu trabalho.

continua…

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7 comentários para “Livro do autor novato: Vermelho Vivo, capítulo 2”

  1. André Praeiro disse:

    Muito bacana até agora.
    Aguardo o próximo post! Estou curioso.

  2. [...] Livro do autor novato: Marte, capítulo 3 [...]

  3. [...] Livro do autor novato: Marte, capítulo 3 [...]

  4. Laine disse:

    Hummmmmm,que legal.adorei este capitulo.

  5. [...] Livro do autor novato: Marte, capítulo 3 [...]

  6. Rani Fenandes disse:

    To afim de ir a marte
    Mais nao tenho nave espacial

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